Miguel Ramalho começou os seus estudos na Escola de Dança do Conservatório Nacional, em Lisboa, onde completou oito anos de aprendizagem profissional. De imediato ingressou na Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC) sob a direção de Vasco Wellenkamp, onde dançou até 2008, quando foi contratado pela Companhia Nacional de Bailado (CNB), dando seguimento à sua carreira, tendo sido, recentemente, promovido a bailarino principal da companhia.

Nesta entrevista, feita no âmbito da rubrica Café na Central, publicada parcialmente no número 30 da revista Gerador, ficamos a conhecer mais a fundo o percurso do bailarino de 32 anos que nos últimos tempos se tem vindo a concentrar na criação coreográfica, estando atualmente a planear a sua nona criação. Embora reconheça que a dança implique hoje em dia uma maior adaptação do bailarino às diferentes linguagens – não sendo por isso um mero executante – considera que as bases de formação são essenciais na forma como se desenvolve o próprio movimento.

O bailarino do presente e do futuro é alguém mais humano, refere, capaz de absorver as diferentes influências que marcam indubitavelmente o panorama da dança que se observa hoje em Portugal. Por outro lado, Miguel Ramalho reflecte sobre as dificuldades da nova geração de bailarinos em se manter no país, face a uma área artística quase sempre limitada em termos de apoios. “O talento desta geração está preparado para carregar esta arte em Portugal. Não tenho é a certeza se este país está preparado para apoiar esse talento que pode ajudar a evoluir a dança”, sintetiza.

Gerador (G.) – Em entrevistas passadas, falaste da tua infância durante a qual praticaste futebol e dança. Como é que a dança entra na tua vida?
Miguel Ramalho (M. R.) – A dança entra na minha vida de forma bastante aleatória e surpreendente. Eu estudava num bairro social e era muito complicado para os meus pais e o meu irmão que trabalhavam em Lisboa. Era uma zona muito complicada, quando eu era miúdo. De qualquer maneira, os meus pais queriam que eu viesse estudar para Lisboa e a minha professora da primária, que era a Fernanda Mafra, e que é uma espécie de caça-talentos, muita vezes desviava as mesas e desafiava-nos a fazer uns passos de dança. Eu odiava aquilo, porque era miúdo e queria jogar à bola. Foi aí que ela falou à minha mãe do conservatório, que era uma escola grátis, perto do trabalho dos meus pais, em que eu podia vir para Lisboa e voltar para casa com eles. Era uma escola criativa e eu sempre tive muita energia, sendo que foi assim que entrei. Fiz audição, que na altura não era tão rígida – penso que hoje serão mais –, mas entrei sem saber bem como. Acabei por ir ficando, e dizemos muitas vezes «nós não escolhemos a dança, a dança é que nos escolhe a nós». Mas fui descobrindo um pouco esse talento, essa vocação. Nunca quis ser bailarino, mas gostava de dançar, de fazer as aulas e do lado competitivo de conseguir fazer os movimentos que os professores pediam. E foi efetivamente no conservatório, onde passamos muitas horas, que fui entrando naquele mundo. Mentalmente,a pessoa vai ficando habituada àquela rotina. A verdade é que o que eu queria era terminar o conservatório e posteriormente decidia aquilo que ia fazer. Nunca pensei que ia fazer da dança a minha vida. Porque a escola é uma coisa, a carreira é outra. A partir do momento em que o Vasco Wellenkamp e a Companhia Nacional de Bailado foram à escola e me ofereceram os dois contratos, pensei: “Bom, se calhar tenho mesmo jeito para isto!” Porque lá está, na mente de uma criança, quando estás na escola não interessa muito o futuro mas aquilo que estás a viver ali, o companheirismo, a fraternidade. No fim, quando se pensa que podes ter jeito é que se começa a trabalhar, é que se pensa numacarreira. Quando a pessoa sai da escola exalta uma certa independência, porque as rédeas do futuro passam a estar na tua mão. A partir desse dia esse gosto e esse amor pela dança foi crescendo.

