David From Scotland é uma dupla formada por David Félix e Diogo Barbosa, músicos, produtores e amigos de longa data.

David From Scotland surge em 2016, pelas mãos de David Félix, com a edição do single "Neon Nymph"Em 2018, David convida Diogo Barbosa para se tornar parte integrante da banda e surgem os primeiros EPs: "Winter Wise" e "Baywatch Drive". A boa recepção por parte da crítica e do público impulsionou concertos em espaços como Hard Club, Anjos 70 e concertos que nunca existiram.

No ano passado, a banda regressou a estúdio e começou a preparar "Hooligan’s Heart", o disco de estreia de David From Scotland, que será editado em 2021 e que tem como primeiro single "futurewillbebetter", tema que conta com a colaboração de EVAYA e que serve como cartão de visita para o primeiro registo de longa duração da banda.

Fica com a sua seleção de 10 músicas, aqui:

X-Wife, "On The Radio"

David Félix: É, provavelmente, a banda portuguesa que mais vezes vi ao vivo e que mais me influenciou em toda a música que fiz até agora. É engraçado como, muitas vezes, as bandas que mais gostamos estão todas elas interligadas a algumas pessoas em específico. 

Devia ter uns 16/17 anos quando fui a Miramar com o Rui Correia (Biruta Records / O Abominável), para ver os X-Wife. Para dois gajos de Pedrouços e Águas-Santas, apanhar um comboio à noite, em Ermesinde, até para lá de Gaia, na altura era uma aventura. Vimos o concerto dos "The Bombazines", e, logo a seguir, seriam os "X-Wife". Sabíamos que iríamos perder o último comboio, caso ficássemos a ver o concerto todo, mas assim foi! Já os tínhamos visto umas quantas vezes nesse ano, mas não quisemos saber, e ficámos. Depois foram uns 30 e tal euros de táxi até casa (ainda não existiam aquelas mordenices da Uber). Foi o que foi! Nunca me arrependi de tal coisa, apesar de ter ficado sem dinheiro para o resto do mês! 

Os tempos mudam, a idade pesa, mas na altura não havia espaço para conformismo ou comodismo! Agora pertenço àquele grupo de pessoas que perde parte de concertos porque fica duas horas à procura de estacionamento na baixa.

John Is Gone, "Prologue"

David Félix: Fui também com o Rui e com o Fausto Ferreira (Fotógrafo em praticamente todos os projectos que faço, ou então quando ele tem vagar, porque a vida está cara), que os vi a primeira vez no Marés Vivas. Na altura, tocaram no palco secundário com os "Sizo", outra banda que me fascinou pelo power e pela densidade em concerto! Os John Is Gone, sempre me fascinaram pela simplificidade e com a sua aura muito própria, e mesmo com a "Prologue" a passar constantemente num anúncio da Worten, nunca me cansou. Não quero ser injusto ou entrar em falsos relatos, mas nunca mais soube deles, depois da quantidade de vezes que os vi ao vivo, principalmente com o Fausto, nesse ano. Passado uns anos, o Fausto viu um cartaz onde eles iam apresentar um segundo disco, no mítico "Rádio Bar". Fomos, e devíamos ter sido duas das dez pessoas presentes no público. No entanto, estamos em 2020, e nunca os deixei de ouvir. As músicas deles causam-me imensa nostalgia porque consigo fazer a associação a vários contextos da minha vida ou a alturas chave de construção de personalidade, etc. É uma das bandas que guardo com mais carinho!

Aliás, foi num concerto deles que ouvi pela primeira vez a "Smalltown Boy" de "Bronski Beat" - vá lá, sou um miúdo que nasceu em 92, é normal que me tenha passado ao lado esse tempo todo. O resto é história. "Bronski Beat" é das cenas que mais me influenciou, principalmente em "David From Scotland", e tudo porque a conheci enquanto cover dos "John Is Gone".

Raiz Urbana, "Rua de Trás"

David Félix: Ok, ao escrever isto, percebo que, mais do que bandas, músicas, etc, quem influenciou e contribuiu mais para a moldagem do meu gosto musical foi o Rui. Isto por vários factores. Andávamos no 5º/6º ano da escola e já ele me passava CDs com a "Brilhantes Diamantes" até construirmos junto do Vítor Pinto, do João Losa e do Leonardo Rocha a banda "O Abominável". Nessa construção tivemos momentos que me marcaram imenso, desde a devoção ao culto dos "Joy Division", à admiração por toda a cena de Manchester, até perdermos imenso tempo a tentar entender o ritmo e a intensidade dos Biffy Clyro. Entre muita coisa, que apenas uma tese de mestrado seria suficiente para não me faltar nada.

