É possível que nem todos os corpos se revejam na narrativa que domina no futebol que se vê na televisão. Uma narrativa heteronormativa, em que existe um certo tabu em falar sobre questões de género, onde a desigualdade predomina. Mas haverá histórias na história do futebol que falem de resistência? Mickaël Correia mostra que sim. 

Em Uma História Popular do Futebol, livro editado pela Orfeu Negro com tradução de Luís Lima, o jornalista e escritor percorre a outra história do futebol. As outras histórias do futebol. Do Brasil de Garrincha à união fraterna de comunidades muçulmanas, judaicas e europeias na Argélia; do início ao fim, e finalmente ao recomeço, do futebol feminino em Inglaterra e em França. São narrativas de subversão que mostram que o futebol não está apenas na televisão e nas histórias de bancadas que passam de geração em geração no contexto ocidental.

Numa curta passagem por Portugal, Mickaël Correia, que vive em Paris, encontrou-se com o Gerador para uma conversa sobre as histórias de emancipação do futebol. Cofundador da revista interseccional, Jef Klak, e membro da redação do jornal de crítica e experimentação social, CQFD, trouxe consigo uma visão ampla de quem investiga e questiona.

Gerador (G.) – Nestas quase 400 páginas do teu livro percebemos que ao longo dos últimos dois séculos houve espaço para a opressão e a revolução, para que o futebol fosse usado como uma arma colonial, catequizadora, mas também como uma ferramenta revolucionária. Há uma certa universalidade no futebol que permita estas reconfigurações?
Mickaël Correia (M. C.) – Eu acho que um dos fatores é que o futebol tem este caráter popular e universal, e também é uma prática muito pobre. Só necessitas de uma bola e uma esquina na rua para jogar futebol. Não é como ténis onde necessitas de uma rede, duas raquetes, uma bola. É um desporto muito simples de praticar e as dezassete regras do futebol não foram muito modificadas desde 1863, são igualmente muito simples. Na prática, isto resulta numa gramática de fácil compreensão. Há gente que joga na rua, dois contra dois, porque podes ir modificando ou adaptando essas regras quando jogas nessa esquina da rua, pode ser reapropriado por quem o joga. Sejam homens ou mulheres, mais novos ou mais velhos. O segundo fator, para mim, vem do lado do espetáculo, porque como dizia o Pasolini, o futebol é uma das últimas formas do teatro clássico. Quando vais ver um jogo, a duração é mais ou menos de 90 minutos, como um filme, é algo em que podes focar a tua atenção, e onde podes ver traços do teatro clássico, como diz o Pasolini, porque tens a unidade de tempo, a duração, e a unidade do jogo; tudo se passa mais ou menos no mesmo espaço. Penso que são estes dois fatores que tornam o futebol algo tão universal. Podes estar na África ou na China e toda a gente conhece o Ronaldo e o Messi. É um assunto sobre o qual podes falar em qualquer parte do mundo, e é essa universalidade que também traz uma força que não se vê noutras modalidades desportivas. 

