Por vezes, parece que o pior já passou. Depois, parece que o pior ainda está para chegar. Uma vez que entrámos numa normalidade ainda muito anormal, tenho noção de que as coisas nunca mais voltarão a ser iguais.

Depois do desconfinamento fiz várias coisas, que me serviram de exemplo, como se fossem uma chapada para acordar para a vida. Coisas como ir jantar fora, ir a uma reunião ou mesmo a um centro comercial.

Entrar com máscara no restaurante, sentar-me, tirar a máscara, voltar a colocar para ir à casa de banho, tudo isto foi muito estranho, mas havemos de nos habituar a esta nova realidade, caso não apareça nenhuma vacina tão cedo (como se presume) e os picos de contágio não aumentem drasticamente, de modo a que nos mandem estar novamente confinados. E será que tínhamos vivido, até aqui, num mundo que, afinal, não seria o normal e ao qual não demos o devido valor, sendo este o verdadeiro “normal”? Dá que pensar.

Tenho falado com muitos artistas desde o início da pandemia, associada à doença Covid-19 e, de facto, o cenário não é nada bonito. Por vezes, pensamos na indústria da música e imaginamos, somente, os artistas. Esquecemo-nos de todas aquelas pessoas que são importantes para o funcionamento de um espetáculo, que, neste momento, estão sem trabalho, sem rendimentos, sem nada. O técnico de som ou de luzes, por exemplo, não tira rendimentos de plataformas como o YouTube ou Spotify, que sempre trazem algumas receitas todos os meses. O mesmo se aplica aos road managers, aos técnicos que montam os palcos ou simplesmente, o baterista de um artista de renome.

As grandes casas de entretenimento e os próprios festivais, repletos de pessoas, literalmente, umas em cima das outras, onde tocas na pessoa do lado sem saber quem é, será que algum dia vão voltar?! Eu quero acreditar que sim, gostava que assim fosse, que em breve vai aparecer, por fim, uma vacina e isto tudo irá voltar ao normal… Era bom, muito bom, mas, até lá, certamente, muito castelo vai ruir. O pós-Covid-19 vai ser uma altura muito complicada, pelo menos, e, o mais certo, é que todos vamos andar (correr) atrás do prejuízo.

A indústria da música é uma das que foram mais afetadas. Este ano ia ser um ano em grande, para muitos artistas e trabalhadores do meio. Eu, por exemplo, tinha vários projetos já agendados, há muito tempo, para o ano de 2020, que, como se diz na gíria, iam ajudar-me a “tirar o pé da me*da”. 2020 ia ser o ano! Mas não foi assim, tudo foi pelo cano, 2020 foi cancelado e isto deve afetar internamente muitas estruturas.

Resta-nos ser fortes, organizados e, acima de tudo, sabermos adaptar-nos a esta nova realidade, que tanto pode mudar no próximo mês, como ainda estar aqui em 2022. Acho que a última coisa que marcou assim tanto o mundo (mesmo que não tenha tido qualquer comparação) foi o ataque às torres gémeas nos E.U.A., em 2001, mas a nova marca… é Covid 2019.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho