A Movijovem é, atualmente, a cooperativa de interesse público gestora da rede nacional de Pousadas de Juventude. Uma das maiores cadeias de alojamento em Portugal, integrada na maior rede mundial de hostels, a Hostelling International. Especificando, só no território nacional, no total, existem 42 Pousadas de Juventude entre o interior e o litoral.

Ainda assim, desde finais de 2018, inícios de 2019, que a totalidade das unidades tem procurado evoluir face à preocupação acrescida da questão da sustentabilidade por parte da sociedade. A prova disso é o processo de implementação e certificação do Sistema de Gestão da Qualidade e Sustentabilidade da Hostelling International (HI-Q&S) na área da qualidade e da sustentabilidade. De acordo com Miguel Perestrello, vogal da direção da Movijovem, responsável pelas Pousadas de Juventude, “o projeto visa, de uma forma global, dotar todas as pousadas e os recursos humanos para uma consciência de sustentabilidade”.

De momento, a certificação abrange já 16 das 42 pousadas portuguesas: Alvados, Alcoutim, Alijó, Almograve, Areia Branca, Beja, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Espinho, Foz Côa, Gerês, Idanha-a-Nova, Lousã, Ovar e São Martinho do Porto.

Entre estradas, vales de montanhas e grutas naturais, o Gerador embarcou numa viagem de 300 quilómetros para conhecer de perto a primeira contemplada: a Pousada de Juventude de Alvados. Embalados ao som da natureza, o Gerador esteve à conversa com Miguel Perestrello, vogal da direção da Movijovem, responsável pelas Pousadas de Juventude, sobre o processo de certificação. Ao longo da mesma, procurou ainda refletir sobre o potencial de Alvados, sobre as caraterísticas das certificadas e sobre o futuro das pousadas.

Gerador (G.) – Atualmente, as Pousadas de Juventude de Portugal estão distribuídas por todo o país com 42 unidades de norte a sul, do interior ao litoral. Neste sentido, e sendo Alvados uma localidade e antiga freguesia portuguesa, do município de Porto de Mós, com, apenas, 497 habitantes. Porquê a escolha desta freguesia para acolher a Pousada de Juventude?

Miguel Perestrello (M. P.) – Isso tem que ver, exatamente, com a missão da Movijovem. Apesar de gerir unidades de alojamentos não tem uma vertente comercial. A escolha da instalação das pousadas é numa lógica de coesão territorial. Portanto, as pousadas estão, de facto, distribuídas de norte a sul, do interior ao litoral, numa perspetiva de conseguirmos chegar a territórios que não estão servidos de unidades hoteleiras, como os grandes centros urbanos. Essa é, de facto, uma das grandes missões da Movijovem: o conseguir chegar a zonas menos povoadas, territórios de baixa densidade e que promovam a procura por parte dos jovens, mas também dos não jovens dos territórios em Portugal. E, posteriormente, contribuir para uma coesão territorial e é esse de facto um dos grandes desígnios da sustentabilidade.

Pousada de Juventude de Alvados

G. – Falavas-me agora da importância do estabelecimento da Pousada de Juventude de Alvados por uma lógica de coesão territorial. Neste sentido, sentes que desde a implementação desta pousada o número de visitantes internacionais tem vindo a aumentar nesta freguesia?

M. P. – Nesta, em particular, e na rede das Pousadas de Juventude. Nós podemo-nos focar, exclusivamente, nesta região, mas isto ocorre de uma forma geral. Felizmente, até ao início de 2020, nós estávamos com um crescimento muito grande na procura internacional, em resultados da aposta que a Movijovem entendeu que devia ser feito. Conseguir servir os jovens portugueses com uma rede que cubra todo o território nacional, que permita aos jovens dos grandes centros urbanos visitarem as áreas de baixa densidade, mas também aos jovens menos favorecidos visitarem os grandes centros urbanos e as zonas de baixa densidade. Por outro lado, quisemos fazer uma forte aposta na captação de turismo internacional, e, de facto, este estava a crescer. Por exemplo, um terço dos nossos hóspedes são de origem internacional, em resultado da rede a que pertencemos da Hostelling International, que está presente em mais de 60 países e que tem mais de 4000 hostels em todo o mundo. Isto permite-nos trabalhar em rede e fazer uma captação de turistas internacionais.

