Atravessar a língua no século XXI e procurar pelo que está para além dela, através do espaço não-espaço de um novo tempo, que tem a potencialidade de o abrir, ver as grafias das geografias, pode ser o movimento de quem entra no Museu Virtual da Lusofonia.

Fundado em 2017, este projecto do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), da Universidade do Minho, sob direcção de Moisés de Lemos Martins, apresenta-se como uma plataforma que visa “interrogar o conceito de lusofonia na interseção de olhares, não se limitando a reunir uma equipa multidisciplinar de cientistas sociais, mas procurando também envolver elementos dos setores cultural e artístico e da sociedade civil na reflexão e na discussão crítica sobre as relações interculturais nos países de língua portuguesa,” lê-se no Museu. A expressão, para o conhecimento e reconhecimento, tem lugar em diversos formatos.

Poderemos visitar 45 exposições virtuais multimídia, observar 256 obras de arte e 112 fotografias, escutar 98 programas de rádio e assistir a 19 filmes e dois documentários, que nos aproximam dos países lusófonos, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, bem como das regiões da Galiza (Espanha) e Macau (China).

O problema da Lusofonia

Apesar de se tratar de um debate contemporâneo, a Lusofonia chama um silêncio secular carregado de feridas. É um termo de desencontros, uma noção “espartilhada entre uma nostalgia lusocêntrica, que teima em sonhar impérios, e uma crítica pós-colonial, que procura plataformas de entendimento no presente e para o futuro, a lusofonia parece prestar-se, por um lado, a equívocos e a simplificações, bem como, por outro lado, a formulações promotoras do diálogo intercultural.” Reconhecendo as perspectivas não consensuais, mesmo polémicas, o Museu clarifica a sua orientação: “A desconstrução de equívocos a propósito da lusofonia só pode realizar-se pela assunção da pluralidade e da diferença e pelo conhecimento aprofundado de uns e de outros. Pretende-se olhar o conceito de lusofonia como figura complexa, sem centro e com sentidos múltiplos, que se interpelam, uma comunidade multi, inter e transcultural.”

Como se trabalha, à escala mundial, a partir de um conceito com estas debilidades, que se sustenta na partilha da língua portuguesa, para promover uma relação pacífica e geradora de saúde, entre quem a faz viver, quando a origem desta não se encontra aí, pois fora uma imposição, amarrada a contextos que a distanciam ainda mais deste horizonte? Com este passado presente, o investigador Fernando Lopes, membro da equipa da Universidade do Minho, que integra este mapa interactivo, defende a necessidade do seu reconhecimento, mas também da sua superação. “Houve um vício de origem e nós não somos culpados por isso. Nós estamos aqui prontos para passarmos a soluções e propondo a planificação e a organização, do ponto de vista social, principalmente quando se pensa em sociedade numa relação pacífica. Não somos herdeiros nem herdamos um passado colonial. Não somos oprimidos e opressores. Nós vivemos uma realidade pós-colonial e é necessário superar esses preconceitos, mas sem nega-los, sem negar que isso existiu e enxergar o passado como algo a ser superado para que continue de forma mais plena.”

Tendo em conta discordância que torna este tema instável e móvel, o investigador, a partir da proposta da escritora são-tomense, Olinda Beja, fala da Lusofonia com a imagem de “uma ave migratória, que deixa frutos e que deixa filhos, que deixa criações por onde passa.”

Em cima do mapa?

A questão lusófona tem vindo a tornar-se uma preocupação. Fernando Lopes identifica o período final dos anos 90 como a primeira vaga da problematização da Lusofonia, com a consolidação da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, fundada em 1996. Situa a segunda vaga a partir do final de 2018, em Portugal. Mas, repara numa “esfriada, após 2012, com essa guinada à direita na política, principalmente no Brasil e nalguns países africanos.” O investigador aponta a importância, para esta emergência, das tecnologias e das redes que estabelecem, assim como do actual contexto socio-político mundial de “polarização”, que também se verifica em países lusófonos. A pandemia veio impulsionar a procura de conteúdos e materiais online, em língua materna, devido ao facto de ter provocado uma deslocação da relação com o mundo e com os outros/as para os ecrãs. É neste sentido que coloca o Museu como o “reflexo dessa exponenciação”.