É aí, no início disto tudo que entra a "Raiz Urbana", dupla onde fazia parte o Edgar (irmão mais velho do Rui), conhecido como "Logos", que mais tarde organiza as bases do bem conhecido e badalado "Conjunto Corona". Lembro-me de, ainda nos tempos de escola, ir a casa deles e ver o Edgar a mexer na sua MPC, no Reason, etc; Foi o meu primeiro contacto mais sério com a música, e a primeira vez que me lembro de olhar / observar alguma coisa e pensar: "É isto que eu quero fazer na minha vida!".

O significado da "Rua de Trás", é muito pessoal, e não é para ser partilhado aqui. Sei que na altura me marcou imenso, e um dos maiores prazeres da minha vida foi mais tarde ter a oportunidade de tocar ao vivo, um concerto com eles, no registo de banda suporte.

Basicamente é isto! "David From Scotland" começa como o meu projecto a solo, na ressaca do fim de "O Abominável", e mais tarde convidei o Diogo para fazermos disto uma banda, e assim ficou. Mas da parte que me toca, "Hooligan's Heart" será o meu segundo disco de longa duração, a par da "Enteléquia" de "O Abominável". Por isso, gostava de aproveitar este espaço, para dedicar este registo ao Rui e ao Edgar, porque na verdade, se não fossem eles os dois, muito provavelmente, nesta altura, não seria músico, nem conhecia metade das coisas que adoro, e que mudaram radicalmente a minha vida.

Props também ao meu querido Fausto, porque foi com ele que tive os primeiros contactos com coisas como: Bruce Springsteen, Rod Stewart, Phill Collins... ❤

Ban, "Mundo de Aventuras"

David Félix: É das músicas portuguesas, em português, favoritas. Faz parte do álbum "Num filme sempre Pop", e sempre achei esse nome genial. Oh João Loureiro, este disco é ainda mais genial do que fazer do Boavista campeão, com o saudoso Jaime Pacheco ao leme. Aliás, entre muitas, a "Irreal Social"... Bem, só consigo ter visões do peculiar Major Valentim a abastecer a população de Gondomar com eletrodomésticos! Mas o João Loureiro é a personificação de que a música é a coisa mais importante de tudo o resto, inclusive o futebol, e essas tretas todas, apesar de a sua história de vida ter um rumo contrário ao que para aqui digo. Enfim. 

Estes populistas... Populismo do bom seria convencer toda a gente em comícios descentralizados, que:

"Aventuras quero mais

Se quero mais

Com mais humor e amor" 

Acho que fui feito ao som desta música, e agora num âmbito mais pessoal, confesso que adoro ouvir esta música em momentos pré-relações, ou em alturas de "heartbreaking". Não sei bem porquê! Talvez por imaginar um mundo ideal para mim, vivido dentro desta letra e desta sonoridade. Citando novamente, a vida podia ser só isto:

"Aventuras quero mais

Paraísos eventuais

Ironias, ilusões"

Delaphants, "Cocytus River"

David Félix: É / foi (até porque já não estão no activo) das bandas mais importantes para mim. Isto porque todos eles são amigos muito importantes que levo comigo, mas acima de tudo são o grupo mais talentoso de pessoas que alguma vez conheci e partilhei coisas tão próximas. 

Eles são o Valter (que partilha ao meu lado, "Malibu Gas Station"), o Leonardo (que partilhou comigo "O Abominável", e que hoje em dia é "Saloio" - um dos projectos mais interessantes, na minha opinião, da nova música portuguesa), o Tó (dos "Happy Suns", banda a ter em conta no futuro), o Reinaldo (acho que hoje em dia não está em nenhuma banda, mas quem gosta de tatuagens, tem de seguir o trabalho dele... Detentor de uns traços e registo, cada vez mais incríveis), e o Pedro (hoje em dia, "LIQUID". Partilhamos em 2016 uma festa chamada "We Are Open Season", no Maus Hábitos; bons tempos!; E também foi ele, uma das pessoas mais relevantes e importantes na construção de "David From Scotland". Para além de amigo e conselheiro, teve um papel determinante nos primeiros registos ao vivo do projecto, e participou também na construção do "Baywatch Drive". A ele também lhe devo muito da música que faço hoje em dia). 

Esta "Cocytus River" é poesia, poesia de uma história contada na perfeição pelo Tó. 

Zen, "UNLO"

Diogo Barbosa: Há uns anos havia no Porto um bar chamado Basement, foi um sítio onde muitas bandas que existiam na altura, e outras que ainda estão no activo, começaram a tocar e a ganhar algum hype.

