Cheira a caruma, a castanhas, o frio seco das onze já desfez a geada, há alguma névoa por dissipar entre a copa dos pinheiros. Colho com cinzel o musgo agarrado no granito das rochas, sinto a terra por baixo e o saco que carrego parece uma pequena floresta de colinas verdes. Mais tarde faremos o presépio e haverá lenha a crepitar na lareira, gosto de colocar as pinhas secas com a tenaz e vê-las rubras sobre os cavacos.

Foi assim, e era menino, quando foi assim.

Cada idade tem o seu génio, distribuído pela singular face dos diferentes nomes. Os nomes batizam, convocam, chamam, somos por eles, estamos neles, e eles habitam em nós. Os nomes conformam a alma e estas transformam-se no curso dos dias. Quando se nasce, os nomes mudam, porque a viagem uterina transforma o curso do tempo e do lugar. O nascimento é uma expedição sem regresso. De um mundo para o outro.

Somos, a partir do primeiro grito, intraterrestres e extramaternos. Expelidos, compelidos pelas mães, encarcerados na amplitude planetária. O oxigénio é um gás tóxico, transporta toda a sede do mundo. A respiração é uma ausência amniótica, o calor umbilical abruptamente negado.

E de repente abrimos os olhos. Abertura sobre tudo. As primeiras coisas. Fazemos e somos as primeiras coisas. Nomes novos, cada centímetro exige a conquista.

A meninice é um trabalho pioneiro, só não percebe quem cresce.

Os crescidos esquecem os primeiros dias, as inaugurações quotidianas. Os crescidos perdem o rastro de si próprios porque deitam areia no caminho e depois chove e o caminho desfaz-se, entre a chuva e a areia.

Houvesse repouso dentro como há silêncio na noite distante e lembrar-me-ia das cores dos meus berlindes e das suas pequenas feridas, fruto das colisões, pouco diferem de astros em confronto, ficam sempre feridas maiores ou mais pequenas, quando jogamos as cores dos berlindes e estes nos fogem das mãos.

Uma estrela reluz. Lá por cima de por cima. Furinhos luzidios nas malhas do céu.

As mãos não chegam lá quando crescem.

Os dedos meninos, esses jogam as estrelas e os planetas, os satélites e os cometas, os meteoros e as suas fagulhas, como berlindes no recreio das onze.

Há horas para tudo, até para nos perdermos delas e, se para tal houver infância, encontrar o sentido das coisas.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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