G. – Tendo em conta o sítio onde cresceste, como é que era ser um adolescente que fazia dança?
M. R. – Como em tudo, os assuntos só são importantes quando falamos deles e hoje em dia já nem entro nessas conversas porque o preconceito existe, mas quanto mais importância lhe damos maior se torna o assunto. Acho que hoje em dia com tudo o que temos à nossa volta, as pessoas já não podem formar opiniões com base nas histórias do passado, mas sim com base em informações de fundamento. No passado, isso era diferente. Os preconceitos eram mais sólidos e vincados, portanto a minha maneira de o fazer era não falar sobre isso. A história que eu contava era que estudava numa escola que tinha dança, mas eu não era obrigado a fazê-la. Obviamente se alguns dos meus colegas soubessem que fazia ballet ou dança mais erudita não sei o que lhes passaria pela cabeça. Era uma realidade muito pobre e nem sequer havia informação suficiente para as pessoas formarem uma opinião. Então a minha história era essa, de que estudava numa escola em Lisboa com muitas atividades, sendo que uma delas era dança mas era hip hop, só por isso muito mais aceite. E foi assim ao longo de alguns anos, até que mudei de escola e que as coisas se tornaram mais normais. Lá está, como o gosto foi aumentando, a necessidade de falar e de ser mais aberto em relação àquilo que se faz é maior. Não porque eu tivesse algum tipo de problema, mas porque há realidades com as quais não necessitamos de lidar.

G. – Já por várias vezes falaste do Vasco Wellenkamp como o teu grande mestre. Que impacto é que ele teve no teu percurso?
M. R. – Devo dizer que o impacto que o Vasco teve na minha carreira é tão grande que ainda hoje se mantém. Mesmo a nível pessoal, acho que foi porque ele plantou a semente certa no sítio certo. O Vasco trouxe-me para a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, e eu era um miúdo com cinco por cento do desenvolvimento que tenho hoje em dia. Ele viu alguma coisa em mim. Destruiu primeiro tudo aquilo que tinha de vício da escola, porque na escola ensinam-nos as bases, mas de forma muito sedimentada, e é muito difícil o bailarino sair disso para obter um movimento mais livre. Ele retirou esses vícios e fez de mim bailarino. Eu na altura não conseguia compreender a forma dele trabalhar. Era muito novo. Até que três meses depois, a minha evolução foi tão grande que eu dei por mim a pensar naquilo que tinha acontecido. Ele é um bocadinho aquele professor silencioso. Trabalha de uma forma tão dura, tão rígida, que nos faz sentir que há ali até uma fase em que parece que não sabemos dançar. E, de um dia para o outro, a qualidade brota – e ainda hoje não sei muito bem explicar como. A verdade é que a minha capacidade de movimento e de maturidade em relação ao meu próprio corpo disparou. A partir desse momento e até hoje, todas as influências que me deu se mantêm. Hoje, eu faço a minha criação e todas as centenas de peças que eu dancei foram porque ele plantou aquela semente que se fez floresta.

“O impacto que o Vasco (Wellenkamp) teve na minha carreira é tão grande que ainda hoje se mantém”

G. – A Companhia Nacional de Bailado foi depois o destino natural?
M. R. – Quando estava na escola, recusei entrar, porque eu queria dançar e a companhia nacional tinha 80 bailarinos. Tinha de se entrar e esperar porque havia quase uma fila de espera. E eu queria dançar, queria brilhar, ao mesmo tempo em que não sabia bem o que fazer. A minha questão era que sempre quis fazer as coisas à minha maneira, mas algo me fez escolher receber metade do salário que receberia na CNB para ir para a CPBC. Ele obviamente aliciou-me. Todos os grandes génios têm de o fazer. E hoje sei que foi a melhor decisão que tomei na minha carreira. Na CPBC, tive oportunidade de ver o mundo, de dançar em inúmeros países e de cimentar esse gosto. A partir do momento em que era um bailarino formado e preparado para desafios maiores, a CNB era o destino natural. Ou isso ou ir lá para fora, mas achei que a CNB seria uma boa escolhaa nível de estabilidade.