G. – Falas do Ronaldo e do Messi e de facto há esta ideia do craque vindo do nada, que conquista o mundo com uma bola nos pés, como é o caso do Garrincha, do Maradona, do próprio Ronaldo. Este é também um fator que gera proximidade com os adeptos? Num mundo com crescentes desigualdades, é das áreas onde os jovens ainda podem sonhar? Pergunto-te tendo como referência visual a imagem da criança no meio do tsunâmi na Indonésia com uma camisola da seleção portuguesa, que acabou por conhecer o Cristiano Ronaldo. 
M. C. – Há uma mitologia de jogador que faz parte da classe trabalhadora, dos bairros populares, e que vai subir até ser uma grande estrela no futebol. Claro que também há um pouco de alienação para estes jovens que têm o sonho de que vão ser futebolistas profissionais. Eu dei aulas numa cidade muito pobre dos subúrbios de Paris, de onde vem o Kylian Mbappé, uma grande estrela do futebol francês, e quando entras no liceu, a primeira coisa que vês é uma grande pintura com o Mbappé, que diz que este liceu criou esta pessoa, e claro que todos os meninos veem esta mitologia do Mbappé e quando falam com os professores, alguns rapazes e raparigas, dizem “se calhar a escola não é para mim”, porque num bairro muito pobre faz parte nunca terem acesso a um emprego ou a educação universitária. Claro que nesse contexto, o futebol é um elevador social possível. Há muitas histórias bonitas, mas 99 % são deixados de lado. É uma coisa que está mesmo nas raízes do futebol, desde o século XIX já havia os primeiros operários que trabalhavam nas fábricas e já havia a ambição de serem futebolistas profissionais. A profissionalização do futebol era uma luta operária, porque alguns dos operários que jogavam de forma regular perceberam que podia de facto ser um emprego. Era perigoso, porque podiam partir uma perna, e queriam ter direito a um salário. Portanto, desde o início há esta contradição entre o futebol-negócio e o futebol-popular, que vem dos bairros e que luta pela profissionalização, fazendo o futebol parecer um elevador social. Mas claro que temos uma história institucional do futebol que diz que há muitas pessoas que vêm de bairros mais pobres, como o Maradona e o Garrincha e serve como uma estratégia de marketing para vender a ideia de que toda a gente pode ser futebolista. E que, no fundo, o futebol é para toda a gente. 

G. – Outro fator que mencionas no livro que acaba por provar que o futebol é para toda a gente está nas bancadas. Citas o Krasnyi Sport que, em 1938, dizia que “ir ao estádio, sentar-se nas bancadas e, de repente, é como se conhecesses a pessoa que está sentada ao teu lado desde a infância”. “Entendemo-nos sem dizer uma única palavra.” É como se em todo o universo do futebol existissem elos de ligação entre quem partilha um clube, um espaço; de quem tem algo em comum. Mas não está dentro dessa aura o gatilho para as manifestações de masculinidade tóxica?
M. C. – O futebol joga muito com a ideia da paixão que tens desde pequenino. Também desde os primórdios da sua criação, o futebol foi uma fábrica de criação de identidade masculina. Existe uma passagem entre o pai e o filho, entre o avô e o filho, e a cultura das bancadas onde existe uma masculinidade viril, da rivalidade com outras comunidades. Historicamente, de um lado tens o futebol codificado pela aristocracia vitoriana, como uma arma pedagógica para incutir alguns valores, entre os quais um espírito de conquista colonial e de uma certa virilidade; do outro, quando o futebol foi recuperado pelas classes populares, havia igualmente esta ética, ainda que mais coletiva, operária, onde o indivíduo estava ao serviço do coletivo. E claro, quando ouves pessoas a falar sobre futebol, são memórias muito masculinas, transmitidas de pai para filho, raramente para filha. As coisas estão a mudar, temos cerca de 50 milhões de mulheres a jogar futebol e têm havido grandes lutas no lado do futebol feminino. Nos Estados Unidos, a pessoa mais conhecida a jogar futebol talvez seja até uma mulher. Mas o futebol é um espelho da sociedade, o que se passa na sociedade passa-se também no futebol. A primeira vaga feminista depois da Primeira Guerra Mundial, em França, passou também para o futebol, onde surgiram as primeiras futebolistas. Depois, na segunda vaga, nos anos 60/70, aconteceu o mesmo. E agora estamos perante uma terceira vaga desde 2015. Portanto, é claro que o futebol é uma fábrica de masculinidade muito viril, onde existe também muita homofobia (que é o grande tema tabu, tanto no futebol como na cultura dos adeptos), e a instituição futebol faz muito pouco trabalho para combater isto. Isto para dizer que o que vai acontecendo na sociedade, vai também acontecendo no futebol; não é uma esfera fechada sobre ela mesma, e as coisas vão-se modificando. O caminho ainda é longo, mas vão acontecendo algumas mudanças. Ainda assim, a figura do jogador de futebol ainda é uma imagem muito antiga: é um homem que se casa muito jovem, que já tem filhos, e que vai ter algum tipo de ligação com trabalhadoras do sexo. Ao que as pessoas respondem “é normal, eles têm uma pressão tão grande”. Isto transporta-nos para uma imagem muito antiga do que é masculinidade e do que é ser viril, que faz com que o futebol seja um dos grandes veículos da masculinidade tóxica. A verdade é que o futebol não tem género, é só chutar uma bola e marcar golos, nas regras do futebol não está escrito que os homens têm de jogar entre eles, e as mulheres entre elas, mas essa divisão ainda existe. É uma reprodução das desigualdades. 