Apesar disso, há uma assimetria entre Portugal e os outros países lusófonos no que toca à atenção sobre este tema. Evocando as suas pesquisas sobre a circulação deste termo no Brasil revela que “entre oitenta e noventa por cento da população brasileira não sabe sequer o que é. Não é um assunto que é discutido, um assunto que é debatido” e que, nos últimos dez anos, foi usado, na Rede Globo, em horário nobre, cerca de quatro vezes, todas referentes ao lançamento da CPLP. “Esse assunto não está na mídia brasileira. Aqui, no núcleo de estudos do Museu, temos até um número menor de brasileiros e é um assunto que sempre comentamos. Se discute o conceito de lusofonia, practicamente, só em Portugal. Isso não faz parte do imaginário brasileiro.” Ao contrário de Portugal, onde verifica que esta problemática ultrapassou a discussão académica, nos outros países restringe-se a este nicho.

No lugar da “lusofonia” está o silêncio, o que não significa que não haja um exercício de memória em relação ao lugar da língua. Porém, há uma forte distinção no que diz respeito às narrativas das diferentes geografias. Fernando Lopes atenta na particularidade do Brasil: “No caso do Brasil não existe essa relação colonial pesada, carregada, como existe com os países africanos, que se tornaram livres a partir da Revolução dos Cravos. A história do Brasil se confunde com a história de Portugal, nesse sentido. Não existe um momento de ruptura, apesar de alguns signos culturais brasileiros a tratarem como o 7 de Setembro, com o grito da independência, houve uma continuidade com a ida da família real para Brasil e o próprio facto do filho do rei de Portugal aí ficar. Pouca gente sabe que o primeiro imperador do Brasil não foi D. Pedro I, que aí era IV. Documentalmente, foi D. João VI. O revisionismo histórico dos últimos cinquenta anos tende a tratar esse processo como uma oportunidade. Então, não se olha para o passado colonial através da figura do português opressor. Isto não foi consolidado. Claro que a importância de se discutir questões coloniais é inegável. O que explica a sociedade brasileira atual é a escravidão,” ressalva. Porém, o caso das ex-colónias africanas é diferente, devido ao regime ditatorial português e às sangrentas guerras de independência, o que gera “um sentimento neocolonial muito grande. Nas relações novas entre Portugal e estes países ainda se percebe a figura do colonizador que volta. Aí, sim, o debate pós-colonial está muito presente e os países africanos olham muito para o passado e têm essa visão muito clara. A própria ideia de ter a língua portuguesa como troféu de guerra, está muito ligada a essa questão. A língua é utilizada como aquele troféu para dizer que o passado está aqui, o passado existe, não vamos esquecê-lo.”

Contudo, esta posição não é visível na decisão da permanência da língua portuguesa como a oficial, o que cria, de certa forma, uma desvinculação com as diversas comunidades. O poder político “produz uma certa padronização linguística, que não é reflexo do que a são as sociedades africanas, principalmente pós-independência. Nesse sentido é uma ferida em relação à cultura local. A língua é um processo. Costumo dizer que a língua é um signo primitivo. O primeiro signo, para a semiologia, se manifesta de forma primordial através da língua. Isto não está ligado a uma relação política de poder que irá determinar a língua A B ou C. Isto é um processo semiológico natural do ser humano.” Para o investigador, o estabelecimento de uma estrutura bilinguística seria uma opção adequada. Também no que toca a este ponto, repara na diferença entre o Brasil e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. No primeiro, sessenta por cento dos vocábulos das línguas locais foram incorporados na língua oficial, o que é um sintoma da relação “amistosa”, contrariamente ao que se verifica nos segundos. “Qual a expressão do crioulo que usamos em português? Essa é uma grande verdade. Não temos. Então, além dessas línguas estarem enterradas e serem subjugadas, neste processo, ainda existe essa negação de absorção de parte dessas línguas no falar oficial. Porque se aceita isso num país como Brasil e não se pode aceitar em países africanos?”