G. – Talvez mais do que nunca falar de dança implicada falar em cruzamentos. É isso que hoje deve caracterizar um bailarino?
M. R. – Acho que o bailarino é mais completo quanto mais versátil for o seu percurso. A dança clássica é muito importante para dar uma preparação física, mas obviamente há muita gente que dança contemporâneo sem ter tido uma base clássica. Acho é que isso, na maioria dos casos, faz com que o vocabulário abrangido por essas pessoas seja mais redutor, isto é, menos vasto. Porque quando se tem uma linha clássica e um movimento contemporâneo, isso abrange mais coreógrafos e mais possibilidades de execução do movimento. Quando não se tem essas bases, o talento é um pouco mais próprio da pessoa, fica-se mais reduzido aquilo em que se é bom e àquilo que se sabe fazer. O que significa que tendo um maior número de bases possível a pessoa pode trabalhar com mais coreógrafos e com mais ferramentas.

G. – Dirias por isso que é importante ter essas bases clássicas?
M. R. – É importante. É óbvio que isso implica reduzir um pouco as coisas a um gráfico standard, mas cada bailarino tem o seu percurso. Há bailarinos extraordinários que nunca tiveram bases clássicas.

G. – Este ano faz 15 anos que terminou o Ballet Gulbenkian, que de alguma forma parece ser um evento marcante da dança em Portugal. Que impacto é que isso tem nas novas gerações?
M. R. – Nós estamos naturalmente numa fase pós-Ballet Gulbenkian. E 15 anos não são suficientes para se esfumar uma linguagem que se foi construindo durante tanto tempo. O Ballet Gulbenkian era uma companhia ícone, não só num nível nacional, mas a nível mundial. Os melhores bailarinos portugueses e coreógrafos trabalharam na Gulbenkian. A Gulbenkian foi a última grande companhia contemporânea em Portugal a nível de orçamento e de dimensão. E isso é um legado muito difícil de se fazer desaparecer. E estamos obviamente numa fase pós, porque tudo o que foi feito depois foi baseado naquela onda criada por eles.

G. – Talvez isso também tenha sido importante para ti, que te tens interessado muito na criação coreográfica. Como é que essa dimensão entra num jovem bailarino?
M. R. – Na verdade, sinto-me criador desde o momento em que compreendi o trabalho do Vasco Wellenkamp. A partir desse momento, senti-me criador, porque com o Vasco o bailarino não é um executante. O bailarino é um criador. O Vasco não é um coreógrafo que diz: “Isto é assim, faz assim.” É um coreógrafo que espera e que bloqueia imensamente quando um bailarino não responde ao início do que propõe. A partir desse momento, ele deixou em mim essa vontade de ser criador. Porque um coreógrafo não cria nada sem o bailarino, a sua visão é completada por ele. Esse amor pela criação nasceu já quando era muito jovem, e com a carreira que fiz tive oportunidade de ter as plataformas certas para começar a explorar essa dimensão.

G. – Que fatores é que pesam nas tuas criações?
M. R. – Não sei muito bem explicar isso. Acho que ainda sou muito jovem na coreografia para dizer que é este o meu caminho. Sou uma pessoa com muitas sensações de imagens. As minhas coreografias nunca surgem de um livro, normalmente surgem de uma imagem. Uma imagem que faça com que eu entenda o ambiente da peça que quero criar, porque, nas minhas peças, aprecio a criação do movimento, mas sobretudo a exploração do ambiente. Não da dramaturgia, mas do ambiente. Mas diria que são comandadas pela procura do movimento, pela questão da humanidade. Foco-me muito nessa questão do que é ser humano em palco.