G. – A figura do futebolista neste futebol-negócio, como chamas no livro, é uma figura heteronormativa. Escreves também sobre os hooligans e vais buscar um período histórico do Reino Unido, que cola o governo de Margaret Tatcher e o descontentamento da sociedade, com o acentuar das desigualdades, à violência que começa a existir nos campos de futebol. Citas Stuart Hall, que diz que o que se passa na bancada é como se fosse uma extensão do que se passa em campo — e é também uma extensão do que se passa na sociedade. É possível que tudo isto se altere ou o futebol vive demasiado colado a estas relações de poder patriarcais? 
M. C. – São culturas que estão a desaparecer. Claro que houve uma violência terrível em Inglaterra nos anos 80, como conto no livro, mas penso que estamos a viver uma reconfiguração destas bancadas e desta cultura. Na Europa, estamos a ver uma repressão que faz com que os adeptos estejam menos nos estádios e estejam nos cafés, a cantar os cânticos que antes se ouviam nas bancadas. O que se está a passar agora na África e na América do Sul é que esta cultura de bancadas é composta por atores sociais dos movimentos, que é algo que vimos também na Primavera Árabe, em 2011, e algo que vi na Argélia, quando fui lá em reportagem durante o movimento social contra o regime autocrático do [Abdelaziz] Bouteflika, e que está a chegar ao Brasil e um pouco ao Chile. Ainda que na Primavera Árabe em 2011, não aconteceu uma ligação real com o movimento social por ser um desporto tão viril. Para lutar contra a repressão da polícia, havia pessoas que se juntavam por terem isso em comum, mas depois não houve conexões com outras partes do movimento social. Havia um certo confronto com os grupos feministas que diziam que não estavam ali só para combater a repressão policial, mas para lutar contra o regime. Havia quem pensasse que o lugar das mulheres não era ali nas ruas a lutar contra o regime, mas em casa. Espero, com o tempo, que este movimento mais ultra comece a perceber que tem de ter atenção a estas perspetivas feministas, porque ficar num campo apenas de combate com a polícia é algo que não permite uma conexão mais global com as restantes partes de um movimento comum. 

G. – Não vês a ascensão da extrema direita como uma ameaça a que isso aconteça?
M. C. – Em França estamos a ver um reforço muito grande da extrema direita nas bancadas, em Espanha e em Itália igualmente. No caso francês, é uma batalha que foi perdida pela esquerda, porque esta cultura dos adeptos está a jogar com dois conceitos tão ricos, mas que são tão complexos: o conceito de identidade e o conceito de território. Eu faço parte de uma claque, em Paris, que é mais de esquerda, e temos uma visão muito enraizada numa ideia de comunidade aberta, multicultural, na história dos subúrbios de país, e que está mesmo aberta. Toda a gente pode vir para a nossa bancada, a única coisa que pedimos é que cantem connosco. O problema é que a extrema direita desde os anos 70/80 e agora também jogou muito com estes dois conceitos de identidade e território, e começou a construir a sua identidade muito fechada, que criou uma grande conexão com as claques ultra. A luta de Notre-Dame-des-Lande foi muito importante porque conseguiu criar um imaginário de um território aberto a todos, na história das lutas campesinas de 1978, e construiu uma identidade muito atrativa. Penso que a esquerda perdeu com isto, e a direita soube aproveitar-se da junção destes conceitos de identidade e território. As bancadas são uma montra deste fechamento.

