Definição: “Macaco vê, macaco faz” é um ditado no estilo pidgin que surgiu na cultura americana no início dos anos 20 do século passado. O ditado refere-se à aprendizagem de um processo sem a sua compreensão. Outra definição implica o acto de imitação, geralmente com conhecimento limitado e/ou preocupação com as consequências.

O ditado pode ser originário de uma história do folclore do Mali, África Ocidental, que ficou bem conhecida pela replicação de Esphyr Slobodkina, a que chamou  Caps for Sale (Um conto de mascate, alguns macacos e seus macacos).

Este conto popular é também replicado por Baba Wagué Diakité no livro editado em 1999, intitulado The Hatseller and the Monkeys, ambientado no Mali. Diakité observa que versões desse conto também existem no Egipto, Sudão, Índia e Inglaterra.*

*Adaptado da Wikipédia que tem um português manhoso ou vem apenas em brasileiro)

Muitos de nós vivemos na época Monkey See, Monkey Do desde que nascemos e não conhecemos outra forma de vida.

Não tenho nome para esta Geração. Se é X, Y, Z, Millenium, Alpha, Baby Boom ou Pandemia, não me interessa em particular. Embrulho-os juntos na que chamo Gerações Monkey See, Monkey Do.

Desde há muito, mesmo muito tempo para vida de humanos, que estamos a ser treinados e embalados por quem tem o poder e o dinheiro para exercer este feitiço poderoso da domesticação das massas.

Feito isto, podem descansar, como quem o fez ao Sétimo Dia, porque todos se irão submeter de livre e espontânea vontade a este modo de vida. E se assim o fizerem, com sucesso, não terão sofrimento psicológico pois as suas emoções serão apagadas (ou antes, compensadas) através de coisas mais simples que os canais TV se encarregarão de passar, meticulosamente, e as redes sociais se encarregarão de tornar viral, por um tempo também ele efémero, tudo reforçado com opinadores e/ou comentadores “informados”.

Neste empenhado reboliço, as pessoas (em geral) nem procuram respirar ou olhar para cima.

No seu modo de vida Monkey See, Monkey Do, basta imitar, replicar, zangar, guinchar ou exibir valores consumistas para os quais trabalham sem gosto, e o que “é suposto fazer”, está feito.

O resultado destas gerações assim formatadas está à vista. Replicar acções, pensamentos, ideias e pseudo-ideiais sem se perguntar porquê, sem identificação, sem, enfim, razão real, traz uma vida de distânciamento espiritual, racional e emocional.  Numa frase, já ninguém se conhece, já ninguém sabe de si próprio.

Este trabalho de manipulação consciente está a ser feito de forma pensada, estruturada e organizada por quem manda efectivamente no mundo – até agora, altura em que o Mundo está a começar a mostrar quem é que realmente lhe manda. Mas, em vivência Monkey See, Monkey Do por tanto tempo, a resposta das sociedades é ainda alegremente inexistente.

(não falo das excepções, basta dizer que são os que passam a vida a ser gozados, criticados, violentados, etc. Quem está a ler este artigo, sabe quem são).

Monkey See, Monkey Do é um estado quase catatónico, maravilhoso, autómato.

Pessoas reactivas com emoções à flor da pele num estado quase irracional, mas dando-se ares de “Mestrado- para-Cima”, com valores de referência básicos que copiam e repetem à exaustão. Estão sempre à procura de sinais e modos de identificação permanentes: “se não és por mim és contra mim, porque não te ouço, apenas replico, duplico, obedeço”. O vazio espiritual instalado é ignorado. O vazio emocional em modo de substituição e compensação é, agora, o modo de vida.

Se no campo dos negócios a expressão ‘Monkey Business’ é usada para descrever truques desonestos, sabemos que na Psicologia, há cerca de 20 anos, uma equipa de cientistas (liderada por Giacomo Rizzolatti da Universidade de Parma) descobriu células cerebrais especiais – chamadas neurónios-espelho – em macacos.

Ora, estas células pareciam ser activadas quando o macaco fazia alguma coisa e quando simplesmente observava outro macaco a fazer a mesma coisa.

A função desses neurónios-espelho em humanos tornou-se num hot topic.  Num texto publicado na Perspectives on Psychological Science, uma equipa de pesquisadores de renome debateu se o sistema dos neurónios-espelho estaria envolvido em processos tão diversos como a compreensão da fala, a compreensão do significado das acções de outras pessoas e a compreensão das mentes de outras pessoas.

Uma das funções mais poderosas sugeridas para este sistema de neurónios-espelho em humanos é compreender, não apenas as acções físicas ou a fala de outras pessoas, mas também mentes e intenções.

Este artigo tem um resumo brilhante e apresenta algumas das perguntas mais difíceis feitas sobre estes neurónios até hoje.

As respostas a todas estas perguntas dadas por centenas de pesquisadores, esclarecem os limites da função dos neurónios-espelho em humanos. Servem para Compreender o Discurso, compreender as Acções e compreender as Mentes.

Provada a existência e função, resta-nos regressar ao início do texto e reflectir como está, de facto, está a ser aplicada. A função foi alterada e manipulada (a psicologia para a manipulação é um tema relativamente simples), e em grande parte do Mundo Monkey See, Monkey Do é modo de vida para gáudio dos manipuladores das marionetas, esses estranhos bonecos em que nos transformaram.

Às excepções, ergamos as nossas taças!

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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