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Não sei se ainda te gosto

Nas Gargantas Soltas de hoje, Noa Brighenti fala-nos sobre a complexidade de ser aceito.

Fotografia da cortesia de Noa Brighenti

Xavier, a pedido da sua mãe, nasceu debaixo da pia da cozinha. Bruxarias não são para mim! Gritara a parteira ao ouvir tal ordem, mas já estava velha e cansada e a pobre mãe largou o seu peso em lágrimas (a minha casa é pequena e ao menos de debaixo da pia temos um bocadinho de privacidade porque há um paninho que se abre e fecha e eu não quero que Deus veja assim as minhas partes — à solta — e se vingue no menino) e a parteira, que nunca antes ouvira tal coisa, acabou por dar o braço a torcer.

Quando o menino nasceu, já o canto estava higienizado e uma estátua de Jesus jazia por cima da pia (longe da vagina, diga-se). A mãe gritou e gritou e a parteira — que vivia na casa de cima — veio a correr. 

Foi um parto complicado, envolveu muita mais gritaria, e só ao raiar do sol se viu o corpo de Xavier sair por entre as pernas: saiu a cabeça, saiu um ombro e depois o outro ombro e quando chegou a hora de sair a barriga viu-se que não só nascera debaixo da pia como nascera também com os intestinos de fora. 

A mãe ficou quieta com a criança entre os braços (era pequena, cheirava mal) até que sentiu o vómito subir-lhe à boca; e assim começou a vida de Xavier, vomitado pela mãe. Parece que o paninho não serviu de nada riu a parteira para tentar aliviar a sala — sentia-se confortada por saber que aquela loucura tinha sido castigada: afinal, há um equilíbrio a manter no mundo.

Nenhuma das duas se lembra se chorou ao nascer.

Tendo chorado ou não, sobreviveu. Os médicos recomendaram pouca exposição ao sol, proibiram o glúten e a lactose e Xavier foi crescendo, sentado no banco da cozinha com as mãos agarradas aos intestinos para que não caíssem. A voz da mãe repetia vezes e vezes segura-te! não quero vísceras a esfregar o chão! e ele lá se segurava, que remédio. 

Por vezes aborrecia-se e punha-se a investigar: puxava a pele da barriga para trás e enfiava a cabeça dentro do corpo. Os olhos demoravam a ajustar-se e de repente ali estavam estômago fígado rins e tantas outras coisas das quais desconhecia o nome — era divertido e começou a querer tocar-lhes. 

Enfiava os dedos e fazia comichão e dava um certo prazer. Às escondidas da mãe, no escurinho da cozinha, tocava-se debaixo da pia (com o pano da privacidade que tão bem conhecia), porque o processo de autoconhecimento implicava não vergonha, mas solidão.

Solidão enquanto liberdade para abusar do corpo, destruí-lo até — esfregar os intestinos no chão, puxar os órgãos para fora de si — e escolher não o fazer. Esticava a corda até ao limite, via a parteira entrar em sua casa e insistia conte-me outra vez para que repetisse como tinha nascido e como era nojento e ela repetia. Ouvia-a em silêncio, guardava a história, recontava-a, recontava-se e neste masoquismo misturado com um gostar-se incondicional residia, para Xavier, o prazer.

Odiava-as por serem tão estúpidas e não saberem nada sobre si, por não esconderem tamanho segredo (ou mesmo, tamanho tesouro). Acabava, abria os olhos, lavava as mãos como se nada fosse e sentava-se de novo no banco à espera da chegada da mãe. 

Como era de prever, um dia foi apanhado numa das suas aventuras. Estava a coçar o pulmão esquerdo quando a porta se abriu de rompante XAVIER! e ele tirou a cabeça lá de dentro. 

Olhou à sua volta, para a roupa espalhada pelo chão, e tentou explicar à mãe que não havia mal nenhum: era uma investigação científica! que se gostava — foi a gota de água. Que te gostas? que te gostas? mas que conversa é esta, que horror Xavier! o corpo não é para ser profanado dessa maneira com os dedos dentro e fora e dentro e fora! mas onde já se viu alguém e de repente acalmou-se. Sentou-se ao seu lado.

O que se seguiu foi um discurso de duas horas sobre como também Xavier era feito à imagem de Deus e não se devia desfazer daquela forma, que não era bonito. Falou e falou e ele não prestou atenção mas não conseguia, ao mesmo tempo, afastar a vontade de lhe dizer que não queria ser Deus — porque Deus só podia criar e ele podia, pelo contrário, destruir. 

Ao aproximá-lo de Deus, aproximava-o dos outros e aproximá-lo dos outros era afastá-lo de si próprio. Talvez ela nunca viesse a perceber que o seu problema não era ele conhecer-se mas o asco que por ele sentia e que lhe queria impôr. Ao final do dia que interessa se um se toca? não é o toque que faz confusão, é o sítio em que toca. 

A solidão caiu por terra: Xavier percebeu que não havia mais crescer, ou crescer como ele queria, e que crescer como a mãe queria seria crescer à Sua imagem. Pouco certo do que fazia, começou a puxar o intestino para fora Xavier, que fazes? desdobrou-o todo. Era comprido e ia-se espalhando pelo chão Não estou a achar piada nenhuma! e ele continuou a ignorar a sua voz. 

Levantou-se do banco para se ver ali (desumanizado no chão sujo) e pegou numa das pontas do intestino delgado para penetrar o seu corpo dentro dela XAVIER! XAVIER! XAVIER! A parteira, com tanto barulho, entrou na casa a correr; era só ruído de fundo. 

Como se se tratasse de um canguru, enfiou um pé e depois o outro pé e as pernas foram atrás e a cabeça e um ombro e depois o outro ombro até que cá fora só restou a barriga e às tantas até essa desapareceu no monte de pele. 

Mãe e parteira agarraram-se num abraço longo que não sei se foi de tristeza ou de alívio, ou mesmo um pouco dos dois. Pegaram numa vassoura e varreram-no para debaixo da pia — é o que acontece àqueles que se destroem.

Nenhuma das duas se lembra se chorou ao morrer. 

Ter chorado ou não pouco interessa, Deus também não chora.

-Sobre a Noa Brighenti-

Noa Brighenti começou por colecionar conchas e cromos aos 6 anos. Com 9 recitou o seu primeiro poema, teve o seu primeiro amor e deu o seu primeiro concerto no pátio da escola. Fartou-se dos museus aos 13, jurou que nunca mais pintaria aos 14 e quando fez 17 desfez este juramento. Com 20 anos, coleciona gatos e perguntas. Pelo meio, estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa, anda, pinta e lê. De vez em quando escreve — escreve sempre de pé.

Texto de Noa Brighenti
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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