Mesclado por Alek Rein 

José Afonso – Traz outro amigo tambémNas comemorações do 25 de Abril é grande a probabilidade de se ouvir esta canção a fazer tremer o PA móvel de uma qualquer carrinha associativa a descer pela Avenida da Liberdade. Os olhos turvos, daqueles que viveram esses tempos de mudança, ficam límpidos e brilhantes, as suas caixas torácicas enchem-se de orgulho, as suas colunas vertebrais de repente parecem não precisar de cajados. Porque um mundo diferente é possível e esta canção é a prova concreta disso mesmo.

José Mário Branco – FMI

Uma canção sobre a derrota do Processo Revolucionário em Portugal e sobre o impacto disso na vida de um cantautor de intervenção. Começa de forma mais ou menos estruturada, transitando entre versos e refrão, mas logo se desconstrói num mantra quase ininterrupto, com uma métrica e intensidade majestosas quando inseridas, p. ex., no contexto da poesia beatnik e do proto-rap à la Bob Dylan em “Subterranean Blues”.

Grupo de Acção Cultural – A cantiga é uma arma

A canção tem poder sócio-político quando inscreve a sua estética e mensagem na cultura de uma sociedade. Tendo o poder misto da música e da poesia, uma canção pode dar a ver coisas que estão à frente dos olhos mas que, ainda assim, passam imperceptíveis devido aos automatismos e aos calejamentos do dia-a-dia. É contra essa conformidade que esta música dos GAC se insurgiu, para que um dia as canções fossem feitas e partilhadas num mundo mais livre.

Primeira Dama – Cantiga de Sala

ouvir aqui 

Porquê esta canção do Manel “Manny Lito” Lourenço? Porque invoca aquela cadência militante da altura do PREC, onde o José Mário Branco aparece como referência mais óbvia, enquanto que o vibrato e as escaladas melódicas da sua voz lembram uma sedução que mais facilmente se associaria ao R&B. É o cantar em português sem misticismos nacionalistas nem nostalgias bacocas, algo que me deixa com os pés bem assentes no aqui e no agora.

António Variações – Canção do engate

Uma canção que é um monumento pop, de uma solidez impressionante ao nível das letras e da melodia. Uma vez gravei uma versão da mesma ao computador, das minhas primeiras e raras tentativas de cantar em português.

Caveira – contracto de realismo devoção fé presente

ouvir aqui 

Esta faixa surge na compilação Fetra Tape 2015, constituída por malhas dos músicos que tocaram na Noite Fetra V. Escolhi-a porque já perdi a conta das tareias que levei em concertos de CAVEIRA; porque tenho um respeito tremendo por quem se dedica a fazer música com esta intensidade, com esta devoção quase religiosa em dissipar a fronteira entre a criação e a destruição.

Norberto Lobo & João Lobo – Bragança 

Há um som que, desde a primeira vez que o ouvi, sempre me deixou maravilhado: o som da guitarra de 12 cordas. Há um outro também: o som que os dedos do Norberto Lobo produzem à guitarra. Nesta faixa temos não só direito à combinação de ambos, como a mais um lindíssimo ciclo melódico cantado em coro.

ÉME – Lisa

Último Siso, disco do Éme, saiu em Setembro de 2014. Lembro-me perfeitamente de o ver a cantar esta na Casa Independente, apoiado pela sua banda super tight (Nacho,  Jules e Abras), e de pensar que as pessoas vivem Lisboa de maneiras bem diferentes. A T-shirt que tenho vestida enquanto escolho estas canções diz “CRAZY LISA”, feita em Dezembro do mesmo ano a propósito de um solo de bateria do Gabriel Ferrandini na Galeria Pedro Alfacinha. Está tudo ligado.

Pega Monstro – Voltas para trás

ouvir aqui

O riff da intro, a oscilar entre a melancolia e a alegria juvenil… Um momento alto nos concertos das irmãs Reis, que são por si só momentos altos. Dos que mais gostei? Talvez aquele na ZDB no dia 14 de Fevereiro deste ano. Se não me engano tinham acabado de voltar de uma tour longa e vinham com um andamento incrível. A festa que as recebeu, o calor dos amigos, coisas que nunca esquecerei.

Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti – Dona Mariana 

Esta faixa encontra-se numa compilação chamada “Algarve” de 1963 e foi captada em Aljezur. A voz solitária lembra-me o isolamento em que algumas pessoas da minha família viviam, coisa de que me dava conta quando me punha a explorar os montes na zona do Barranco do Velho na Serra do Caldeirão. Lembra-me também das histórias dos rapazes e raparigas que, depois de comerem o medronho directamente das ramas, se deitavam de barriga ao sol para sentir os efeitos da fermentação…