Durante dois dias, serão 16 os concertos que irão compor a primeira edição do MUPA – Música na Planície, festival que decorre em Beja, a 10 e 11 de maio. O novo festival, que nasce de um “esforço coletivo” entre a Associação CulturMais e a Câmara Municipal de Beja, tem o objetivo de integrar “um amplo universo musical no centro histórico da cidade alentejana”.

Em entrevista recente ao Gerador, Vitor Domingos, diretor artístico do festival, realçou que o MUPA pretende afirmar-se como “mais um ponto de passagem na rota dos festivais do nosso país, e dar uma oportunidade ao público para explorar a nossa cidade”.

No cartaz desta primeira edição constam nomes que vão do hip hop, ao jazz, passando pelo punk. No primeiro dia do festival, esta sexta-feira, dia 10, estão programadas as atuações de Mynda Guevara, Putas Bêbadas, Systemik Violence e Simply Rockers Sound System. Já no sábado, dia 11, Caroline Lethô, Lena D’Água & Tahina Rahary, Bloom (JP Simões & Miguel Nicolau), Rodrigo Amado Motion Trio, Unitedstatesof, Pedrinho e um concerto surpresa alinham-se ao lado de Nazar, Allen Halloween e 10 000 Russos.

Os passes gerais para o MUPA encontram-se à venda por 13 euros. O bilhete diário para 10 de maio custa 6 euros, enquanto a entrada para sábado vale 10.

Quem são?
10000 Russos:
este trio de “Russos” nasceu no Porto há um par de anos. Se há quem desenhe retratos sonóricos introspetivos que cheguem a roçar no belo e no minimal, estes (agora) três membros fazem das tripas coração e entregam, de todas as vezes, uma confissão obscura, densa e repetitiva de um subconsciente coletivo, baralhando-nos as linhas entre o post-punk, o noise e o industrial. Apresentarão o recém-lançado “Distress Distress”.

Allen Halloween: treze anos depois do seu primeiro disco, “Projeto Mary Witch”, Halloween carrega nas costas o apogeu do hip-hop português, convertendo qualquer público às suas palavras como se de um pregador se tratasse. Dificilmente encontraremos um artista que exponha os seus demónios tão agilmente e, arriscamos dizer, de forma tão estrondosa quanto ele.

Bloom (JP Simões & Miguel Nicolau): se já lhe sabíamos a voz, as cruzes e as manias de cor, eis que surge agora um lado de JP Simões que não suspeitávamos que residisse dentro dele. Em inglês porque a língua materna e a persona já o fartavam, Bloom nasceu por entre a desfaçatez do repetitivo e a cidade de Buenos Aires, com umas paragens necessárias aqui e ali, mas sem grande ânsia de ganhar raízes em alguma. “Tremble Like a Flower” desbrota facilmente em qualquer ouvido e alma – JP Simões não dá grande azo à melancolia ou às suas formas. Em vez disso, apresenta-nos um disco agridoce banhado em blues, em bossa nova, desamores e memórias. A ele junta-se o guitarrista Miguel Nicolau dos Memória de Peixe.

Caroline Lethô: é dentro de uma cena eletrónica cada vez mais fértil que surge o nome de Caroline Lethô, um que foi ecoando por todos os clubs, salas e festivais durante os últimos anos. O espírito de Lethô é um que se recusa a pedir licença – ela consegue guiar-nos através da pista de dança com a audácia e a intuição de quem já a sabe de cor há décadas, numa combinação perfeita entre géneros e os seus irmãos: vai do deep house ao acid, mistura disco com rock, algum EBM e Garage e mostra-nos algum do techno mais marcante que se faz pela Europa fora. Sabendo os acts aos quais está associada, pintamos uma imagem (mais) completa: já lançou pela Labareda (Sonja), está associada à Extended Records e fala-nos ao ouvido no programa String Theory, residente na Rádio Quântica.

