É verdade que quando estamos menstruadas não podemos lavar o cabelo? Não, mas é verdade que muita gente acredita nisso. As justificações são várias: podemos ficar malucas, podemos ter um ataque, ou podemos até morrer. Uma vez disseram-me que a justificação que tinham ouvido era que, num curto mas muito específico momento durante a menstruação, o contacto da cabeça com a água podia provocar a morte. Não se sabendo qual seria esse momento, mais valia jogar pelo seguro e evitar lavar o cabelo de todo.

Este e outros mitos, com as devidas variações consoante a zona de Portugal de que estamos a falar, abundam desde o tempo dos antigos e sobrevivem de boca em boca disfarçados de ensinamentos até aos dias de hoje. Assim como há quem tenha crescido a ouvir dizer que não podia lavar o cabelo durante a menstruação, há quem pelo mesmo motivo não faça bolos, porque não crescem; não bata natas ou claras, porque não vão ficar fofas; não coma azeitonas, porque os caroços vão aparecer na cara... a lista é imensa e chega a ser hilariante (como não poder comer polvo porque as nossas pernas vão transformar-se em tentáculos), mas... porque é que estes mitos persistem?

A resposta a esta questão surge muito lá atrás, quando simplesmente se percebia que, se tens uma vulva, vais eventualmente começar a sangrar periodicamente e que, se parece não haver motivo nem propósito para esse sangue, algo de divino ou profano está na sua origem. Terá este sangue poderes fantásticos? Será bendito? Será maldito? Pelo sim, pelo não, era sensato ter-se cuidado ou, pelo contrário, usar-se o sangue menstrual em rituais em busca de protecção: colocando-o na pele, numa bebida, na terra...

Aqui em Portugal, e em muitas outras culturas semelhantes, calhou-nos que o sangue menstrual fosse entendido como tendo um poder maléfico e perigoso: mulheres menstruadas não podiam estar presentes na matança do porco porque podiam estragar a carne toda do animal, que seria a partir dali o sustento de muitas famílias durante muito tempo num país pobre e rural. Esta proibição não era encarada como um castigo para a mulher, mas sim como precaução e zelo pela subsistência e bem-estar da família. Outras proibições, muitas enraizadas numa matriz judaico-cristã, procuravam proteger a própria mulher durante esta fase: porque pode enlouquecer, porque pode morrer, porque o útero pode secar... Problemas ginecológicos graves que acometessem a mulher de tempos idos tinham de ter alguma explicação. Teria sido do que comeu? Fez alguma coisa que não devia? Como prevenir para uma próxima?

Felizmente hoje em dia temos a sorte de ter um acesso facilitado ao conhecimento. Sabemos em que consiste a menstruação e porque é que ela acontece, sabemos que entre o azar e o menstruar não existe causalidade e, quando nos damos conta que nós próprias adoptámos algumas destas regras, rimo-nos e levamos a mão à cabeça: “como é que eu nunca me questionei?,” sabemos lá, as nossas avós ou as nossas mães ensinaram-nos assim e nós fomos fazendo. E, por irmos fazendo, mantivemo-nos excluídas de actividades e ritos que aconteceram sem nós, ou que não aconteceram de todo porque nós simplesmente “não podíamos”.

Se, por um lado, hoje já não cedemos tanto a estes preconceitos, continuamos, por outro, a procurar acreditar que há algo de místico na menstruação: reforçamos que os nossos períodos se sincronizam, ou que a dor menstrual é o organismo a limpar as suas toxinas e que apenas nos torna mais fortes; ou não compramos a maioria dos mitos mas juramos a pés juntos que connosco as natas não ficam mesmo fofas por causa da menstruação, ou que os bolos realmente não crescem, ou que preferimos continuar a evitar comer determinado alimento “não vá o diabo tecê-las”. A evidência científica contradiz estes “fenómenos” sem gaguejar mas, por alguma razão, insistimos neles. Talvez queiramos com muita força que a menstruação nos faça ascender a um estatuto quase divino. Não deixam, ainda assim, de ser mitos. Se nos esforçamos por derrubar uns, esforcemo-nos por derrubar todos.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia
Fotografia de Pedro Lopes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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