Somos chamados a intervir quando o planeta expõe fraturas, os ecossistemas debilidades e as sociedades mostram desigualdades e descuram memórias essenciais à construção do seu futuro. Com passagem do vírus muito do que estava encoberto ou disfarçado ficou bem visível para todos. No momento que vivemos todos somos chamados a intervir, nenhuma entidade é supérflua porque o que está em causa é o reposicionamento da sustentabilidade do ambiente, o respeito pelos direitos humanos, dos animais e do planeta, ou o robustecimento das democracias.

Os museus, instituições ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, são parceiros ativos nos territórios, são lugares de diálogo que refletem sobre as culturas como elementos agregadores de diversidades, que expõem o passado e as memórias como testemunhos geradores de conhecimento crítico, que salvaguardam o património como fonte e inspiração, e que hoje, como nunca, fazem um esforço para se reposicionar de forma a contribuir para o restabelecimento do equilíbrio planetário, para a consciencialização humana sobre os impactos das suas escolhas e das suas ações, para obem-estar das comunidades, projetando desta forma a sua intervenção num futuro já presente.

A missão por vir

Em 2019, a definição dos museus[i]  foi alvo de amplo debate à escala mundial, assinalando a vontade de mudança que melhor identifique as responsabilidades da instituição museológica face às complexidades do século XXI.  

Longe de consenso, a definição proposta à discussão na Assembleia Geral do Conselho Internacional de Museus (ICOM), em Quioto[ii], “que tinha como objetivo oferecer uma perspetiva crítica sobre a atual definição e apresentar uma definição com abrangência internacional[iii], não é clara, nem concisa, nem abrangente. O teor da definição proposta aspira à expansão da vocação social dos museus e evoca valores como a igualdade, justiça e bem-estar, centrando-se na relevância das relações que os museus estabelecem com o meio, com os indivíduos e com a sociedade.

Defender os museus como espaços cívicos é uma forma de combater a centralização do discurso museológico especializado, e distante das realidades, ou, em torno de narrativas que se apropriam do património para criar visões discriminatórias, incompletas e no limite, demagógicas. A missão cívica do museu demonstra o valor insubstituível desta instituição permanente e sem fins lucrativos em políticas culturais que envolvam os cidadãos, bem como na constituição, preservação e estudo de coleções que respondam às necessidades das comunidades no presente e no futuro.

Ativismo Museal

Movidos por valores democráticos e por questões relacionadas com o ativismo social e político, é cada vez maior o número de museus que se revêm na vontade de ser(em) relevante(s) para todos. As alterações na retórica e na vocação da instituição denotam a necessidade de privilegiar o bem comum a caminho de um compromisso que já não é de neutralidade e que leva, nalguns casos, à tomada de uma posição ativista, à intervenção no debate público e à chamada de assuntos controversos para o seio dos museus, com vista à capacitação dos públicos para a compreensão sobres esses temas, a ação, a reconciliação e o diálogo.

Pensar fora dos museus

Trabalhar em prol da cidadania cultural é ainda assumir um compromisso de liderança colaborativa que promova a diversidade, a inclusão e a democracia cultural. É, a meu ver, nesta premissa de cidadania cultural, das pessoas para as pessoas, da instituição com as comunidades, que deve incidir a estratégia integrada para a sustentabilidade dos museus. Neste caso, pede-se especificamente que o seu planeamento estratégico seja feito em articulação direta com o território, com as organizações e os cidadãos, que usufruem dos serviços e colaboram na sua produção, e sentem seu o património a preservar e a transmitir. Para que esta perspetiva participativa e co construtiva singre é fundamental que as comunidades compreendam que têm um papel relevante na ativação do património, que o mobilizem na educação ao longo da vida e reconheçam a centralidade do legado que deixarão para as próximas gerações, e portanto, que assumam que a colaboração com o museu não é apenas uma liberdade e um direito, mas mais ainda, um dever.

Preparar uma mudança cultural centrada na função cívica dos museus implica agir em muitas frentes, requer a transformação de mentalidades e de práticas, a revisão de discursos, o reconhecimento de outras responsabilidades. É um ato partilhado, político, dos governos e dos cidadãos, um enorme desafio que reclama disponibilidade para o risco inerente à partilha de poder que envolve a participação e a cocriação do novo.

Igualmente complexo é o processo de mobilização das comunidades e dos indivíduos para assumir novas tarefas e responsabilidades nos processos de decisão. Um trabalho extenso, que começa pelo combate à exclusão e ao alheamento cultural, prossegue na emancipação dos públicos e na motivação para o exercício da cidadania e da democracia cultural.


NOTAS

[i] Segundo os estatutos do ICOM, aprovados pela 22ª Assembleia Geral, Viena, 24 de agosto de 2007: “o museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao publico, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite.”

[ii]  Pelo “Comité sobre a definição de museu, perspetivas e possibilidades” na Assembleia ICOM Quioto, 1 a 7 de setembro 2019.

[iii] “Os Museus são espaços democratizantes, inclusivos e polifónicos, orientados para o diálogo crítico sobre os passados e os futuros. Reconhecendo e lidando com os conflitos e desafios do presente, detêm, em nome da sociedade, a custódia de artefactos e espécimes, por ela preservam memórias diversas para as gerações futuras, garantindo a igualdade de direitos e de acesso ao património a todas as pessoas.
Os museus não têm fins lucrativos. São participativos e transparentes; trabalham em parceria ativa com e para comunidades diversas na recolha, conservação, investigação, interpretação, exposição e aprofundamento dos vários entendimentos do mundo, com o objetivo de contribuir para a dignidade humana e para a justiça social, a igualdade global e o bem-estar planetário.”

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho
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