A BoCA — Biennial of Contemporary Arts — está de volta entre 15 de março e 30 de abril para uma 2.ª edição a ter lugar em Lisboa e no Porto, como aconteceu em 2017, e agora em Braga. Proporcionar diálogos entre as artes visuais, as artes cénicas, a música e a performance é o objetivo da bienal que ao longo de dois anos põe em prática programação, residências artísticas e um programa educativo, dando a ver o que por vezes é invisível em Portugal e trazendo de outros países o que ainda não chegou cá. Na apresentação da programação no Teatro Nacional D. Maria II, no dia 18 de fevereiro, o diretor artístico John Romão apresentou a BoCA de 2019, na qual vão ser apresentadas, o total, 22 estreias mundiais e 15 estreias nacionais de obras de diferentes formatos. Tiago Rodrigues, diretor do D. Maria, conseguiu descrever a bienal em quatro palavras: rigor, reflexão, densidade e intensidade.

A apresentação acabou com uma performance de Pedro Barateiro, Como fazer uma máscara, que não só deu a conhecer um dos artistas da programação mas também tocou em pontos que importam à BoCA. Nas palavras de John Romão, o diretor criativo da bienal, “esta performance, que já tem alguns anos, reflete uma ideia muito presente no teatro — a ideia de máscara —, e o Pedro nunca a tinha apresentado num teatro, curiosamente. A máscara está presente desde sempre na história do teatro e também era interessante para ele sair do espaço museológico e fazer uma performance aqui no Teatro Nacional D. Maria II. Ao mesmo tempo, falar de máscaras ou de identidades sociais, ou de género (ele acaba por falar dessas todas), liga-se a temas que estão presentes na nossa programação de 2019.”

Enquanto tirávamos notas, o Afonso Martins tirava impressões no diário gráfico. Levou as canetas de feltro e o diário gráfico consigo para continuar o registo que tem vindo a fazer da oferta cultural de Lisboa — que vai de performances a festas e eventos pontuais —, com o qual quer criar um comentário gráfico que vá além dos registos mais comuns. Desenha em tempo real com as condições que tiver no espaço e na situação em que se encontrar. Descreve a sua posição como sendo a de um espectador atento que tenta registar o que vê como vê. Identificámo-nos com o que estava a criar e desafiámo-lo a unir forças para este artigo. 

Como Fazer uma Máscara, performance de Pedro Barateiro 

Uma programação pensada para romper zonas de conforto

Refletindo as dimensões ritualistas e do sagrado presentes na contemporaneidade, 52 artistas vão ocupar os 37 espaços de apresentação, que se dividem entre Lisboa, Porto e Braga.

Marina Abramovic, uma das grandes referências da performance art, apresentou Spirit House no Matadouro das Caldas da Rainha em 1997. Vinte e dois anos depois a instalação volta a Portugal para ser apresentada cá pela segunda vez. Quem também volta a Portugal, mas desta vez num registo que nunca trouxe é Wolfgang Tillmans, com o “lado mais obscuro da sua obra”, como John Romão lhe chamou: a música eletrónica. O concerto Before I Knew It vai ter lugar no Lux. Em estreia absoluta vai estar Beyoncé Mass, a celebração religiosa de Yolanda Norton que parte da música e vida pessoal de Beyoncé para proclamar um discurso de empoderamento sobre marginalizados e esquecidos, na voz de um coro de gospel. Vasya Run, um coletivo de rapazes russos que pensam a arte e questões fraturantes da atualidade, vão apresentar a performance If you want to continue, uma criação nova que vai ocupar a Sala dos Geradores no MAAT, em Lisboa, e o Palácio dos Correios, no Porto.

Yolanda Norton explica porque pensou em Beyoncé para a sua criação

De volta à BoCA está Tania Bruguera, artista cubana que esteve em residência na bienal em 2017/2018. Desta vez apresenta o seu trabalho em Lisboa com uma instalação pensada para o espaço público. Este regresso não é acidental; completa a ideia que John Romão lançou na apresentação e que serve de pilar para a BoCA, de ir “deixando o lastro de edição para edição”.