De facto, como referi há bocado, no início de 2020 estávamos com um crescimento acima dos 30 %, mas esta situação pandémica obrigou-nos a fechar, assim como toda a atividade turística que teve um forte revés. Mas houve uma captação de turistas internacionais para que pudessem frequentar as pousadas em Portugal.

G. – Foi, também, no ano de 2020, que iniciaram o processo de certificação pela Hostelling International, na área da qualidade e da sustentabilidade, que, atualmente, já abrange 16 das pousadas, que pretende reforçar a preocupação com a qualidade, sustentabilidade e segurança. Assim sendo, de momento, as certificadas são Alvados, Alcoutim, Alijó, Almograve, Areia Branca, Beja, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Espinho, Foz Côa, Gerês, Idanha-a-Nova, Lousã, Ovar e São Martinho do Porto. Será que nos poderias explicar melhor como é que surgiu a necessidade de acolher esta certificação ecológica?

M. P. – No final de 2019 e início de 2020, começaram as auditorias de certificação, mas o processo de implementação na área da qualidade e da sustentabilidade são um bocadinho anteriores. Talvez finais de 2018… Houve aqui um processo de quase um ano de implementação, integrado num projeto mais macro, que é um projeto de turismo sustentável que nós desenhamos e estamos ainda a implementar. Era suposto já estar a parte da implementação concluída, no entanto com esta pausa que tivemos de fazer recalendarizamos a implementação do projeto porque tivemos muitas pousadas fechadas e então não era possível implementar as medidas e as ações.

O projeto visa, de uma forma global, dotar todas as pousadas e os recursos humanos de uma consciência de sustentabilidade. A sustentabilidade, para mim, se a pudesse traduzir numa palavra diria que é equilíbrio. O equilíbrio entre o meio ambiente, mais do que a ecologia, aquilo que é a sociedade e a economia. Basicamente, é conseguirmos gerir unidades de alojamento, qualquer atividade turística ou não, de uma forma equilibrada para que possamos responder a estas necessidades sociais que as comunidades envolventes e territórios de baixa densidade tenham necessidade. As pessoas que vivem nestas regiões, eventualmente, mais desfavorecidas em termos de oportunidades de trabalho, o objetivo é conseguirmos contribuir para o desenvolvimento das populações, que as atividades turística não tenha um impacto negativo, que os turistas não venham só buscar recursos que as regiões têm, mas que deixem cá alguma coisa. Portanto, é este equilíbrio entre o meio ambiente e a sociedade e, depois, gerir isto de uma forma economicamente viável para que a sustentabilidade seja este equilíbrio. Desenhamos este projeto, que tem uma série de ações que cobrem estes três níveis de sustentabilidade: social, ambiental e económica. Em cada uma das ações, há um projeto de gestão de qualidade e de sustentabilidade que depois culmina com a sua certificação.

Este é um sistema desenvolvido pela Hostelling International, que está reconhecida e creditada pelo Global Sustainable Tourism, e é este selo que lhe confere uma certa credibilidade. Depois do sistema implementado há uma auditoria feita e são essas auditorias, que começaram em 2019, em dez pousadas, que nós designamos e as qualificamos como Q Hostels, no âmbito das Hostelling International, que cumprem os requisitos da ocupação da hora de funcionamento, dos serviços de abertura o ano inteiro. Então, nessas Q Hostels começamos com a implementação do sistema na componente da qualidade, sendo que o processo de implementação inclui ações de formação, sensibilização e de treino, em termos de qualidade e sustentabilidade. Na qualidade, a Movijovem iniciou a certificação com dez pousadas e a certificação cobriu essa componente. As 16, que referiste há pouco, que foram as seguintes, já estão certificadas com o selo de qualidade e sustentabilidade. O âmbito da auditoria já foi abrangendo toda a magnitude do sistema, como é o caso de Alvados que é a primeira.

Zona de refeições (exterior) Pousada da Juventude de Alvados

G. – Já agora que caraterísticas têm de possuir estas pousadas para obter este selo?

M. P. – Os sistemas de qualidade e sustentabilidade, em particular o da Hostelling, obtêm qualidades nos standards mínimos que a Hostelling tradicionalmente definiu como requisitos mínimos para pertencer à rede, ou seja, para ser hostel ou uma pousada de juventude.

