Após dois anos de ausência do território nacional, Sofia Marques, de nome artístico Mema., regressou com o lançamento do seu novo EP “A Cidade do Sal”, no passado dia 9 de outubro.

Através de um registo musical particular, marcado pela música eletrónica, e pela música tradicional, o álbum surge como uma homenagem à sua cidade berço, Aveiro. Ao mesmo tempo, funciona como uma transposição dos sentimentos da artista.

Em entrevista ao Gerador, Sofia Marques falou acerca do seu percurso, do surgimento do álbum, do regresso a Portugal, e dos objetivos que ainda gostava de alcançar.

Gerador (G.) – O teu novo EP chama-se “Cidade de Sal”, e é composto por seis canções de cariz intimista. Ao escutar as músicas do álbum houve algumas das letras que associei, automaticamente, ao estado de incerteza que muitos de nós estamos a viver. O álbum tem realmente alguma associação com este período mais controverso? E porquê o lançamento, do mesmo, neste ano atípico?

Sofia Marques (S.M) – O EP “Cidade do Sal” começou a ser magicado quando ainda estava fora do país, ainda vivia em Dublin, Irlanda, em finais de 2018.

Começou a tomar forma, de uma maneira mais séria, no início de 2019. Aliás, este EP já está pronto desde maio/ junho de 2019. Como era um novo projeto, quis ir inserindo a minha sonoridade aos poucos, apresentá-la aos poucos ao público.

Ter lançado este ano foi mesmo um mero acaso. Da pandemia, ninguém estava à espera. O primeiro single foi lançado em 2019, e o EP era para ter sido lançado mais cedo. Não aconteceu. Acabei por lançar o single “Primeiro Norte” exatamente quando Portugal estava a fechar escolas e tudo.

Foi tudo um acaso, a questão da temática do EP se colar a este estado, nem sei bem que lhe chamar, a esta nova forma de ver que nos foi introduzida em 2020. Foi muito por acaso. Mas, para te dar uma contextualização, teve muito que ver com a fase da minha vida em 2018. Precisava de uma mudança, de ir atrás daquilo que queria fazer, havia muita incerteza, mas com a vontade de partir para algo melhor.

Fotografia disponível via facebook Mema

(G.) – És natural da cidade de Aveiro, o que me leva a crer que o título do teu EP, “Cidade do Sal”, surge precisamente associado a este lugar. Podes falar um pouco sobre o que esta cidade representa para ti?

(S.M) – Sim, claro! Eu nasci em Aveiro, e parte da minha família é de lá. A outra parte é de outros sítios. Mas, para mim, a cidade do sal representa um regresso às origens, e foi exatamente isso que comecei a fazer. Eu costumo dizer a toda a gente que me bateu a síndrome do emigrante — Portugal é que era, temos coisas tão boas — com as saudades.

E foi um pouco isso que comecei a fazer com a música tradicional, ver o que há para além do fado, e comecei à procura das raízes. Dessas outras sonoridades que caraterizam Portugal tão bem quanto o fado, mas não são tão conhecidas.

Aliado a essa procura do tradicional, ou pelas raízes portuguesas, comecei a ter uma grande vontade de voltar a casa em Aveiro. E, aí, também dar o nome de Cidade do Sal, porque Aveiro é muito conhecido pelas salinas, por toda a produção à volta do sal, e do mar. Achei que fazia todo o sentido, porque a minha busca pelas origens é a minha cidade sal, por assim dizer, é a minha estrutura.

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(G.) –  Além de Ílhavo e Aveiro, há duas cidades cuja influência foi fundamental para o desenvolvimento do projeto que hoje conhecemos como Mema.: Berlim e Dublin. Podes explicar um pouco a importância destas duas cidades, para ti?

(S.M) – Estas cidades acabaram por ter influência no EP, e nesta sonoridade enquanto Mema., quase por acaso. Talvez tenha sido algo subconsciente… Tudo aquilo pelo que passamos, as experiências que passamos, começas a aperceber-te, aos poucos, de que todas as coisinhas que passas na vida vão ter um impacto a nível pessoal.