Os portugueses Gonçalo M. Tavares & Os Espacialistas prepararam três conferências-performanceOs Animais e o Dinheiro — que discorrem sobre as potencialidades artísticas do quotidiano e vão ser apresentadas no Teatro Trindade, em Lisboa, no Rivoli, no Porto, e no Theatro Circo, em Braga. Volmir Cordeiro parte de Bertolt Brecht para a nova coreografia que criou e será interpretada por si, Rua. Pedro Barateiro mostra a performance A Viagem Invertida, no D. Maria II, e André Romão expõe Flora pela primeira vez, no Museu da Imagem em Braga. IMUNE — Instituto da Mulher Negra em Portugal — pisam os palcos pela primeira vez no Porto, na Mala Voadora com a conferência Descolonizaaaaarte! e nos Maus Hábitos com a performance Gestuário II.

Comer o Coração é uma performance criada por Rui Chafes e Vera Mantero há 15 anos para representar Portugal na Bienal de São Paulo. Foi apresentada entre as árvores do Jardim da Sereia, em Coimbra — sob o nome Comer o Coração nas Árvores — e esteve recentemente no Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Para BoCA 2019, a coreógrafa e o escultor trazem Comer o Coração em Cena, a mesma versão que apresentaram em Guimarães mas que representa o salto de uma performance pensada para o espaço museológico e adaptada ao espaço cénico, desta vez no palco da Sala Garrett do Teatro D. Maria II, em Lisboa.

Vídeo da performance Comer o Coração nas Árvores, de Rui Chafes e Vera Mantero

Jonathan Uliel Saldanha, natural do Porto vai apresentar Scotoma Cintilante no Teatro Nacional S. Carlos, em Lisboa. Um concerto performance com uma escultura de luz movida por membros do Ver pela Arte, o projeto criado pelo Centro Nacional de Cultura que trabalha, entre outras coisas, na criação de recursos para alunos com necessidades especiais, na área da deficiência visual. John Romão descreveu-o ao Gerador como sendo “um trabalho numa componente mais material, escultórica e sonora, sendo esta última a que ele [Jonathan] está habituado a desenvolver.”

Composição de impressões no diário gráfico do Afonso 

Quatro artistas residentes na BoCA 2019 que refletem a essência da bienal

 Marlene Monteiro Freitas, Horácio Frutuoso, Diana Policarpo e Gerard&Kelly são os quatro artistas em residência na BoCa 2019. John Romão não tem dúvidas quanto à relação entre os quatro e a essência da bienal: “No caso da Marlene Monteiro Freitas, sendo coreógrafa e bailarina convidei-a a operar fora do seu campo artístico. Está a criar a sua primeira instalação e essa é uma das características da BoCA, convidar artistas para criarem fora da zona em que são especializados. O Horácio Frutuoso é um artista plástico e vai criar uma instalação plástica, mas a minha proposta foi que ele criasse para um espaço exterior. A obra vai ser instalada na Estufa Fria e achei que, como são três peças em acrílico, ia resultar muito bem esteticamente num espaço de natureza, não impositivo. A nível conceptual, ele trabalha a biblioteca — algo que armazena ou congrega elementos semelhantes — e é mesmo isso que é uma estufa, então encontrei aí essa relação”, explica ao Gerador.  Sobre Diana Policarpo e Gerard&Kelly também se mostra convicto: “A Diana Policarpo é uma artista que me interessa muito pela sua prática híbrida entre as instalações sonoras e a performance musical (e ela opera muito entre essas duas linhas). No caso da BoCA ela parte de uma ópera política da Johanna Beyer, que se chama Status Quo, em que vai recriar essa ópera mas congregando instrumentistas e uma cantora. Não vai ser uma ópera ao vivo, vai ser uma instalação sonora; e interessa-me também pensar isso, como é que uma ópera pode ser apenas material, física (porque é uma instalação sonora) e ao mesmo tempo tão imaterial porque se processa apenas da propagação do som. E finalmente com Gerard&Kelly, dois coreógrafos e artistas plásticos norte-americanos, o que me interessa neste trabalho é a transversalidade do seu campo de ação, porque eles tanto fazem instalações em grandes museus como o New Museum em Nova Iorque, como fazem performances, e atuam nessas duas áreas sem nenhuma ter um especial destaque. Além disso são artistas que nunca apresentaram o seu trabalho em Portugal, e isso interessa-me até para trazer a Portugal não só a obra mas os artistas.”, conta John.

