Há profissões que já desapareceram, outras estão para desaparecer, ou simplesmente se reinventam porque a tecnologia assim obriga. Há também o fator: desertificação populacional, ou fim de uma geração. Já não existem leiteiros, acendedores de postes, lavadeiras, aguadeiros, amoladores. Também já não existem as mulheres que andavam de monte em monte de canastra na cabeça a vender peixe ou a roupa que vinha das grandes cidades, das vilas ou aldeias, para que não faltasse nada a quem tinha nascido nos sítios mais remotos, onde para ir até à cidade era preciso calcular muito bem o tempo, o dinheiro e a vida. No entanto, em Portugal, ainda continuam a existir montes longe da azáfama das grandes cidades, onde a tradição se preserva e todos têm uma horta para se sustentar.

Na serra algarvia, num dos maiores concelhos do sotavento algarvio – Alcoutim – a população está a desaparecer. Ainda que o Algarve seja conhecido pelo turismo, existe uma grande assimetria na distribuição da população – e de interesses turísticos - com o interior cada vez menos habitado. Alcoutim é o concelho do Algarve com a densidade populacional mais reduzida, sendo que, em 2011 (segundo o INE), o grupo etário com maior representatividade no concelho era o de 65 e mais anos, representando 44% da população, 8% da população tinha até 14 anos e 6% da população estava entre os 15 e 24 anos. Em 2020, os números não melhoraram e a UNICEF e o portal PORDATA revelaram um estudo em que Alcoutim é um dos cinco municípios com menos crianças e jovens dos 0 aos 19 anos em Portugal.

Montes onde antigamente moravam cinquenta pessoas, hoje, estão reduzidos a cinco, três, ou mesmo uma pessoa – há quem se recuse a deixar a única casa que conheceu -, outros estão completamente inabitados. Os jovens encontram um futuro longe de onde nasceram e a probabilidade de um dia voltarem é reduzida. Há uma geração de saberes e tradições que está a desaparecer e não vê substituída a sua presença. Mas o problema torna-se mais profundo quando nos apercebemos de que quem fica, vive da terra e do que a reforma dá, vive tendo a televisão como companhia e um telemóvel por saber que fez parte da evolução, mas sem acesso ao que é a internet. Quem fica nunca teve carta de automóvel, vai perdendo as forças, a família e a memória.

No entanto, nestas povoações, há uma coisa que lhes alegra os dias e faz com que não caiam no esquecimento: quem passa de carrinha para vender pão, fruta, legumes e outras mercearias, como o João Teresa, o distribuidor de pão mais jovem, e o único que chega a algumas povoações.

João Teresa tem 26 ano e é natural do Pessegueiro, na freguesia de Martim Longo

“Arranjar uma volta de pão leva anos, mas para a estragar, basta um dia”

Martim Longo é uma das freguesias do concelho de Alcoutim que tem vivenciado a sua população a desaparecer. Conhecida pela sua história, pelo artesanato, pelas famosas Bonecas de Junta, as miniaturas em cortiça, e as ribeiras que a serpenteiam, esta freguesia, de apenas 1030 habitantes (dados de 2011) é constituída por cerca de trinta lugares: Arrizada, Azinhal, Barrada, Barroso, Casa Nova do Pereirão, Castelhanos, Corte Serrano, Diogo Dias, Estrada, Finca Rodilha, Lutão de Baixo, Lutão de Cima, Mestras, Montargil, Laborato, Monte Novo do Pereirão, Penteadeiros, Pereirão, Pêro Dias, Santa Justa, Silgado, Tremelgo de Baixo e Tremelgo de Cima, Zorrinhos de Baixo, Zorrinhos de Cima, Gagos, Vale Gusmão, Soalheira, Montinho da Corte Serranos e Pessegueiro, de onde João Teresa é natural. Muitos quase inabitados, mas ainda com gente suficiente para comer o pão e as costas que o João distribui.

Quando era pequeno, João não largava os tratores, queria ser agricultor para seguir as pisadas do pai e do irmão, mas depressa percebeu que “não é vida para ninguém” e começou a vender pão. Antes, foi tirar o 12º ano em arqueologia, mas percebeu que também não era para ele e juntou os estudos a um dos seus maiores prazeres nos tempos livres: formou-se em Gestão Cinegética - “a minha vida é a caça, sou caçador” - conta em entrevista ao Gerador.