Berlim, eu vivi lá nove meses. Fui para lá com a intenção de quebrar um bocado com a música. No entanto, acabei por descobrir um grupo de pessoas, um coletivo de produtores, em que nos reuníamos todas as semanas, tínhamos desafios de produção, todas as semanas também, e tudo isso ajudou-me a crescer e a descobrir a produção musical. Eu não produzia diariamente, fazia algumas coproduções, mas nunca me via enquanto produtora, e penso que Berlim teve um papel muito ativo dessa forma: como agora me vejo, enquanto produtora, enquanto artista.

Além disso, a eletrónica também só se começou a cimentar em Berlim. Comecei a fazer música eletrónica. Acabou por se incorporar de uma forma muito natural na minha música.

Dublin foi importante, porque me começou a mostrar a preservação da música tradicional, no dia a dia, e a forma como pode ser aliada a outros géneros. Se calhar, também teve muito que ver com uma data de género, e de artistas, que saíram nessa altura. Artistas, em Portugal, como Conan Osíris, ou tantos outros que começaram a aparecer com mais força nessa altura. Isto era para aí de 2016 a 2018.  E, em Dublin, respira-se música, tudo é música. 

Em Berlim, foi onde surgiu o nome Mema. Em Dublin, começou a surgir esta sonoridade, e foram experiências muito importantes, para mim, enquanto pessoa. 

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(G.) – Ao escutar a música “Perdi o Norte” fiquei com a sensação de que esta pretende ser um grito pessoal misturado com um tom de esperança. Sentes que a música, mais do que as outras artes, tem este poder de alento?

(S.M) – Sim, completamente! Mas eu sou suspeita, porque a música, desde cedo, foi para mim alento. Das minhas primeiras memórias musicais é a minha mãe a cantar para mim para me adormecer, e acho que a música tem sempre esta conotação para mim. Isto pode soar muito clichê, mas é mesmo o meu refúgio.

Eu não sei se tem mais ou menos poder de alento em relação às outras artes, porque acho que todos nós vivemos as artes de forma diferente. Por exemplo, eu não sou tão adepta de pintura, mas, se calhar, há pessoas que a olhar para um quadro sentem o que nós sentimos a ouvir música.

Mas, de facto, a música tem esse poder de rapidamente se encaixar noutros formatos. Pode-se aliar facilmente ao cinema, pode-se aliar facilmente mesmo à pintura. Uma instalação de arte pode ter uma música de fundo.

mema. - Perdi O Norte

(G.) – Ao ouvirmos as tuas músicas encontramos tanto caraterísticas de música eletrónica como de instrumentos típicos da música tradicional portuguesa. Sentiste, desde logo, que o teu estilo musical foi bem aceite pelo público português? Ou sentiste que, por teres este lado mais único, as pessoas te tendiam a desvalorizar?

(S.M) – É uma boa pergunta! Não tenho bem a certeza, nem sei bem como responder a isso… Eu senti-me bem recebida até… O primeiro single, “O Devedor”, penso que foi bem recebido, mas sinto que só tive aquela aceitação, ou abertura para um público mais vasto, quando lancei o “Perdi o Norte”.

O “Perdi o Norte”, penso que foi mais bem aceite por toda a gente, talvez porque tem uma dinâmica mais rápida… Se calhar, porque já tinham ouvido aquele primeiro trabalho que é um pouco mais sério…

Mas eu penso que, de certa forma, já há uma abertura muito grande para este tipo de estilos novos. E, na verdade, nem é um estilo muito novo…. OK, dou-lhe o meu cunho, mas se formos a ver, por exemplo, o grupo da Sétima Legião, ou mesmo o próprio António Variações, já era um estilo que era usado nessa altura.

Ainda assim, penso que com estas novas gerações, e nos últimos anos, tem havido uma busca pela singularidade, pelo particular que existe em cada país. Mesmo dentro de Portugal, sinto que há uma grande valorização pelo que se faz nas regiões.

Infelizmente, sempre fomos muito centralizados em Lisboa, mas atualmente, felizmente, temos muitos artistas, por exemplo do Norte, que estão a pegar, finalmente, sem vergonha, nos seus sotaques, e a tornar isso em fenómenos. Eu admiro muito o David Bruno, por exemplo, porque ele, de uma forma meia cómica, consegue pegar nesse regionalismo, e torná-lo respeitado.

