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Opinião de Tiago Sigorelho

Tiago Sigorelho é o Presidente e Diretor Editorial do Gerador, a plataforma que promove jornalismo, cultura e educação de qualidade. Com uma carreira de 15 anos nas telecomunicações, foi Diretor de Estratégia de Marca do Grupo PT, com responsabilidades nas marcas nacionais, internacionais e nos estudos de mercado. Desde 2014, após fundar o Gerador, é frequentemente convidado a lecionar em escolas e universidades e publica regularmente a sua coluna de opinião no Gerador, onde aborda temas essenciais da sociedade contemporânea.

Mérito, PIB e Produtividade: a santíssima trindade em que temos de acreditar

Nas Gargantas Soltas de hoje, Tiago Sigorelho fala-nos de um conjunto de conceitos da economia contemporânea que estão muito presentes no espaço mediático, nomeadamente a Produtividade.

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Convencida que a criação de riqueza é o grande objetivo da humanidade, a sociedade determinou que a nossa fé deve estar orientada em função de um único deus, apresentado de três formas distintas: o Mérito, o PIB e a Produtividade.

Nada parece guiar-nos de forma tão clara actualmente. Suspendam o progresso social, façam uma pausa nos valores, aguentem a luta contra a desigualdade, retenham o combate às alterações climáticas! Temos de procurar a riqueza!

Não há forma possível de pensarmos numa sociedade que não esteja centrada no dinheiro. Apesar de toda a criatividade no mundo, embora tenhamos a população mais instruída da história, não conseguimos encontrar outros modelos que evitem sermos satélites de moedas. Talvez, curiosamente, a Inteligência Artificial ainda nos venha salvar... bom, continuando...

Tendo eu esta embirração, é natural que já tenha abordado estes temas em conversas e textos anteriores. Fui falando sobre como o Mérito é um conceito falso, que não depende da competência e do talento, mas, acima de tudo, do contexto. Ou como a ideia do Mérito atrasa a forma de darmos valor à natureza.

Também já discorri sobre o PIB, pelo qual tenho especial carinho, admito. Tentando desmistificar alguns conceitos impregnados sobre a verdadeira importância deste indicador - “Se eu for a pé para o trabalho, o PIB mantém-se estagnado, mas se eu apanhar um UBER, o país cresce.” – ou sobre medições sem sentido em sociedades cada vez mais atingidas pela desigualdade, como o PIB per Capita – “Imaginem um país com 10 pessoas. A pessoa mais rica ganha, num determinado ano, 50 moedas, a pessoa seguinte ganha 30 moedas e as restantes 8 pessoas ganham, juntas, 20 moedas. O PIB desse país é de 100 moedas e o PIB per Capita é de 10 moedas, quatro vezes mais do que ganha cada uma das 8 pessoas.”

Mas hoje gostava de desviar a vossa atenção a outro elemento da santíssima trindade, a Produtividade. Estamos sempre a ouvir falar desta outra variável estrutural do nosso pensamento contemporâneo. E consiste no quê? Bem, variedade de respostas não faltam a esta pergunta e é provável que cada economista, académico ou político vos possa lançar uma definição diferente, mais ou menos criativa. Mas vamos tentar olhar para uma fonte credível, o Eurostat.

O indicador mais relevante é a Produtividade no Trabalho. É medido, aparentemente, de forma muito simples: pega-se no PIB (velho amigo, estás sempre presente!) e divide-se pelo número de horas trabalhadas por todas as pessoas que trabalham. E assim chegamos a um número expresso em dólares por paridade do poder de compra, chamado de dólares internacionais, para ser comparado entre vários países.

Em 2023, por exemplo, a Produtividade no Trabalho foi de 43,7 dólares internacionais por hora em Portugal, enquanto a média da União Europeia foi de 53,9. Só como pequeno contexto, a Alemanha teve 68,1, a Espanha 56,6, a Hungria 35,5, os EUA 69,7, o Brasil 31,3, a África do Sul 24,6 e a Nova Zelândia 45,6.

Para se chegar a este número precisamos de saber, por um lado, o PIB, que como já falei abundantemente é um conceito desligado da realidade das sociedades desiguais em que nos encontramos, e, por outro, o número de horas trabalhadas. Ora, como se mede este número de horas trabalhadas?

Em primeiro lugar, excluem-se as horas que não são consagradas como trabalho. Se alguém trata da casa ou de um familiar doente, funções naturais para muitas famílias que pertencem a economias menos desenvolvidas, isso não é contabilizado.

Depois temos as fontes de informação para quem trabalha “efectivamente”. E são, essencialmente, duas: um estudo trimestral realizado a uma amostra da população, chamado de Labour Force Survey (podem tentar perceber aqui) e uma consulta direta às empresas para que informem os institutos de estatística de cada país sobre quantas horas os seus trabalhadores fizeram.

É uma aventura tentar perceber como os dados do estudo são consolidados, já que usam, em simultâneo, inquéritos presenciais, por telefone e online. Cada respondente, no meio de um conjunto muito alargado de questões, tenta indicar o número de horas que trabalhou num determinado período. Ou seja, estamos a falar da percepção de horas trabalhadas e não das horas mesmo trabalhadas.

Depois, consultam-se as empresas, que indicam o número de horas que os seus trabalhadores fizeram e “validam-se” os dados recolhidos pelo Labour Force Survey. É complexo conseguir entender exatamente como.

No fundo, convencionou-se um indicador, que, sinceramente, não ponho em causa o seu rigor técnico para obter a melhor informação possível (apesar de ser muito difícil perceber com detalhe como se chega ao resultado final), mas que está, no mínimo, alicerçado em conceitos mutáveis, desiguais e não inclusivos.

À semelhança do Mérito e do PIB, a Produtividade é mais uma ferramenta da crença fornecida pela igreja neo-liberal em que todos somos mandatados a acreditar.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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