Entre a caça, as partidas de futebol com os amigos, e o café dos pais onde cresceu e que agora também é seu, o João comprou (aos 22 anos) uma carrinha com as suas poupanças, o jovem do Pessegueiro foi bater à porta da padaria do seu monte para ser revendedor e começou a distribuir pão de monte em monte, porque não havia ninguém que o fizesse.

Lembrando-se do primeiro dia, conta que “foi complicado arranjar clientes, temos de perder muito tempo, porque arranjar uma volta de pão leva anos, mas para a estragar basta um dia”, questionado sobre o porquê, João conta que, “as pessoas estão habituadas, se há um dia que falhas, as pessoas deixam de poder contar contigo. Por isso, mesmo que alguém não compre, eu insisto e vou sempre, e é assim que se ganham clientes. Porque as pessoas mais velhas precisam de nós e cobram muito se faltarmos um dia”.

A “Volta do Pão”, como o João lhe chama, faz-se às terças, quartas, sextas e domingos, todas as semanas, sem falhas. Saídos do Pessegueiro, a primeira paragem é depois da Ribeira do Vascão, aquela que faz de fronteira entre o Algarve e o Alentejo. A Aldeia de Santa Cruz é a primeira paragem onde começamos a perceber que há sítios que podem desaparecer.

“Bip Bip!” - À entrada de cada aldeia, o João começa a buzinar para avisar a sua chegada e todos já sabem em que sítio vai parar. A carrinha pára, a porta abre-se, o cheiro a pão quente invade o ar, e as pessoas vão espreitando, uma a uma, para saber o que traz hoje e escolherem o que querem. Vão também tentando saber as novidades que o mais novo traz, como está a sua família, e quem é a pessoa que (naquele dia) traz consigo. “Oh João, quero um ‘panito grande’, um pequeno e três costas”, ouve-se, e uma avó traz a neta (que não tem mais de cinco anos), para comprar dois pães que vão durar até á próxima vez que o “João padeiro aparecer”. João Teresa lembra-se de, já quando era pequeno, só ver “pessoas mais velhas na distribuição”, não haviam jovens, nem ninguém tinha a ambição de vir a ser vendedor ambulante. Atualmente, existem mais dois – associados à mesma padaria -, mas João continua a ser o mais novo, talvez o primeiro mais novo, em muitos anos.

Depois da Aldeia de Santa Cruz, a carrinha branca cheia de pão, popias, costas simples ou com xila, papo secos, baguetes de côdea, e tudo aquilo que a padaria fizer no dia, vai parando noutros montes e aldeias como as Mestras, Barroso, Corte Serrano, Montinho do Cravo, Cachopo e outros montes entre os concelhos de Alcoutim, Almodôvar, Loulé e Tavira, durante quatro horas que têm início às 09h00 da manhã, ou, por vezes, mais cedo, e acabam na hora de almoço.

Há sítios em que só aparece uma pessoa, outros em que o saco está pendurado à espera que o João deixe um pão, ficando uma dívida apontada, ou um dinheiro escondido para não ficarem dívidas. Em muitos dos sítios, a carrinha pára mesmo à porta ou entra em propriedades privadas, o importante é ninguém ficar sem pão. As pessoas amontoam-se, vêm de chinelos, de batas, de pijama, e até trazem a faca com a qual descascaram a comida para o almoço, na mão, como se o João já fosse parte da família.

Esta “rota do pão” é, para quem vê chegar a carrinha branca, sinónimo de conversa e novidades – “As mulheres adoram-me! Cada vez que chego, elas ficam contentes, e eu mais contente ainda por gostarem de mim”, conta João, que tem sempre conversa e perguntas à sua espera. Por vezes, conta em tom de brincadeira, o que menos gosta é, precisamente, das mesmas mulheres que o adoram – “Às vezes é demasiado cedo, e só quero estar sossegado, mas elas são chatas, querem saber tudo e conversar”.

Num dos montes, uma das mulheres, que já é viúva e vive esperando a visita das suas filhas, diz que acha muito bem que seja o João a fazer esta distribuição, “porque traz alegria, vejo caras novas e, se não fosse ele, como é que tinha pão?”.

