Em 2 de setembro de 1969 dois computadores de uma rede militar norte-americana (ARPANET) trocaram dados à distância pela primeira vez. Entendem os especialistas que foi a partir desse acontecimento que se começou a pensar num sistema de partilha de informação por muitos utilizadores, tendo por base um protocolo comum de comunicações. Ou seja, no que é hoje a Internet, oficialmente nascida em 1 de janeiro de 1983.

Entre uma infinidade de coisas muito boas, com relevo para a democratização da informação e para a globalização do conhecimento, a Internet apresenta igualmente algumas fraquezas, sendo mais sublinhadas a que diz respeito à proliferação de “fake news” para influenciar agendas de políticos e agentes económicos, ou a que se refere à falta de validação científica da informação que é veiculada.

Não acreditar em tudo o que se lê na “net” sem cruzar com fontes fidedignas deveria ser hoje o padrão de todos os utilizadores.

Na gastronomia, a Internet albergou cedo o novo paradigma dos blogues especializados, onde amadores (que os há muito bons, bons e maus) escreviam sobre o tema, sem necessidade de supervisão ou edição por parte de gente mais experiente no ramo.

A ausência de controlo crítico “ex-ante” (a não ser o autocontrolo do próprio “bloguer” criador) trouxe assim ao dia-a-dia dos interessados nesta literatura, cada vez mais popular, algumas “emoções”.

Não me interesso tanto por blogues de receitas culinárias – já agora, são bastante inovadores o “camomila limão” e o “cinco quartos de laranja”; - mas sim por ler os blogues onde a crítica e o comentário gastronómico sobre restaurantes, pratos tradicionais ou modernos, chefs de cozinha e assuntos de interesse mais geral para o binómio nacional de “secos e molhados”, se pratique.

Nem sempre as emoções destas leituras são negativas. Basta citar alguns dos blogues de referência nesta área: “Ponto come” “Conversas à mesa”; até o ubíquo “Mesa Marcada”, por exemplo.

Mas há alturas em que o leitor questionará se este trabalho de escrita para os outros se justifica.

Todavia, como ninguém é obrigado a continuar a ler a crónica, ainda por cima publicada em meio virtual gratuito, não vem muito mal ao mundo desta partilha de opiniões pessoais (porque é mesmo disso que se trata).

Claro que ninguém sabe se a escrita é imparcial ou influenciada, ou se existe conhecimento prévio - histórico, cultural, científico - daquela matéria para discorrer publicamente sobre a mesma.

Para criticar uma determinada interpretação de uma “chanfana” convém no mínimo saber a receita tradicional, fixada pelas obras de referência, e ter alguma noção antropológica sobre o local onde nasceu e as circunstâncias da criação de tal preparação.

Fora isso, se o que está em causa é a simplicidade do “gostei” ou “não gostei” sem entrar em pormenores técnicos da execução, quem somos nós para julgar os “gostos” de cada um?

Há quem acompanhe peixe grelhado com batatas fritas e peça “percebes” para a sobremesa. E ainda engula arenques crus ao pequeno-almoço. São idiossincrasias do impetrante e que só a ele obrigam.

Vem-me à memória o especialista que, numa crónica de crítica política em Rádio Nacional, por algumas vezes disse com o microfone bem aberto: “Quadrúplo” em vez de “Quádruplo”. Deveria estar a pensar em “Quadrúpede” …

O problema é se alguma criancinha achou piada e desatou a imitar.

E aqui é que pode estar a questão mais negativa: existir quem leia, acredite cegamente, e vá transmitindo a outros.

Sendo Portugal o que é, ninguém acreditará que algum destes “influencers” da Internet tenha poder para matar ou salvar restaurantes (como se dizia que a prosa severa e certeira de José Quitério no Expresso fazia no passado recente).

Mas uma inverdade repetida muitas vezes…

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
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