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Morcegos há muitos. Senhor dos morcegos só há um

Ilustração de André Carrilho

No dia 26 de maio de 1897 foi publicada a primeira edição de “Drácula”, do escritor irlandês Bram diminutivo de Abraham) Stoker. Desde então esta incursão pelo fantástico revelou-se a história de terror mais famosa do mundo, uma das mais adaptadas para o cinema e tem sido inspiração para milhares de outras autoras e autores.

Por isso, o dia 26 de maio passou a ser o Dia Mundial do Drácula. Haverá coisas piores (mas não me lembro assim de repente).

Nas minhas andanças profissionais fui algumas vezes à Roménia, embora sem ter tempo de deambular pela Transilvânia, que ainda é um bocado afastada de Bucareste. 380 km por estrada, cerca de quatro horas de comboio.

Como veem ainda me informei da coisa…

A minha colega Cristina Popescu sabia desta minha “devoção” por morcegos - não no prato, ânsia que curei para sempre nas Seychelles, como passarei a explicar, mas sim na literatura e nos filmes, desde os velhos clássicos da Hammer com os enormes Christopher Lee e Peter Cushing, até ao sempre interessante Count Duckula da Cosgrove Hall (o pato vampiro mais extravagante do mundo) - e para mais estava a Cristina igualmente mortinha para se vingar de uma partida que lhe preguei em Lisboa.

Mas sem mais derivas falo primeiro da experiência culinária que meteu morcegos.

Nas Seychelles os morcegos frugívoros que se utilizam culinariamente chamam-se “roussettes”. E podem ser apresentados em estufados lentos ou em caril.

O sabor lembra o dos nossos pombos, mas a carne é mais seca e escura pelo que os molhos acabam por ser importantes.

Mais uma vez ia preparado para a descoberta e dali saí tosquiado. Ou seja, não encontrei no paladar, na apresentação, no bouquet do prato, variáveis que pudessem suscitar uma experiência gastronómica deslumbrante. Come-se, sem mais adjetivos que se possam utilizar para valorizar.

E perante um caril de camarão ou de caranguejo dos coqueiros quem escolheria um caril de morcego?

Morcegos, para mim, só os vampiros cinéfilos que mordem o pescoço das senhoras bem-apessoadas e, no caso vertente, talvez igualmente bem apaladadas. Mas divago.

Como dizia, a Cristina ainda se lembrava do épico pifo que eu lhe tinha pregado em Lisboa, com uma garrafa vintage de Fonseca Guimaraens de 1967, que tinha levado de casa para o hotel oficial da conferência onde estávamos.

E decidiu vingar-se à moda do Drácula. Mas do personagem histórico Vlad Tepes, que viveu entre 1431 e 1476 com o sugestivo cognome de "O Impalador”.

Para os romenos esta é uma personagem estimável a vários níveis, um herói nacional na grande luta que os libertou do jugo do opressor otomano, e sobretudo uma fonte apreciável de receitas turísticas nos dias de hoje.

Se pusermos de lado a tal mania de espetar as pessoas nos palitos (teria que se investigar se não haveria aqui algum problema mal resolvido de infância, escatológico ou mesmo outro) este Vlad possuía carisma pessoal que bastasse.

Com o nome dele existem circuitos turísticos completos, hotéis, restaurantes, bebidas (cor a dar para o vermelho), e até alguns castelos - teria mais do que um, o que nos leva à famosa história da "espada atribuída a D. Afonso de Albuquerque" a qual contarei aqui um dia.

Lá fui com a minha colega a um restaurante de Bucareste com o sugestivo nome de “O Castelo de Drácula”, onde só se comia carne, na grande maioria sob a forma de espetadas. O ambiente era escuro que se fartava, a malta que servia à mesa andava vestida a rigor, elas mais despidas do que vestidas se bem me recordo, mas a partir de determinada altura já esta memória se torna “difusa”..

E a vianda era sempre acompanhada por uma terrível bebida avermelhada, “Sangue de Drácula”, a qual aparentemente nos transformaria em vampiros quando (e se) chegássemos ao hotel.

Vampiro não fiquei (que eu saiba) mas lá que apanhei uma tremelga de cair do caixão à cova, disso podem ter a certeza. A tal bebida do sangue do dito cujo não era mais do que a infame Palinka, um destilado de ameixas a que devem ter acrescentado algum corante culinário para ficar daquela cor vermelha.

 E bate forte que se farta. Imaginem acompanhar uma refeição aqui em Portugal com aguardente de medronho do princípio até ao fim…

Muito bem: Cristina 1, “Moi” 1; vai o jogo para prolongamento. Pensei eu na altura, mas a desforra ainda não se concretizou.

Somos novos.

E a vingança é um prato que se come frio. Lá para a Transilvânia faz frio de bater dentes com certeza.

Nota: quem se interessa por este universo de faz de conta deve ler um romance sobre o Conde Vlad Tepes na sua personificação de Drácula, extremamente bem atualizado. Um belíssimo livro que recomendo sem reservas: "The Historian" por Elizabeth Kostova.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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