Questionado sobre a monotonia deste trabalho, o jovem algarvio aponta para a paisagem que parece não ter fim – “Estou sempre a parar de terra em terra, mas também tenho tempo para pensar e apreciar o que tenho à minha volta. Por exemplo, consigo notar a velocidade a que as coisas crescem, como crescem, e ver as diferenças de ano para ano e de estação para estação, e isso é espetacular. E as pessoas e o ar puro, valem também a pena”.

Quatro anos depois, João vai notando também a ausência de pessoas, “a taxa de mortalidade está cada vez maior, as pessoas desaparecem, não há ninguém que fique, a não ser quem vem aos fins de semana. Se um dia isto (os montes) desaparecerem, este trabalho deixa de existir. Há montes que não têm ninguém”, conta.

“Se não for eu a ir a esses sítios, ninguém vai”

Neste Algarve profundo, as tradições continuam a preservar-se longe dos olhares de turistas e televisões. Na volta do pão, passamos por cima de ribeiros quase secos, encontramos várias matanças de porco (comuns na altura do Natal), e vemos as mulheres lavar as tripas nas ribeiras que restam, como se fazia antigamente.

João nasceu na freguesia de Martim Longo e é por aqui que quer ficar e criar família – “É aqui que eu fico, não quero sair daqui. Não gosto de cidades, posso ficar lá uma semana ou quinze dias, mas eu sou daqui, não sou de lá”. No entanto, ficar é difícil, apesar dos pais e amigos “fazerem força” para que João não saia, quem fica tem de trabalhar por conta própria, em empresas de construção, “as poucas que há”, e “agora nos painéis”, os quais João não gosta porque “não trazem grande coisa para além de trabalho para quem já cá está ou trabalhadores que não querem ficar cá, e daqui a vinte anos, o aquecimento destrói isto (os terrenos) tudo”. Existe ainda a questão do nível de vida, “está tudo a aumentar, a farinha, o gasóleo, está tudo mais caro, e consequentemente os preços aumentam, mas as pessoas muitas vezes não percebem. E, a juntar a isso, se a população começa a desaparecer, começa a comprar menos pão, e em vez de eu conseguir vender dez pães, só vender cinco, deixa de me compensar gastar gasolina para ir até aos sítios. É muito complicado”.

Quem partilha da mesma opinião é a cabeleireira Inês Martins, natural de Cachopo, que decidiu levar os seus serviços (numa caravana remodelada) a quem tem mobilidade reduzida – “Quando digo aos meus colegas que ainda se faz distribuição de porta a porta ninguém acredita, fica tudo espantado. Acho muito bem que o João continue isto e não deixe as pessoas mais velhas. Mas também sei muito bem como isto é, tem de ser tudo calculado, porque há montes que não são ‘rentáveis’ e temos de calcular muito bem como fazemos tudo.”

João investiu tudo sozinho e diz que nunca recebeu nenhum apoio. Em Cachopo, uma das clientes de João e também ex-presidente da Junta de Freguesia, Otília Cardeira, diz que “nunca houve tantos subsídios, nunca existiu tanta ajuda, mas os jovens não têm espírito empreendedor ou, talvez, seja mesmo falta de condições para ficarem, mas acima de tudo, não aproveitam os apoios”.

Otília Cardeira lamenta ainda que este tipo de profissões se tenham perdido - “antes tínhamos quem fizesse muitas chouriças, uma data de comércio, e as pessoas vinham cá só para comprar, agora temos o turismo de quem passa aqui para comer ou vem pela Via Algarviana e depois segue”, por isso reconhece a importância do trabalho do jovem – “Acho muito bem que os jovens como o João agarrem nos negócios e façam algo deles, continuem a tradição, porque se não, uns morrem, vão os outros, e qualquer dia não temos ninguém”.

A questão, transversal a todo o país, ecoa em toda a reportagem– “como fazer para atrair os jovens para estes sítios?” – João não sabe a resposta, mas sugere apoios, que “não taxem tanto o Zé Povinho”, e claro, que aproveitem da melhor forma o que estes sítios têm para dar.

Ficar não é fácil, mas é o que faz sentido para o jovem de 26 anos. Já teve propostas para sair, deixar a distribuição de pão e ter algo “mais estável e rentável”, mas não consegue – “se não for eu a ir a estes sítios, ninguém vai, não consigo deixar as pessoas assim, nem elas me deixavam que eu deixasse isto”.

Texto e fotografias de Patrícia Nogueira

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