Excerto da performance State Of de Gerard&Kelly 

As residências artísticas são, para John Romão, mais do que um momento efémero. Tal como aconteceu com Tania Bruguera, que esteve pela primeira vez em Portugal e em residência na BoCA em 2017, já está a pensar no rasto que os artistas deste ano podem deixar para 2020 ou até 2021. “Eu gosto de pensar na efemeridade como algo que se cristaliza, na verdade. Não fisicamente mas que se cristaliza nos nossos corpos, na nossa experiência visual, na nossa memória, no nosso afeto em relação a essas coisas. Na edição passada eu iniciava a apresentação a falar sobre a efemeridade como algo que pode ser transformador de nós próprios e é interessante pensar como é que isso resulta neste nosso contrato com os artistas, uma espécie de relação amorosa durante dois anos. Vamos dar-nos bem, vamos gostar uns dos outros, numa relação poliamorosa”, confessa John.

Marlene, Horácio, Diana e Gerard&Kelly, os artistas residentes 

O programa educativo como ponto fulcral da Bienal

 Apesar de acontecer de dois em dois anos, uma bienal é pensada e preparada em todos os intervalos. O programa educativo da BoCA 2019 começou a ser posto em prática em 2018 através de diferentes ações, e projetos de diferentes escalas. Como forma de render homenagem a Helena Almeida, uma das mais consagradas artistas portuguesas do século XX que morreu no fim de setembro de 2018, John Romão concebeu o projeto “Sente-me, Ouve-me, Vê-me”, que parte da série homónima da pintora e se dirige a 3 escolas universitárias de música, cada uma numa das cidades da BoCA. Com os curadores Ana Cristina Cachola, Delfim Sardo e Filipa Oliveira no papel de mentores, e ainda os compositores Dimitrios Andrikopoulos e Diogo Alvim, este projeto tem como finalidade apoiar e promover a nova criação contemporânea portuguesa, lançando à Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) no Porto, ao departamento de música da Univerisdade do Minho em Braga, e à Escola Superior de Música em Lisboa, o desafio de compor a partir um dos 3 verbos. “Sente-me” em Lisboa, “Ouve-me” no Porto, e “Vê-me” em Braga dão o mote para a composição que vai resultar num concerto das três escolas.

Enquanto as composições são preparadas por estudantes universitários, também há espaço na BoCA para os mais novos. BoCA Sub21 é o projeto dirigido por Sara Franqueiro e Nuno Barata que reúne um grupo de 15 jovens entre os 16 e os 21 anos em Lisboa, no Porto e em Braga. Através de um Open Call e de newsletters lançadas pelo Facebook e em algumas escolas, foi feita a comunicação. Primeiro em Lisboa, onde o grupo já está formado, e agora no Porto e em Braga, onde as inscrições ainda vão abrir. Segundo John Romão, o grupo vai reunir jovens “que acompanham criativamente e criticamente a construção da Bienal e das próprias criações dos artistas portugueses, uma vez que vão contactar com os artistas, assistir a ensaios e visitar ateliês”. Através do Instagram de um blog vão partilhar a experiência, que culmina numa performance e numa conferência performativa criada por cada grupo.

Ecotemporâneos, o projeto que leva o pensamento consciente à Estufa Fria

Pensado de raiz por John Romão, o projeto Ecotemporâneos partiu da ligação da cidade aos espaços verdes — uma vez que em 2020 Lisboa vai ser a Capital Verde Europeia — e da relação pessoal do diretor artístico com bibliotecas. “Sempre tive um fascínio muito grande pelo facto de na Biblioteca Nacional existirem livros em braille. Foi uma coisa que me chamou à atenção a nível estético também, mas também social; comecei a pensar como é que um cego se desloca a uma biblioteca, que livros é que pode ler, e fiz uma pesquisa sobre isso. Aí decidi ligar estas duas coisas — a literatura com os espaços verdes —, o que me pareceu uma metáfora engraçada para refletir sobre a acessibilidade, a biodiversidade, a ecologia. Como é que de alguma maneira se pode olhar uma deficiência não como uma coisa negativa mas como algo que te oferece outras coisas e te desperta outros sentidos. Esse foi o ponto de partida, ao qual depois adicionamos a ideia de trabalhar com deficientes auditivos, num projeto que é dedicado a essas pessoas mas é aberto a todos”, explica John Romão ao Gerador.

“Aquilo que eu sinto é que é uma coisa transversal: parece que somos todos acessíveis e inclusivos mas isso acaba por ser uma coisa mais integradora do que inclusiva. Parece que se continua a viver em ilhas de coisas diferentes — a ilha dos deficientes visuais, a ilha dos deficientes auditivos, a ilha dos que vão assistir só a concertos, a ilha dos que vão assistir só a teatro; ou seja, só comunidades fragmentadas e que não se ligam nem comunicam entre si. E esta ideia da ecologia parece que é só uma preocupação, mas é importante pensar como é que isso se liga com outras áreas e isso vai ao encontro da essência da BoCA.”, acrescenta.