João Melgueira: as suas raízes poderão estar em Beja, mas a identidade como disc-jockey encontra-se espalhada um pouco por todo o lado. Líder da prolífica label Alienação, o nome de João Melgueira tem vindo a afirmar-se como um crescendo na cultura do clubbing português e em especial nos lisboetas Damas e Lounge. Num prato que junta tragos e sabores de todo o mundo – desde a world music, ao disco, ao techno e ao acid house – João Melgueira consegue ser o mote ideal para fechar qualquer noite da qual faça parte, seja ela onde for.

Lena D’água & Tahina Rahary: Lena d’Água é um nome conhecido no panorama musical português, cuja voz incontornável fixou no tempo algumas canções que permanecem populares até aos dias de hoje. Viveu o rock dos anos 70 ao lado dos Beatnicks, praticou a arte da pop com os Salada de Fruta e a Banda Atlântida, até se reinventar a solo e em nome próprio. Se em 2017 se apresenta com Primeira Dama e a Banda Xita em concertos especiais pelo país, no MUPA junta-se ao guitarrista malgaxe Tahina Rahary, com quem já havia partilhado palcos em 87.

Mynda Guevara: não haverá voz tão presente, imediata ou necessária como a de Mynda Guevara, a mais recente força da natureza que se apoderou do rap crioulo. Beto di Ghetto, Chullage, IAMDDB, Lauryn Hill e o sítio onde nasceu e cresceu, a Cova da Moura, foram as influências necessárias para que se tornasse a espantosa e combativa voz que é hoje. 2018 trouxe “Mudjer na Rap” (2018), um EP que se assemelha a um manifesto de girl power autobiográfico, onde coexiste um caleidoscópio de rimas, ritmos e uma audácia inigualável.

Nazar: resiliência é a palavra de ordem, aqui. Ainda que se mostre, por vezes, difícil de engolir, a sonoridade de Nazar é um paradoxo entre o comovente e o estrondoso, ao que ele próprio apelida de “rough kuduro”. Beats de kuduro, ondas de noise e synths cruas e agressivas são o backdrop para um testemunho de uma guerra civil passada que desmoronou tanto o seu país de origem, Angola, como a moral de gerações inteiras. “Enclave” é o seu EP de apresentação ao Mundo e também ao MUPA, a 10 e 11 de maio.

Necro Deathmort: há já alguns anos se estuda a galáxia bizarra onde existem os Necro Deathmort, a mesma onde habitam nomes como os britânicos Gnod ou Teeth of the Sea. É uma onde o experimental é o modus operandi, com idiossincrasias, twists e sequências de riffs que confirmam o status suis generis destes mesmos acts. O duo Necro Deathmort, que pratica tanto eletro-doom, como industrial e chega, por vezes, aos picos do dark ambient, fez da escuridão a sua casa, uma onde conseguimos respirar toda a exploração sónica sombria à qual já nos habituaram, ainda que de forma errática, ao longo dos anos. O “Vol.4”, o último trabalho editado pela banda inglesa, não foge à norma: esquivo, complexo e digno de toda a nossa atenção e escrutínio.

Norberto Lobo: já não será suficiente associar Norberto Lobo ao seu instrumento de eleição, ainda que os dois sejam indissociáveis. É, ele, um colecionador de melodias em galáxias não muito distantes de nós, todas as quais contarão, de certeza, uma história feita de seis cordas, pedais de loops ou cantares balbuciados por entre dedilhados. Depois de Fornalha (2014) e Muxama (2016), vimos uma evolução desmedida em Norberto Lobo, desta vez em colaboração com outros músicos (como em “Estrela” (2018) e em Montanhas Azuis, ao lado de Bruno Pernadas e Marco Franco). Se alguma vez existiu um equivalente humano a converter água em vinho, não admiraria se todos os dedos fossem apontados na direção de Norberto Lobo. Falta-nos saber, ainda, o que vem a seguir ao vinho.