G. – Um exemplo que dás no livro é a história do Sócrates, dos Corinthians, e como um clube se posicionou contra o regime, trazendo, depois, consigo uma série de intelectuais, músicos, artistas que começaram a estar nas bancadas. Trazes também uma citação do antropólogo Gilberto Freyre, que dizia, por volta dessa altura, que “há qualquer coisa que lembra a dança, no futebol brasileiro”. Achas que hoje, com a transação dos jogadores de futebol por todo o mundo, ainda faz sentido pensar em marcas culturais do futebol de cada país? A globalização teve algum efeito de miscigenação nos modos de estar em campo de cada país?
M. C. – Estamos a assistir a uma standardização da prática do futebol, já nem temos uma ideia do clube nacional como antigamente, quando, por exemplo, a Inglaterra tinha mesmo o seu estilo de jogo cheio da cultura industrial, o Brasil um jogo mais artístico, o da Europa do Leste era mais coletivo. Tudo agora está um pouco nivelado, o que de certa forma também é um espelho da globalização cultural. Uma coisa que podemos ver, que é bastante interessante para mim, é a cultura do futebol de rua. Grande parte dos jogadores que estão igualmente nos subúrbios de Paris têm esta cultura do jogo um pouco artística, e em alguns minutos de jogo consegues ver mesmo que é algo tipicamente do futebol de rua. Numa entrevista, não me recordo se foi o Mbapée ou outro jogador de que gosto muito, o Riyad Mahrez, disse que tinha um problema com o seu treinador porque gosta de fazer este jogo da cultura da rua, e o treinador pergunta o que é que está a fazer, porque não é suposto trazer esse estilo para o campo. Agora temos a lógica produtivista, de otimização, e vemos treinadores com computadores com todas as táticas de cada jogador, a fazer algo semelhante aos algoritmos, que já não contempla este estilo de jogo, esta ética, que acaba por resultar nessa nivelação do jogo. É mais difícil agora identificar se a França tem esta ou aquela cultura de jogo. Esta é uma grande conversa que muita gente tem sobre a globalização do jogo, que, a meu ver, é bastante triste. 

G. – Também a televisão veio mudar o paradigma na forma como os adeptos se passam a relacionar com o produto que é o jogo de futebol, mas também na expansão do local para o global. Os campos de futebol têm sido palco de manifestações como a que contas do jovem ameríndio, no Mundial no Brasil, que mostrou a sua bandeirinha vermelha na qual estava escrito “demarcação”, ou até como as Pussy Riot fizeram no Mundial na Rússia. Há um certo ganho nesta utilização da plataforma que os clubes têm e na sua subversão, ou tem sido um pouco inglório?
M. C. – São pequenas subversões…, mas a televisão, vimos agora com a pandemia, participou na desmaterialização do futebol a ser algo que já não está alojado num bairro, numa história social, num contexto local. O Manchester City recentemente fez algo semelhante ao McDonald’s, com a criação do Manchester City na América, no Japão, na Austrália. Estes clubes são mesmo uma marca que pode ser vendida em qualquer parte do mundo. A desmaterialização do futebol faz com que a experiência de ver um jogo de futebol hoje já não seja como antes, agora através de um ecrã. A nossa relação com os conteúdos está a mudar, mesmo com o cinema, porque vemos muito mais conteúdos no Netflix, num computador ou numa televisão, em substituição da experiência coletiva. O mesmo acontece no futebol, porque permite que esta indústria seja internacionalizada, e esteja num mercado maior. É mais fácil vender um produto que já não pertence a uma cultura ou a uma comunidade social. O clube de Bordéus, que tem uma bancada um pouco à esquerda, modificou o seu nome, que era Girondins de Bordeaux, e ficou apenas Bordeaux, por o nome da região ser conhecido em todo o mundo pelo vinho. O clube foi comprado por americanos que decidiram modificar o nome e o emblema, porque era mais fácil de vender no mercado asiático. Vemos a mesma coisa com o Paris Saint Germain, o emblema agora é uma pessoa que está a jogar basquetebol, porque o futuro para eles é fazer uma competição como a NBA, só com os maiores clubes do mundo, onde o fator tido em conta é o dinheiro de cada clube. É uma competição de mercado, onde se vendem produtos sem história, sem comunidade. A pandemia serviu muito a esta indústria porque permitiu mostrar que era possível vender um futebol sem adeptos, na altura em que os clubes jogavam com estádios vazios, havia alguém responsável pelo som que colocava barulho de adeptos. Isto podia estar a acontecer no Brasil, em França ou na China sem nos apercebermos de onde estava a passar-se o jogo. Esta fase de desmaterialização do futebol é bastante marcante. 