Ecotemporâneos consiste numa comunidade de leitura que se vai encontrar em espaços verdes para discutir um livro a ser escolhido por um convidado diferente em cada sessão, sendo que as duas primeiras vão decorrer na Estufa Fria. O projeto resulta de uma parceria entre a BoCA e a EGEAC.

52 artistas são mostrados em 3 cidades durante 15 dias

Aos nomes acima confirmados juntam-se ainda outros igualmente importantes, que enumeramos em baixo, para que não te falte nenhum ao pensar naquilo que queres ver e conhecer nesta edição da BoCA:

  • Black e Nídia, ambos num DJ Set nas Carpintarias de São Lázaro;
  • Alfredo Martins com a performance Silent Disco no Rive Rouge, em Lisboa;
  • Maria Trabulo com a performance e instalação Soará a Silêncio, o som de uma revolução dentro de um Bunker;
  • Alfredo Luxúria Cabral — a quem automaticamente se associa a banda Mão Morta — com a performance (Des)dobras;
  • Joana da Conceição com a performance e instalação O Berço de Vénus;
  • Karlheinz Stockhausen pelo Coro Gulbenkian;
  • Linn Da Quebrada com Pajubá no Lux;
  • A performance Punto de Fuga da comunidade chilena Ciudad Aberta, no MAAT;
  • O espetáculo Rosa. Espinho. Dureza. De Gabriel Ferrandini, uma nova criação que vai ser apresentada no Rivoli e no D. Maria II;
  • A também nova criação teatral de Paulo Castro, Hello my name is, no D. Maria II e no Teatro Carlos Alberto, no Porto;
  • A instalação São Simião da Montanha Admirável, do Projecto Teatral;
  • O concerto duploc barulin de Tânia Carvalho, que vai ao Teatro da Garagem em Lisboa e ao Theatro Circo, em Braga;
  • A performance Séance de Mariana Tengner Barros, que faz do GNRation em Braga, da Casa Museu Fernando de Castro no Porto, e da ZDB em Lisboa, o seu espaço;
  • Coin Operated, uma performance de Jonas & Lander que vai tomar conta do Museu dos Coches, em Lisboa;
  • A instalação e performance Voluta, de João Pais Filipe, que vai até à Casa de Vidro do Mosteiro de Tibães, em Braga, e no qual também vai estar Lo Frío y Lo Cruel de Angélica Liddell;
  • A instalação de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, Identidade Nacional (Príncipe Real), no Reservatório da Patriarcal do Príncipe Real, em Lisboa;
  • Aligningung, a instalação de William Forsythe, que ruma ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, ao Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, e ao Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, em Braga;
  • Um concerto de Caterina Berbieri nas Carpintarias de São Lázaro;
  • Um filme de Milo Rau, Congo Tribunal, e outro do coletivo The Otolith Group;
  • A vídeo-instalação de Meg Stuart no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, The Only Possible City, e a de Ryan Trecartin, Temple Time, no Museu Nacional Arte Contemporânea do Chiado;
  • O espetáculo de Ola Maciejewska na Sala Garrett do D. Maria II;
  • O concerto Piano Interpretations, um tributo a Julius Eastman pelo Kukuruz Quartet;
  • A vídeo-instalação O Peixe, de Jonathas de Andrade, na Fonte do Ídolo, em Braga, e na Cisterna da Faculdade de Belas Artes;

John Romão a partilhar a programação da BoCA 2019

A BoCA surgiu em 2017 e contou com a participação de 59 artistas nacionais e internacionais, 22 instituições culturais e 52 atividades. Passou por Lisboa e pelo Porto, mas também levou atividades a Castelo Branco, Viseu, Braga, Évora, Loulé, Montemor-o-Novo, Paris, Bruxelas, Hamburgo, Lausanne, Valência, Santiago do Chile e Buenos Aires.

A programação completa de 2019, com informação detalhada sobre os espetáculos, vai estar disponível no site da BoCA no dia 22 de fevereiro. Podes saber mais sobre a Biennial of Contemporary Arts, aqui.

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Texto de Carolina Franco
Ilustrações de Afonso Martins
O Gerador é media partner da BoCA

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