Pedrinho: Pedrinho é funaná, Pedrinho é Mar & Sol, Pedrinho é a lufada de ar fresco que qualquer par de pés e coração exigem. Parte da primeira geração de imigrantes que se viu a respirar os ares de Lisboa, o cabo-verdiano foi redescoberto recentemente pelos colecionadores mais ávidos de ritmos, tendo sido o seu LP, “Aleluia”, re-editado há pouco pela Mar & Sol Records, mais de 30 anos após ser gravado. Volta a dar-nos motivos para o ouvir em 2019, apresentando-se a solo e com recurso aos teclados, dando-nos, para não variar e desde sempre, milhares de razões para dançarmos como se o amanhã não chegasse.

Putas Bêbadas: não há nada de demasiado complexo em relação aos Putas Bêbadas, ainda que se possa dizer que o registo deles dê pano para mangas. É na linha esborratada entre o noise rock e o hardcore que os Putas Bêbadas vão encontrando um habitat semi-natural, feito de desacatos de riffs, distorção e de um ritmo que nos foge pelas mãos por muito que o tentemos apanhar. As crónicas ora desoladas ora tolas da banda assinada pela Cafetra têm o backdrop perfeito para não serem levadas demasiado a sério: fúria sónica que nos apanha a todos a mais de trezentos quilómetros por hora. Apresentam-se no MUPA com “Orgulho de Ex-Buds” na manga, mais um disco que facilmente se tornou querido da crítica. Não nos admira.

Rodrigo Amado Motion Trio: personificando cada vez mais a linha ténue entre o free jazz e a experimentação, Rodrigo Amado é já o porta-estandarte não só do jazz, mas também da música portuguesa contemporânea, tendo estado ao lado de nomes como Sei Miguel, João Peste e Vitor Rua nos seus demais projetos progressistas. Em Motion Trio, juntam-se ao saxofone de Rodrigo Amado Miguel Mira no contrabaixo e Gabriel Ferrandini na bateria, uma tríade de sinergias que poderia ser pouco mais do que uma demonstração de toda a proficiência técnica dos três virtuosos, mas é uma que se faz de energia, genuidade polirrítmica (graças a Ferradini) e de química entre os diversos intervenientes, sejam eles do trio ou convidados de importância monstruosa como Jeb Bishop e Peter Evans.

Simply Rockers Sound System: fazem-se poucos como os Simply Rockers Sound System. Movidos pela reverência ao reggae e a toda a sua diáspora como o reggae roots e o Dub, os Simply Rockers Sound System são, inevitavelmente, a alma de qualquer acontecimento, seja a solo ou fazendo-se acompanhar de outros acts que representam contextos igualmente importantes na cultura do clubbing. Com os Simply Rockers quer-se festa, amor e um chill que mais nenhuma outra vaga consegue igualar. Sentem-se e sintam o reggae, a alguns decibéis acima do recomendado.

Systemik Viølence: o punk já não é o que era. Sujo, cru e sem qualquer pudor, é assim que os lisboetas Systemik Violence o praticam, de preferência com algum confronto à mistura (ou não teriam eles um EP chamado de “Anarquia-violência”). Não há grande segredo quanto ao que os Systemik Violence fazem e querem fazer: não regressar ao hardcore punk que ainda usam como referência (tais como os G.I.S.M. e os suecos Anti-Cimex), mas reinventá-lo e despi-lo de todas as merdas que lhe possam retirar valor e autenticidade. Só assim chegaremos à liberdade total, através da urgência de querer fazer (e bem) e de uma baixaria novinha em folha, pronta para mandar tudo e todos para aquele sítio.

unitedstatesof: é em contornos inacabados e pinceladas desmazeladas que as composições de unitedstatesof vão surgindo. Conseguem ser tanto um retrato da passagem do tempo como um gatilho que nos leva diretamente à introspeção e à exploração, ocupando todos os espaços em volta num movimento ininterrupto e envolvente. João Rochinha traz até nós o que tem feito nos últimos anos enquanto unitedstatesof e com a ajuda da Rotten\Fresh.

Cartaz final do MUPA – Música na Planície

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de David Rangel via Unsplash

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