Acho mesmo que há, cada vez mais, uma abertura bonita. Claro que há céticos, mas isso há de sempre haver.

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(G.) – Se te pedisse agora para escolheres uma música do teu álbum, qual escolherias? E porquê?

(S.M) – Para mim, “Fôle(go)”, essa é muito fácil para mim. Eu adoro a cadência da música, a forma como embala desde uma parte mais grave e tranquila, para um refrão com mais força.

Por outro lado, porque essa música fala muito sobre a minha ansiedade. Tive crises de ansiedade um pouco preocupantes, e comecei a ficar com falta de ar, e o tema é sobre isso. Sobre essa pessoa que ficou tão presa dentro das suas preocupações, que ficou sem ar. Ficou sem fogo.

Ao mesmo tempo, foi uma tentativa de pegar ali na gaita de foles, que é um instrumento que não é muito usado, e eu queria usar, e até acho que resultou bem.

Mas a principal razão é a temática. Acho que a ansiedade ainda é um tabu muito grande na nossa sociedade.

mema. - Fôle(go)

(G.) – Sentes que tens alguma fonte de inspiração para a escrita das tuas letras?

(S.M) – A maior parte das vezes é a experiência do dia a dia. Tem muito que ver com o prisma pessoal e profissional. Mas, maioritariamente, é pessoal. Eu sinto a necessidade de expressar para fora através da música. Eu tenho de pôr estes sentimentos negativos cá para fora, ou mais lamechas.

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(G.) – Outro aspeto que achei curioso nas tuas músicas é que todas elas são acompanhadas por videoclipes com uma dimensão visual muito forte. Sentes que a aposta neste lado mais cinematográfico consegue dar uma maior força à tua música?

(S.M) – Sim, sem dúvida! Era uma visão que já tinha há muito tempo com a minha música, e agora com este projeto acho que fazia todo o sentido ter algo mais cinematográfico. Na verdade, estas canções contam histórias, ou contam medos, e a imagem é uma forma de dar vida a essas histórias.

Mesmo a escolha dos produtores e dos realizadores, com quem trabalhei, foi muito propositada. Mas acho que sim, acho que a música aliada ao cinema tem esse poder de transformar, ou clarificar sentimentos, e este último até foi um bocado caseiro.

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(G.) – Como surgiu o nome artístico de Mema.? O que significa?

(S.M) – Mema. surgiu em Berlim. Nós éramos um coletivo de produtores, e eu precisava de um nome artístico para me identificar, e queria quebrar com o meu nome artístico anterior. Optei então por Mema., porque reflete um pouco a minha identidade, mas foi tirado dos meus apelidos Mendes e Marques. O ponto final serve para marcar essa identidade.

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(G.) – O que ainda gostavas de alcançar a nível pessoal e a nível artístico?

(S.M) – Estão muito interligados os dois…. É quase a minha missão fazer da parte artística, vida. O que quero alcançar? Eu, no próximo ano, tenho algumas coisas que ainda não posso anunciar, mas que estão para sair. Mas uma delas que quero muito fazer é um álbum.

Gostava muito de fazer também um álbum visual. Tenho um grande objetivo de levar a minha música além-fronteiras. Eu não acredito na ideia de barreiras linguísticas, eu acho absurdo até certo ponto. A música, se for boa, as pessoas vão agarrar.

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(G.) – Sentes que já encontraste este Norte que tantas incertezas te dava?

(S.M) – Parcialmente. Eu acho que nunca vou encontrar o Norte. Eu sou daquelas pessoas que chega ao norte e diz —ah, mas não era isto —, e volta a perder o Norte. E a encontrar outro Norte. Eu acho que me voltei a encontrar neste “Perdi o Norte”, o trabalho foi o reinício do recomeçar da minha carreira artística, mas ainda não estou onde quero estar.

Mesmo a nível de sonoridade eu sinto que tenho mais para dar, mais para procurar, porque isto é um mundo infinito de opções… A escrita, a composição, e eu quero continuar a procurar. Na verdade, acho que não quero encontrar o Norte!

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(G.) – Para as pessoas que queiram o teu EP ao vivo já existem datas de apresentação?

(S.M) – Há algumas datas para o próximo, mas ainda não posso revelar!

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Texto de Isabel Marques
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