Este contraste estende-se à arte. É com regularidade que vamos encontrando expressões artísticas de autores brasileiros e autoras brasileiras no nosso quotidiano. Quando há um evento de fruição artística em torno destes últimos, apesar da existência de uma forte comunidade brasileira em Portugal, Fernando Lopes conclui que é maior o número de portuguesas e portugueses que aderem. Por sua vez, os artistas africanos e as artistas africanas estão à margem dos circuitos, neste país. Lopes, partilhando mais um estudo, chama a atenção para a travessia da música oriunda dos PALOP. “Os ritmos africanos chegam Portugal através do Brasil, não de África. Por exemplo o atabaque, a timbalada, que originalmente são africanos, são consumidos, de um ponto de vista simbólico, em Portugal, quando um brasileiro bota na sua música e traz para cá.”

Apesar da academia surgir como o meio onde este debate tem lugar, não é por ele transformada. Os conteúdos programáticos continuam a ignorar os autores e autoras dos outros países lusófonos, aos quais só se chega autonomamente e por trilhos. Falar de lusofonia não significa ouvi-la. Há uma construção retórica incoerente com a construção efectiva. “Estamos ligados a um discurso que, na prática metodológica da academia, não encontra um lastro, pois falamos em construir lusofonia e lusofonias e estamos sempre a estudar os franceses, a escola alemã e a americana. Existe essa dicotomia entre a práxis e a metodologia, aplicada à construção do conhecimento.”

Para além da academia portuguesa não chamar o trabalho de autores e autoras dos outos países lusófonos, estes também não recorrem às suas próprias produções, verificando-se um domínio das preferências da primeira. “Posso olhar para a minha tese de doutoramento e ver de forma muito clara. De setenta a oitenta por cento dos autores são europeus das escolas tradicionais. Quando citamos portugueses estamos citando, novamente, nossos orientadores. A própria práctica de investigação dentro dos centros do Brasil e de Portugal cria essa dinâmica, ou seja, você não busca a produção e o conhecimento no que existe. Você vai pegar versões, normalmente traduzidas por académicos para português, para utilizar como referência, em detrimento de buscar as produções de conhecimento na sua própria língua. Enquanto não superarmos esta questão, a própria produção de conhecimento na língua portuguesa remeter-se-á sempre a um processo de simples traduções. Quem me dera poder pegar numa tese de doutoramento e ver que oitenta por cento dos autores que estão lá são portugueses, brasileiros e africanos, a escrever, produzir, conhecimentos em português. Essa realidade está muito longe.”

A falta de abertura desta estrutura é também visível no próprio corpo de investigação. “Este assunto, me parece muito interessante debater em teses, em artigos, mas, na prática, olhamos para dentro dos nossos centros de pesquisa, de investigação, e observamos o quanto de seccionamento existe. Não se chega a falar de abrir espaço para minorias, para a diversidade. É um processo que se forma sempre para brancos, de boa aparência, normalmente vindos de uma estrutura familiar estruturada e, a partir daí, o diferente passa a não poder ingressar. A geração mais nova, que agora chega às academias, tem de ter esse compromisso, de olhar para a diversidade e ver que esse tipo de estrutura não se sustenta e que vai contrariar o que está sendo produzido pelos centros de investigações ligados às ciências sociais.”

Abrir novas páginas para se ver melhor

Uma das propostas de resposta do Museu Virtual da Lusofonia passa precisamente por “transformar o português em língua de conhecimento, ou seja, construir conhecimento em português, construir literatura em português” e impulsionar a colaboração entre países.

Consciente da necessidade de “alinhar o discurso à prática, em relação à visão académica do processo de lusofonia”, o Museu aposta na tecnologia, através da qual é possível “superar essas migrações polémicas em relação ao conceito ‘lusofonia’ e aproximar as pessoas, do ponto de vista da produção”. A arte, aliada à tecnologia, constitui-se como via de “rompimento das fronteiras.” Obras distantes, neste espaço que se abre, tantas vezes, em casa de cada um(a), tornam-se próximas e chegam-lhe várias formas de falar, textos, fotografias, postais, pinturas, filmes, programas de rádio, músicas….

