Um poema escrito numa caligrafia que se torna um desenho, com imagens recolhidas ao longo de uma vida e colagens que não têm um fim determinado — assim podíamos tentar descrever de forma simplista a obra complexa de António Poppe que, em determinado momento, se materializou no Livro da Luz, editado pela Documenta em 2012. Durante a sua residência artística na galeria Zé dos Bois (ZdB), António meditou e esteve dias em total silêncio, mesmo quando no piso de baixo se iam dando concertos cujo som podia chegar ao último piso, onde se encontrava. O resultado do tempo que lá passou é uma exposição que Natxo Checa, o curador, descreve como sendo “apenas um momento” e “uma paragem no tempo para podermos ver a obra do António”. Não por não ter peças para expor, mas porque a obra de António Poppe é um caminho cujo fim nunca está determinado e se vai reinventando a si mesma — reaproveitando trabalhos antigos e mudando-lhes o contexto, acrescentando ou retirando pormenores, ou reestruturando completamente uma criação.

Na entrada da ZdB está a primeira peça de António Poppe, que confessa ter sido criada originalmente para o projeto final da Ar.Co, onde estudou artes visuais. Rapidamente explica que é assim que funciona a sua obra: através de uma constante mutação. “Dentro deste Palco Primeiro estão alguns desenhos muito antigos”, refere ao apresentar a primeira obra no espaço de exposição. “Há algumas coisas que prefiro não desvendar”, confessa António Poppe levantando o véu sobre uma das características de todo o seu trabalho: o facto de ser muito pessoal.

Numa visita pela exposição que ocupa dois andares da ZdB, na qual Natxo Checa também esteve presente, o artista foi explicando como surgiram as peças sem, no entanto, desvendar todos os pormenores. O poema presente no Livro da Luz divide-se pelas salas do primeiro piso da ZdB, ancorado por duas grandes peças circulares (a que chama “mandalas”) que, em diálogo, resultam numa espécie de patchwork rebelde com recortes sobrepostos uns em cima dos outros a formar uma colagem. Apesar de terem sido feitas em 2019 na ZdB, têm “uma matriz muito antiga”, uma delas inclui uma fotografia de um amigo muito próximo com quem estudou em Chicago, uma personagem da sua vida que se repete na última peça da exposição. “Ele aparece em várias destas imagens e já aparece há algum tempo porque incluo sempre algumas pessoas da minha vida pessoal, amigos e família.”, explica António que, de seguida, chama a atenção para Simone Weil, uma personagem menos íntima mas com grande importância na sua vida e cuja fotografia também se vai repetindo, e de Rinpoche, mestre de Dalai Lama.

A meditação é um ponto-chave no seu trabalho. Explica isso a certa altura, deixando claro que mais do que uma ajuda para organizar o trabalho, é uma prática que lhe guia a vida: “Há uma forte relação com a meditação no meu trabalho, porque tem sido a minha forma de criar uma prática mais disciplinada tanto em relação ao trabalho como em relação à vida”, conta.

Num estado de equilíbrio perfeito está um castelo de cartas que ascende ao teto, com um peixe que António Poppe encontrou no livro Índio Branco, de Le Clézio. Leu-o há muitos anos e voltou a lê-lo há cerca de dois anos, desenhando esse mesmo peixe em todas as páginas, criando encontros entre o animal e o texto transcrito na sua caligrafia. O peixe de Le Clézio tornou-se num cardume cuja força cria um momento de tensão com a leveza da peça na sua totalidade.

“As pessoas aqui podem ter um contacto com a escrita, a caligrafia, as colagens. Todas estas possibilidades entre a poética, as referências ao Le Clézio, as mandalas que são muito densas e fortes. No andar de cima é tudo mais branco”, explica Natxo enquanto faz o preâmbulo para a subida até ao segundo piso. Na primeira sala do segundo piso, há um recuo até ao começo da exposição. O resto do projeto final para a Ar.Co cobre as paredes de onde vão surgindo outras colagens mais pequenas, uma em cada parede, e que reforçam a ideia de ciclo que une a vida e a obra de António Poppe.

O coral vai sendo uma referência constante ao longo da exposição. Ao chegar ao segundo piso, António esclarece que a forma do coral lhe faz lembrar uma caligrafia e que este é um elemento que acaba por criar uma sensação de unidade entre todas as peças. Sala após sala, o visitante é convidado a mergulhar no universo de António Poppe — onde o azul predomina —, em que não procura dar respostas com a sua obra, mas oferece uma série de sensações que estão à espera de ser recolhidas.

Natxo resume a exposição Mil Órbitas e a relação de António com a arte, em poucas palavras: “No mundo das artes visuais, há sistemas cada vez mais definidos e profissionalizados, que correspondem a expectativas. No caso do António, isso não é assim, porque a própria expectativa é quebrada.”

A exposição Mil Órbitas pode ser visitada na ZdB até ao dia 27 de abril, tendo a entrada o custo de 3 €. Sabe mais sobre o Livro da Luz, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de capa de João Manso

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