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Miradouro da Lua, colonialidade crua

Nas Gargantas Soltas de hoje, Paula Cardoso fala-nos sobre o dever de reparar nas marcas coloniais.

Opinião de Paula Cardoso

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No último fim-de-semana, assisti pela primeira vez ao filme “O Miradouro da Lua”, do realizador português Jorge António, mais de 30 anos depois da estreia desta que é a primeira co-produção cinematográfica a juntar Angola e Portugal.

A oportunidade surgiu na 3.ª edição do Doc Luanda – Festival Internacional de Cinema Documental, numa sessão especial co-organizada com o Cine Zunga, iniciativa promovida pela Geração 80. Se não conhecem, aproveitem para espreitar esta janela de criativos com vista para Angola, onde acompanhei a acção d’ “O Miradouro da Lua”. 

Momentos antes da exibição, o realizador dirigiu-se ao público, chamou um par de actores que integraram o elenco e, por várias vezes – e a diferentes vozes –, ouviu-se que, aos olhos do cineasta, aquele é o seu “pior filme”.

A auto-crítica, pareceu-me – à falta de informação adicional –, estar focada em apreciações técnicas, próprias de quem estava e debutar profissionalmente, e hoje, à distância de mais de três décadas, talvez veja naqueles cerca de 90 minutos de acção algum amadorismo.

Como não ouvi uma única palavra sobre a narrativa apresentada no grande ecrã e, não tendo existido um espaço de discussão no final, continuo sem saber se, na classificação do “pior filme” de Jorge António, cabe uma leitura sobre o pensamento que produz e reproduz.

Converso sobre isso com as minhas companhias de sessão, num exercício crítico que gosto de encetar e estimular. Não apenas porque me ajuda digerir o que vi e senti, como me permite perceber como uma mesma produção é capaz de gerar tantas leituras – e, por vezes, profundamente distintas.

Não foi o caso de “O Miradouro da Lua”, que, no nosso grupo de três pessoas – cada uma com a sua nacionalidade, identidades, profissão, pertenças e olhares – activou exactamente o mesmo alerta de colonialidade.

“Este é um filme sobre Portugal. Angola é apenas o cenário”, observou-se de um lado. Do outro assinalou-se que, a partir do quotidiano de uma família angolana negra, se reproduzem práticas coloniais, onde sobressai o contraste entre as ordens dos privilegiados que não movem uma palha, e o servilismo dos trabalhadores domésticos. Somo também o meu olhar, focado no estereótipo feminino presente na trama: o da mulher negra sedutora, tão incapaz de resistir ao homem branco, que, do nada, beija, agarra, e avança na investida.

Tendo em conta a autoria, tempo e espaço da produção, não me pareceu surpreendente que assim fosse. Afinal, estamos diante do olhar de um português de cerca de 25 anos, à época estreante em cinema e em Luanda, e numa altura em que Angola vivia em guerra civil, ainda que sob ventos de esperança de acordos de paz.

Mas se é verdade que a narrativa exibida não surpreende – foi com ela que crescemos, e é com ela que permanecemos –, não é menos verdade que, mais de 30 anos depois, seria de esperar que ela inspirasse uma qualquer leitura crítica por parte dos protagonistas que, no momento de apresentação do filme, apenas cruzaram ideias sobre as marcas da idade.

Saltou por isso à vista que a colonialidade, nas suas múltiplas expressões, continua bem viva. Do papel da mulher negra à exaltação de exotismos cliché – haja Mussulo e belezas naturais para compensar as baratas –, passando pelas farras que nunca mais acabam, a Luanda que se vê d’ “O Miradouro da Lua” é, como seria de esperar, profundamente colonial. 

Reconhecer essa marca não equivale a dizer que deveria ser diferente, ou que, sendo como é, não deveria ser exibido. Pelo contrário, ao reproduzir a colonialidade, o filme oferece-nos uma oportunidade de reflexão decolonial. Importa reparar nisso, para que o presente não seja apenas uma versão actualizada do passado. Neocolonial.

-Sobre a Paula Cardoso-

Fundadora da comunidade digital “Afrolink”, que visibiliza profissionais africanos e  afrodescendentes residentes em Portugal ou com ligações ao país, é também autora  da série de livros infantis “Força Africana”, projetos desenvolvidos para promover uma  maior representatividade negra na sociedade portuguesa. Com o mesmo propósito, faz  parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresentou a segunda  temporada do “Black Excellence Talk Series”, formato transmitido na RTP África. No  mesmo canal, assume, desde Outubro de 2023, a apresentação do magazine cultural  Rumos. Integra ainda o Fórum dos Cidadãos, que visa contribuir para revigorar a  democracia portuguesa, bem como os programas HeforShe Lisboa e Bora Mulheres,  de mentoria e empreendedorismo feminino. É natural de Moçambique, licenciou-se  em Relações Internacionais e trabalhou como jornalista durante 17 anos, percurso  iniciado na revista Visão. Assina a crónica “Mutuacção” no Setenta e Quatro, projeto  digital de jornalismo de investigação, é uma das cronistas do Gerador, e pertence à  equipa de produção de conteúdos do programa de televisão Jantar Indiscreto. Em  Março de 2023 foi apontada pela revista de negócios “Success Pitchers” como uma das  “10 Mulheres Líderes Mais Inspiradoras do Empreendedorismo Social”, distinção que  sucedeu à indicação, em 2022, pela Euclid NetWork, como uma das “Top 100 Women  In Social Enterprise” da Europa de 2022

Texto de Paula Cardoso
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade

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