Esta também é a ideia que motivou a criação de um glossário, cujo período é compreendido entre o século XVI e XVIII, devido ao facto de, neste, se considerar o momento de consolidação da língua portuguesa. Todavia, Fernando Lopes não concorda com esta opção, porque “o que vai acontecer dentro da plataforma é uma coisa contemporânea. Tenho grande resistência em pensar a língua do passado, pois a língua sempre é contemporânea. Deve-se visitar a história da língua, o que foi escrito em momentos diferentes. Mas, pensar a língua, sem pensar o que é falar agora, está longe do nosso objectivo.”

Com o projecto Diversidade da Língua Portuguesa, que utiliza o Youtube como um espaço de diálogo, procura-se construir um glossário, através de um fórum de discussão, onde cada pessoa pode ir introduzindo termos, contribuindo, quando for o caso, com os das línguas locais, de modo a tornar presente a “fusão entre a língua da escola e a língua da aldeia.” Neste momento, o glossário é composto sobretudo por termos da língua portuguesa.

Com estas dinâmicas, “a questão do conceito de lusofonia é quase que colocada de lado, em prol espaço de colaboração. E quando os países passam a enxergar o Museu da Lusofonia como espaço de colaboração aberta a contributos, essa ideia pós-colonial, acaba sendo superada em prol do objeto de expressão artística, ou seja, pensa-se em produzir conteúdo artístico para aquele museu, para que esse conteúdo possa ser fruído em África, Portugal, na Ásia, em Timor e vá para Goa. A ideia é muito mais de cooperação produção e fruição artística.”

Esta participação aberta, começou pela academia e, neste momento, a equipa espera que surjam mais contributos espontâneos dos e das artistas e da sociedade civil, acreditando que a sua presença plataforma Google Arts & Culture, desde Setembro de 2020, será um forte impulso para esta horizontalidade. Uma vez mais, Fernando Lopes destaca o papel da tecnologia e do marketing digital na construção de um espaço mais justo, que se ultrapasse a si mesmo, chegando a novas formas de estar no mundo, por parte das instituições e dos cidadãos e cidadãs.

No que diz respeito ao acolhimento do material partilhado, procede-se a uma curadoria interna, cujo principal critério, para além da dimensão estética, reside na produção dentro da língua portuguesa. Neste momento, cerca de metade dos trabalhos partilhados foram propostos pelos autores, e os restantes resultaram de um processo de pesquisa e contacto, por parte da própria equipa do Museu, que procura, preferencialmente, artistas, cujo trabalho ainda não alcançou uma elevada projecção.

A intenção de trazer a lusofonia para as ruas, libertando-a da produção teórica da academia, também é visível no Museu na Escola, uma iniciativa que visa o “desenvolvimento de uma relação afetiva, regular e duradoura do MVL com os estudantes e as suas famílias, bem como com os professores”, a qual será proporcionada por um conjunto de iniciativas de divulgação mensal, junto das escolas, das coleções existentes no Museu. Procura-se, assim, discutir os significados destes materiais, de modo crítico, envolvendo os agentes educativos e os alunos neste debate. Esta iniciativa visa, ainda, colocar o Museu no centro do sistema educativo, procurando encontrar novos sentidos de intervenção social digital”, lê-se no Museu. Em 2019, o CECS começou este percurso, em Braga. No entanto, este foi interrompido e ainda não retomou. A equipa encontra-se numa fase de reformulação desta intervenção e conta, uma vez mais, com ferramentas tecnológicas, que evitarão a deslocação dos investigadores às escolas. Fernando Lopes crê que este investimento na educação é “a verdadeira semente de transformação”, que distingue o CECS, o qual procura que a academia seja socialmente comprometida.

Canções para abreviar distâncias” – “Os músicos Isabella Bretz, Rodrigo Lana e Matheus Félix apresentam o disco “Canções Para Abreviar Distâncias: uma viagem pela língua portuguesa”. O trabalho traz oito poemas musicados, cada um de um país falante do português, sendo todos de escritores vivos. São eles: Adélia Prado (Brasil), José Luís Peixoto (Portugal), Mia Couto, (Moçambique), Conceição Lima (São Tomé e Príncipe), Vera Duarte Pina (Cabo Verde), Odete Semedo (Guiné-Bissau) Ana Paula Tavares (Angola) e Crisódio T. Araújo (Timor-Leste).”

*Este artigo encontra-se ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Ilustração da cortesia do Museu Virtual da Lusofonia