Ao longo do tempo tornou-se um sítio especial para mim e para toda a gente que, como eu, ia inevitavelmente lá parar quase todos os fins de semana.

Foi por exemplo onde conheci o David e mais um grupo de amigos que ainda guardo passados 10 anos.

Quando não havia concertos, ou depois dos concertos, durante os DJ sets, esta música passava quase sempre e acabou por ser tornar um hino ao Basement, a nós, e que ainda hoje me remete para aquele espaço e para tudo o que ele representou.

Além disso acho que os ZEN são uma banda incrível, bastante à frente do seu tempo num contexto nacional e provavelmente esta música é um dos grandes exemplos dessa singularidade. 

Carlos Paredes, "Verdes Anos"

Diogo Barbosa: Este foi um dos primeiros contactos que tive com a música de forma mais pessoal, não pelo tema em si mas pelo que ela representa.

O meu avô tocava guitarra portuguesa e lembro-me de quando era miúdo e passava os fins de semana em casa dos meus avós, era capaz de ouvir o meu avô tocar o dia inteiro, o som da guitarra dele enchia a casa. 

Acho que foi a partir daí que comecei a ganhar interesse pela música não só como ouvinte e por isso mesmo, acho que de certa forma foi ele a minha principal influência e o principal motivo pelo qual comecei a aprender música.

Acho que esta música tem uma dinâmica muito interessante, comandada sempre pela guitarra... É provavelmente das músicas mais bonitas que existem e acho que isso se deve muito àquele som tão característico da guitarra portuguesa, mas a verdade é que um instrumento só soa bem quando é bem tocado!

Ornatos Violeta, "Dia Mau"

Diogo Barbosa: Não posso dizer que seja a minha música preferida deles, mas acho que acaba por ser uma das mais simbólicas.

Em 2012 fui ao Coliseu do Porto ver os Ornatos quando eles fizeram o primeiro concerto passados não sei quantos anos e eu na altura conhecia uma pessoa que trabalhava no Coliseu e que me deixou entrar para as galerias sem pagar. 

Estava mesmo no topo do Coliseu, naquela zona em que quase conseguia tocar no tecto com a cabeça (risos).

Passados uns minutos de ter começado o concerto, recebo uma chamada dessa pessoa a dizer que toda a gente que estava no hall da entrada já tinha ido embora e que se descesse rápido, me conseguia meter na plateia… Pá, e assim foi! 

A cena que acho engraçada agora ao olhar para trás é que mal começo a sprintar escadas abaixo, começam a tocar a “Dia Mau”, então senti-me um daqueles adolescentes d’Uma Aventura (risos).

Apesar de ainda ter torcido um tornozelo a saltar as escadas, consegui chegar a tempo e lá vi o concerto da plateia!

Rui Veloso, "Não Me Mintas"

Diogo Barbosa: Podia escolher de dezenas de músicas do Rui Veloso, mas gosto especialmente desta e honestamente não sei muito bem porquê. 

Não sei... Talvez seja a voz... É muito catchy!

A verdade é que existem uma série de coisas que, na minha opinião, tornam a música do Rui Veloso muito especial... Desde as letras do Carlos Tê, ao facto de ele ser um virtuoso da guitarra e ter aquela voz meia bagaçeira e carregada de sotaque. 

E tem bom gosto, muito bom gosto!

Aliás, acho o concerto acústico que ele gravou no CCB em 2003 um álbum de referência nacional nesse registo, tem arranjos incríveis.

O Rui Veloso toca aquelas músicas que eu ouvia ao crescer, muito por causa dos meus pais.

É uma voz e um tipo de sonoridade que me deixa nostalgico e saudosista.

Também já tive oportunidade de o ver no Coliseu do Porto e é incrível ver alguém que ama tanto a nossa cidade e que ainda se deixa sensibilizar pelas pequenas coisas apesar da carreira que já tem e das coisas que já fez.

Heróis do Mar, "Paixão"

Diogo Barbosa: Esta música é provavelmente a única (das que eu escolhi) que posso dizer que é uma influência directa em David from Scotland.

É provavelmente a única banda portuguesa que se aproximou daquela estética do new-wave que tanto nos influenciou através de bandas como os Joy Division, os New Order, etc.

Nesta música em específico acho que essas influências são notórias, por exemplo, no tipo de sintetizadores ou na maquinaria usada nas baterias.

Acaba por ser a combinação perfeita desse new-wave, com aquele pop mais "genérico" dos anos 80.

Fotografia da cortesia de David from Scotland
gerador-mescla-david-from-scotland