Há um fosso gigantesco entre o que se pensa e o que vive. Não sei até que ponto este fosso existe para todos, mas para mim sempre foi uma constante.

Desde cedo tive grandes tendências para dramatismos intelectuais de cariz cinematográfico, que, não raras vezes, estavam em profunda dissonância com a vida real. Talvez porque sentia que a minha realidade não me chegava. O interior sabia a pouco, especialmente após ter estudado na capital.

Quando, em 2019, virei as costas a um ambiente de trabalho abusivo e tóxico, sabia que estava a deitar por terra uma oportunidade de me radicar em Lisboa, na área em que era suposto eu ser feliz. Regressar ao interior e à minha vila de nome estranho — Unhais da Serra, Covilhã, há que referir esta informação — foi a única forma de escapar à bancarrota provável, que inevitavelmente se seguiria à falta de emprego e abundância de despesas.

Devo dizer que não tinha grandes expectativas. Voltar tinha sabor de retrocesso e, mesmo tendo metade de mim no lugar onde nasci, sentia que só ia poder ver as minhas ambições através de binóculos.

Apesar de tudo fui agradavelmente surpreendida: integrar a redação de um jornal local foi um acontecimento inesperado que se revelou transformador. Naquela altura, apaixonei-me pelo jornalismo e pelo sentido de responsabilidade cívica que representa. Isso mudou as minhas perspectivas e, sobretudo, mudou-me. Percebi o que queria fazer, mas não necessariamente o local onde queria estar.

Para que fique claro, é aqui que entra a história do fosso imaginação/realidade. Todos os dias fazia 120km de carro numa estrada nacional estreita e esburacada, que me dava muito tempo para pensar. Tempo de mais, talvez.

Crescia em mim uma vontade imensa de ser maior e melhor, que não correspondia às possibilidades que me rodeavam. Mesmo sendo feliz naquela pequena redação, sentia-me frustrada pela falta de horizonte. Vivia presa a um futuro que sentia não existir nunca.

Neste aspeto a pandemia foi, para mim, uma coisa boa. Estar confinada – e, mais uma vez, desempregada — fez-me “mudar o chip”. Sem terra à vista, limitei-me a navegar, já que não havia muito mais a fazer. O tempo parou, por isso não estava a perder nada em lugar algum do mundo. Foi agradável, há que dizê-lo.

Quando a vida migrou para o digital percebi que talvez a distância possa ser uma mera perceção. Após tantos trambolhões, acabei por aterrar nesta coisa maravilhosa que é o Gerador, muito pelas oportunidades que o inevitável teletrabalho acabou por criar.

É óbvio que há lugares onde o tempo corre diferente - de tal forma que até a Internet se deixa afetar - mas quando existem meios e condições para voar mais alto atrás de um ecrã, porque não fazê-lo?

Políticas públicas e apoios governamentais não mudam o interior por si só. No mundo digital, o que tem de mudar é o “nosso chip”.


P.S. – Obrigada Gerador :)

-Sobre Sofia Craveiro-

Espírito esquizofrénico e indeciso que já deu a volta ao mundo sem sair do quarto. Estudou Ciências da Comunicação nesse lugar longínquo é a Beira Interior, e fez o mestrado em Branding e Design Moda, no IADE/UBI, entre Lisboa e a Covilhã. Viveu tempos convicta a trabalhar na área da Moda até perceber que não tinha jeito nenhum. Apaixonou-se pelo jornalismo ao integrar um jornal local teimoso e insistente que a fez perceber o quanto a informação fidedigna é importante para a vida democrática. Desde essa altura descobriu também que aprecia ser In.so.len.te e que gosta de fazer perguntas para as quais não tem resposta. Encontrou o seu caminho nesta casa chamada Gerador, onde se compromete a suar a alma em cada linha escrita.

Texto de Sofia Craveiro
Fotografia da cortesia de Sofia Craveiro
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