G. – Nesse sentido, consideras que a dança deve ser pedagógica em relação a temas fraturantes?
M. R. – Acho que sim. Assim como em qualquer outra arte, a dança é uma forma de desenvolver seres humanos, de desenvolver personalidades, de desenvolver instintos. Mas isso é pelas atividades que tem de forma intrínseca. Agora, em relação à dança em si, como qualquer arte, é feita para as pessoas que a vêm. A arte está lá para ser observada e para fazer com que a pessoa que a vê se questione. Esse é o papel mais importante da arte. Nós olhamos para uma peça de arte e vemos aquilo que queremos ver, mas para isso temos de nos questionar. Esse é o lado mais pedagógico no sentido artístico. No sentido de atividade, a dança é sem dúvida um catalisador ao ser humano, ou seja, ajuda nas capacidades motoras, nas capacidades intelectuais, na vivência e na relação entre pessoas.

G. – Como é que olhas para a nova geração de bailarinos? Que novos rumos é que este novos podem trazer?
M. R. – A minha resposta vai ser muito simples. Em Portugal, existe muito talento e esta geração está preparada para continuar aquilo que já foi feito antes. O talento desta geração está preparado para carregar esta arte em Portugal. Não tenho é a certeza se este país está preparado para apoiar esse talento que pode ajudar a evoluir a dança. Neste momento, não sei se a decisão de ficar em Portugal é, de facto, a melhor decisão para os jovens portugueses.

Um coreógrafo não cria nada sem o bailarino, a sua visão é completada por ele”

G. – A dança sofre por ser esse parente pobre nos apoios?
M. R. – Sim, isso é um facto. Não gosto de sentir que a dança se vitimiza. A verdade é que a dança é o parente pobre, mas é a arte que faz suscitar mais interesse de alguma maneira nas pessoas, porque é a menos vista. O problema da dança é que é a arte que move menos massas. O teatro para o espectador comum está associado involuntariamente ao cinema e, como é falado, está associado ao nosso processo do dia a dia, logo é mais aprazível ao olhar e ao ouvido comum. Depois tens todos os outros tipos de atividade que são as incompreendidas, aquelas que as pessoas ou percebem muito ou não compreendem, como as artes visuais. Depois, a música é a mais divulgada, porque toda a gente ouve e partilha música. A dança como é a menos vista, as pessoas, mesmo tendo muita curiosidade, nem sempre dão primeiro o passo para ir ver um espetáculo. A questão é tomar esse primeiro passo. Pela forma como acontece a educação do cidadão português e pelo estado do país, as pessoas tendem sempre a pensar que preferem ir para aquilo que é uma escolha mais segura. É uma lógica ingrata principalmente para as pessoas que fazem dança. Mas essa lógica advém de tudo o que representa Portugal.

G. – O que é que dirias que caracteriza um bailarino do presente e do futuro?
M. R. – A evolução da dança e do bailarino é natural. Porque antigamente a palavra de ordem era da pessoa que trabalhava com o bailarino. Hoje em dia, existe uma informação que faz com que seja fácil ver todos os tipos de dança que existem pelo mundo, logo o bailarino cresce. Atualmente, existem milhares de formas de ser ver dança na Internet e de se ser influenciado por movimentos externos. Essa evolução acaba por ser natural. E a nívelintelectual o bailarino deixa de ser a pessoa que é mandada por outra, e passa a ser independente na sua forma de pensar. Isso faz com que o bailarino seja mais humano, que essa independência traga a essência de cada pessoa no movimento.

G. – Devido a essa evolução acaba por ser um bom momento para se ser bailarino?
M. R. – Acaba por ser um bom período para se ser bailarino a nível de movimento. Acaba por ser um bom período na corrente artística que se vive. Agora, nem todos os locais serão os melhores para se ser bailarino porque a pessoa para desenvolver todo este trabalho tem de ter condições, como qualquer outra profissão. Exige muito da essência da pessoa, do seu próprio ser. A pessoa tem de dar de si. O bailarino é-o 24 horas por dia e para a toda vida. E por isso é necessário que essas condições existam, mesmo que na dança muitas vezes se tenha de fazer muito com pouco. E o que falta a Portugal não é o talento, de todo.

Parte desta entrevista foi originalmente publicada no número 30 da Revista Gerador, disponível numa banca perto de ti ou em gerador.eu.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Andreia Mayer

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