G. – E há um certo “vale tudo”, não é? O próximo mundial é no Qatar, em 2022, e há um número que não para de crescer de pessoas que morreram no processo de construção desta estrutura. Só a Noruega parece estar alerta, tendo já falado em boicote. Não é de estranhar que tudo isto aconteça com serenidade? 
M. C. – Claro, é inacreditável. Com esta catástrofe social de se construir estádios que já provocaram mortes, com um estado climático como o que estará no Qatar, é um desastre. Penso, e espero, que exista uma pressão da sociedade civil, mostrando que isto é escandaloso e não será possível. Penso que temos alguns jogadores que estão a perceber que será impossível de acontecer. Já vimos camisolas em que se lia “direitos humanos”, na equipa alemã, e acredito que mais gestos semelhantes irão acontecer. Acredito mesmo que iremos ver alguns gestos subversivos por parte dos jogadores, porque será difícil haver uma pequena revolta por parte da população qatari devido ao nível de segurança que existe no país. Vamos ver os limites deste hipercapitalismo no mundial do Qatar; a bola está do lado dos jogadores e serão eles os protagonistas, e vai ser bastante interessante perceber que protestos surgirão por parte deles. No futebol feminino, no mundial de 2019, a Ada Hegerberg que fez um boicote para lutar pela igualdade, e espero que neste mundial exista alguma equipa que faça um boicote por não ser possível jogar num país que tortura pessoas, que é homofóbico, que provocou tantas mortes pelo caminho. Dou como exemplo a Ada Hegerberg, mas também Megan Rapinoe, que não cantou o hino nacional nem quis ir à Casa Branca cumprimentar o Trump. Penso que teremos gestos deste tipo, de não se dar a mão ao Emir do Qatar. Talvez seja um pouco otimista, mas tenho a certeza de que será um momento político bastante importante. 

G. – Portugal recebeu jogadoras de futebol afegãs no mês passado, que no seu país estavam proibidas de jogar. Este é um bom exemplo de como o futebol responde a lutas populares completamente diferentes? Ainda há espaço para que grandes clubes possam fazê-lo sem tentar tirar proveito usando estas ações para limpar a sua imagem?
M. C. – Uma força deste futebol-negócio é a possibilidade da diplomacia. Eu conto um pouco no livro que a FIFA foi das primeiras instituições a reconhecer a independência do Estado Palestiniano. O futebol permite esta diplomacia paralela, e penso que temos muitos momentos positivos que nos mostram isso. A própria independência da Algéria mostra que o futebol permitiu redesenhar a diplomacia do Estado Algeriano, mas claro que temos sempre uma parte de lavagem social. O Paris Saint Germain, por exemplo, joga muito com isto, assim como grandes jogadores como o Cristiano Ronaldo. Há uma parte de marketing de ajudar os mais necessitados, e o Ronaldo é uma pessoa que faz uma otimização fiscal escandalosa com isso. Mas temos algumas coisas curiosas que acontecem, como é o caso do Inter de Milan, de que falo no livro, que ajuda os clubes Zapatistas no México. É incrível veres uma grande instituição do futebol-negócio a ajudar uma das grandes rebeliões indígenas num país como o México. E já faz uns 10 ou 15 anos desde que essa colaboração se iniciou. Ainda podes ter pequenas janelas de subversão dentro desta grande indústria do futebol. 

