Despachados do último momento eleitoral, eis que todas as frentes políticas voltam a militarizar-se para o próximo confronto. Regressamos a uma velha batalha, com regularidade anual, para imaginarmos o que vamos fazer no ano seguinte. Principalmente, o que vamos gastar.

O orçamento de estado é um instrumento de gestão das finanças públicas centrais, onde se prevê as receitas e as despesas do estado num período de um ano. O próprio orçamento engloba uma parte dedicada às previsões económicas, mesmo aquelas que vão para além da coisa pública.

À discussão do orçamento de estado, juntam-se, nunca esquecer, todos os orçamentos das 308 autarquias recentemente eleitas e, ainda mais relevante no peso da economia, todas as instituições não públicas. Desde as pequenas e médias empresas até aos gigantes industriais.

Desde há algumas dezenas de anos que um acrónimo anteriormente desconhecido tem marcado presença constante no discurso político, no espaço mediático e até no café da bola ao pé de casa. Hoje todos já ouvimos falar do PIB, o Produto Interno Bruto. Algumas pessoas saberão mais ou menos do que se trata, outras nem por isso. Mas esse desconhecimento não é especialmente importante. Deve caber-nos, apenas, a vontade e o desejo de que o PIB aumente de um ano para o outro. Será isso relevante para mim, sentirei as consequências na minha vida? Bom, isso é outra conversa.

A omnipresença do deus PIB obrigou as sociedades a orientarem-se em função do dinheiro. Na nossa mentalidade instalou-se a ideia de que apenas a criação de valor monetário aumenta a qualidade de vida de uma nação e, por consequente, de todos os que dela fazem parte. O nosso destino enquanto sociedade deixou de ser a procura da melhoria das condições sociais de todos, mas sim a busca pela riqueza. Passámos de cidadãos a consumidores.

Não há dúvida que este é o principal defeito das juras ao PIB: pôr de parte o progresso social em função da suposta criação de riqueza. Mas convém salientar outras distorções que o PIB traz na avaliação do estado da arte de um país.

Em primeiro lugar, a desigualdade. O PIB soma todo o valor criado, independentemente de quem o cria. Imaginemos que, num determinado ano, 50% do valor produzido num país é da responsabilidade dos 10% mais ricos. No ano seguinte, o PIB cresce, mas os 10% mais ricos passam a produzir 60% do valor. Estaremos numa melhor situação, apesar do aumento do PIB?

A evidência da desigualdade fica ainda mais clara quando analisamos o PIB per Capita, ou seja, o valor do PIB dividido pelo número de pessoas que habita um determinado local. Imaginemos uma cidade que tem um conjunto de indústrias relevantes, onde moram grande parte dos seus trabalhadores. Quando analisamos o PIB per Capita vamos dividir toda a riqueza produzida nessa cidade pelos seus habitantes. E por isso, não devemos ficar surpreendidos quando concluirmos que os operários são ricos.

Outro problema gravíssimo é a ausência de contabilização de atividades que não geram dinheiro. Se alguém ficar a cuidar de um familiar em casa, o PIB não aumenta, mas se esse familiar for colocado num lar, o país fica mais rico. Se eu for a pé para o trabalho, o PIB mantém-se estagnado, mas se eu apanhar um UBER, o país cresce.

E há, ainda, a qualidade dos investimentos. Imaginemos que uma fábrica extraordinariamente poluidora se instala numa determinada região, criando problemas de saúde na sua população. O PIB aumenta não só devido ao investimento da fábrica, como pode ainda gerar mais “valor” com os custos de saúde das pessoas, que passam a pagar consultas e tratamentos adicionais.

Está mais que na hora de eliminar a reverência ao PIB. Admito que possa ser interessante recorrer a este indicador para fazer certas análises, mas vergar sociedades aos seus desmandos é avassalador.

Pelo mundo têm surgido novas propostas de variáveis que permitam apreciar como estão as nações de forma mais realista. Desde vários Índices de Felicidade a muitos outros indicadores. Deixo aqui um que acho inspirador: o Orçamento de Bem Estar da Nova Zelândia. Este é o único orçamento apresentado ao parlamento e contém, para além da dimensão económica, um conjunto de análises verdadeiramente consequentes.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 para criar o Gerador.
É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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