Alguns desses requisitos são o número de horas de atendimento ao público, reservas com rácio de camas e instalações sanitárias, índices de satisfação dos clientes, padrão de satisfação de higiene e segurança. Depois, com a evolução dos tempos, o movimento das pousadas de juventude tem origem no século passado, ou seja, toda esta evolução culminou com um novo sistema. Mantém os standards mínimos exigidos, que são condição para pertencer à rede, e depois desenha um sistema de gestão e sustentabilidade, de adesão voluntária, por parte dos hóspedes, que tem um conjunto de requisitos a dar resposta às preocupações ambientais, sociais e económicas. Do meu ponto de vista, o sistema está elaborado de uma forma objetiva, prática e intuitiva porque está elaborado num processo de verificação dos procedimentos e as pessoas que trabalham nas pousadas têm de verificar esses requisitos. Esses requisitos, como referi, vão ao encontro da resposta daquilo que são as preocupações ambientais, sociais e económicas. E assim fechamos o ciclo da sustentabilidade. Respondendo a essas ações que são muito de ação humana, naturalmente que as infraestruturas também têm de dar resposta a essas exigências, mas é muito o compromisso que as pessoas têm e a forma como trabalham.

G. – Como referi anteriormente, esta certificação pretende reforçar a preocupação com a qualidade, sustentabilidade e segurança. De que forma têm procurado manter estes três pilares?

M. P. – Este é um dos princípios da certificação que é uma melhoria contínua. É através de uma análise permanente e sistemática aos processos de funcionamento das pousadas que nós vamos conseguindo melhorar esses pontos em termos de qualidade e de sustentabilidade. Eu colocaria a segurança no âmbito daquilo que é a qualidade porque é um dos requisitos mínimos. E as condições de segurança vão evoluindo e as nossas condições de segurança, ativa ou passiva, vão sendo alteradas. A nossa perceção de segurança vai evoluindo com aquilo que são as nossas necessidades intrínsecas. Eu posso dar um exemplo que consegue espelhar melhor esta minha ideia. Quando comecei a frequentar as pousadas de juventude, aos 15 ou 16 anos, através das visitas escolares, era muito comum os quartos serem partilhados com pessoas totalmente estranhas. Isso era uma das caraterísticas das pousadas de juventude: o intercâmbio de experiências e culturas até no próprio alojamento. Hoje em dia, nós já temos mais relutância em partilhar o quarto com pessoas que nos são estranhas. Portanto, o sentimento de quando partilho o quarto com uma pessoa estranha, hoje em dia, é diferente do que era há 20 anos. Nós, há 20 ou 30 anos, andávamos muito à boleia… Hoje em dia não andamos tanto… Portanto, a sensação de segurança e os mecanismos de segurança vão evoluindo tendo em consideração o que são as necessidades dos nossos hóspedes e dos nossos clientes. Para esta pousada, em particular, houve já uma evolução nesse tipo de alojamentos. Nós temos aqui um sistema de quartos familiares que já permite a famílias alojar-se sem ter de ter uma dispersão da família. Há uma evolução. É toda a implementação destes sistemas que nos permitem evoluir nesta base de qualidade e sustentabilidade. E, posteriormente, na segurança porque qualquer unidade hoteleira ou serviço tenta evoluir tenha ele um sistema organizado ou não. Isto faz parte da evolução normal da gestão.

Quarto duplo (Pousada de Juventude de Alvados)

G. – Por curiosidade, quais serão as seguintes a integrar esta rede sustentável?

M. P. – Todas elas estão integradas na implementação do sistema e o objetivo é que com as auditorias de certificação todas elas vejam o reconhecimento do seu sistema.

G. – Apesar desta evolução positiva do sistema, o que falta alcançar, no futuro, nas pousadas de juventude? E, especificamente, na Pousada de Juventude de Alvados?

M. P. – Acho que falta alcançar notoriedade do serviço hoteleiro que prestamos e reconhecimento do papel ativo que temos na vida das comunidades, na participação do desenvolvimento regional.

No que respeita à de Alvados, há aqui uma margem de crescimento em termos de procura. No entanto, a nível da notoriedade da ocupação tem de se procurar os atrativos regionais e toda a envolvente.

Hall de entrada na Pousada de Juventude de Alvados
Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia da organização