G. – Essas janelas de subversão abrem-se quando estás por dentro do sistema que queres subverter?
M. C. – Isto é algo que se relaciona muito com estratégia política, como em todos os movimentos sociais: tens de lutar dentro da indústria, o sindicato tem de estar numa fábrica ou numa empresa. Lutas por melhores condições de trabalho, por melhores condições para os adeptos, condições de organização, uma melhor redistribuição das riquezas dentro da Federação. E podemos, a partir daí, tentar construir um outro futebol, mais alternativo, com mais autonomia; um futebol sinónimo de experimentação. A história dos movimentos sociais sempre nos mostrou que tens uma luta dentro das instituições, e tens igualmente um movimento mais autónomo que experimenta outras formas de viver e de fazer sociedade. 

G. – No início dizias que o futebol acompanhou as diferentes vagas do movimento feministas, e há dois capítulos em que abordas especificamente a História Feminista do Futebol. Vão surgindo histórias de mulheres de forma breve noutros capítulos, como é o caso de Maribel Dominguez, mas há um vazio. Esse vazio está assente no próprio silenciamento das mulheres na História do Futebol?
M. C. – Está, claro. A única coisa que tive a contar sobre o futebol feminino está no livro. A parte sobre as futebolistas inglesas foi uma coisa que encontrei no último momento, porque esta história é tão invisibilizada que se tornou muito difícil para mim encontrá-la. Dois meses antes de acabar o livro, depois de dois ou três anos de pesquisa, encontrei esta parte da História através de alguém que vivia em Inglaterra e sabia de um livro no qual se falava do assunto. Mesmo sobre a história do futebol feminino francês, só há uma pessoa que fez o seu doutoramento sobre o tema, com um levantamento do que tinha acontecido. Isto mostra que o futebol feminino ficou sempre debaixo do tapete, e que foi sendo sempre silenciado pela própria instituição-futebol. Conto no livro que depois da Primeira Guerra Mundial houve uma competição feminina que era bastante mais popular do que o futebol masculino, mas como a instituição é composta por homens, fizeram uma repressão forte ao futebol feminino e as mulheres tiveram que esperar até aos anos 70 para poderem regressar. 

G. – O que acaba por ser fascinante é que, ao mesmo tempo, está tudo ligado. No capítulo em que dás a conhecer a história do futebol feminino inglês, percebemos que Florence Dixie, presidente do British Ladies Football Club, era tia de Alfred Douglas, que mantinha uma relação romântica com Oscar Wilde — e para o qual o escritor escreveu Carta a Bosie
M. C. – Esta história das primeiras mulheres que jogam futebol mostra, de certa forma, que está mesmo tudo ligado, e que inclusive as estratégias do movimento feminista eram as mesmas do futebol. Não escrevi muito sobre isto, mas o futebol feminino nos Estados Unidos é mais conhecido porque está menos ligado à história dos movimentos sociais. Lá, as universidades são o lugar predominante onde o futebol profissional se fabrica. Os movimentos sociais nos Estados Unidos da América lutaram para que as mulheres pudessem ir para a universidade, e como o futebol americano e o básquete eram as modalidades dos homens, o futebol era uma prática mais para os imigrantes, e as mulheres aproveitaram esse espaço. Neste momento, a pessoa mais conhecida no futebol americano é uma mulher, e o futebol feminino tem muita popularidade. 

G. – Mas continua a haver uma certa expectativa sobre como as mulheres jogadoras de futebol se devem comportar? Levas para Uma História Popular do Futebol as palavras da Beatrice Barbusse, socióloga que questiona se só haverá uma forma de ser mulher, e exploras um pouco esta ideia da expectativa que existe sobre estas mulheres. Mas falas também de uma equipa de futebol que vai contra todos os estereótipos e as expectativas de género: Dégommeuses. 
M. C. – Conheço as Dégommeuses porque são grandes amigas, mas elas estão a fazer um trabalho fantástico em França relativamente às questões de género no futebol. Vemos o mesmo discurso sobre o futebol ser algo que vai virilizar as mulheres desde o final do século XIX. “É uma prática tão viril que estas mulheres que o praticam não são verdadeiras mulheres” — temos este discurso em França, e que se viu quando houve o campeonato mundial de 2019. Vi quase sempre os jogos com as Dégommeuses e tivemos muitas conversas em torno do género, em função das diferentes equipas nacionais. Nos Estados Unidos, como o futebol é muito popular, havia pessoas muito diferentes umas das outras na equipa — a Megan Rapinoe, que é uma mulher assumidamente lésbica, outras mulheres heterossexuais, algumas com cabelos curtos e outras com cabelos longos, algumas com os lábios pintados e outras não. Havia mesmo esta diversidade muito grande. Quando vias a equipa francesa, notavas um grande estereótipo de feminilidade. Todas estas mulheres tinham o cabelo longo, usavam um vestido e sapatos com tacão, lábios vermelhos. O que nos mostra como na parte masculina existe uma fábrica de uma masculinidade hegemónica, e na feminina se tenta fabricar também uma ideia de feminilidade hegemónica. Há uma particularidade no futebol, que não há tanto no ténis ou no básquete, que são os comentários inacreditáveis que se ouvem ou lêem cada vez que há um jogo de futebol feminino: “são homens”, “como é que vão fazer o controlo da bola com o peito?”, “até um rapaz de 16 anos pode ganhar contra elas”, “deviam ficar em casa, o trabalho delas é em casa e não no campo de futebol”. Isto lê-se muito nas redes sociais. 

G. – A ideia de ser “recatada e do lar”, sempre na ordem do dia. 
M. C. – É o mesmo discurso que estava na imprensa, no século XIX, na aristocracia vitoriana. É inacreditável o quão presente o sexismo ainda está nestes discursos, em 2021. 

G. – E, em 2011, a Federação Francesa de Futebol Feminino (FFF) chegou mesmo a fazer a campanha do “Futebol das Princesas”. 
M. C. – Essa foi uma campanha dirigida às escolas, o nome que escolheram foi “Futebol das Princesas” e era tudo cor-de-rosa. Ainda estão a jogar neste estereótipo. Também em 2011, penso, fizeram uma campanha em que as futebolistas estavam nuas. A Federação Francesa pôr as jogadoras numa posição em que precisam de estar nuas para as verem é algo que deveria ser impensável, mas aconteceu.

G. – Na verdade, o futebol está muito assente também num sistema binário. A verdadeira revolução de género dentro do futebol-negócio será possível algum dia? Achas que algum dia haverá abertura para quebrar um sistema binário, transfóbico e homofóbico? 
M. C. – Penso que o que se passou nos Estados Unidos com uma pessoa como Megan Rapinoe mostrou que temos que quebrar esta fortaleza do futebol, que temos de atacá-la. Uma das últimas esferas na nossa sociedade desta construção da masculinidade tóxica e hegemónica, e desta binariedade de género, é o futebol. Penso que agora temos algumas pessoas no terreno, como as Dégommeuses, que mostram que o futebol tem um grande caminho a fazer. Estamos a ver mais equipas que fazem este trabalho de terreno e que nos mostram que temos de quebrar uma visão binária do mundo, inclusive dentro do mundo do futebol. Vemos também o que está a acontecer com as jogadoras muçulmanas, em França, que são proibidas de usar o hijab. Mas o futebol não está preso a um conceito de género, de religião, não assenta na islamofobia, no machismo, na homofobia. Nas dezassete regras do futebol, como dizia no início, não está escrito que não podes jogar com hijab e que uma pessoa trans e/ou não-binária não pode ser aceite numa equipa. O futebol pertence a todos, é essa a sua força. O facto de ser uma prática do povo é algo que a indústria nunca poderá apagar. O campo de futebol é uma mise-en-scéne do corpo. Durante os períodos fascistas de Mussolini ou Hitler, o futebol era visto como uma forma de mostrar o corpo ariano, branco, masculino. Temos de subverter isso e mostrar que num campo de futebol podem estar homens, mulheres, pessoas não-binárias, com mais ou menos músculos, mais ou menos viril. Ver uma pessoa como Megan Rapinoe no mundial é, para já, bastante empoderador. Temos de subverter a mise-en-scéne do futebol onde sempre estiveram corpos masculinos associados à virilidade, colocando os corpos não-binários como protagonistas.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Orfeu Negro