Dizia-se lá para os lados da Manta Rota ou de Monte Gordo (a praia preferida dos alentejanos, vá-se lá saber porquê) que quando a água do mar roçava os 25 ou 26 graus, esta “parecia sopa”.

Acham que estamos ainda um pouco “inchados” com os desvarios cometidos à mesa durante o confinamento obrigatório?

O melhor remédio caseiro para estas maleitas do estômago costuma ser um mês de sopas ao jantar.

Tradicionalmente costumávamos, em nossa casa, fazer um mês de “defeso” onde abdicamos de jantar de garfo e faca para o substituir por uma bela sopa, quente e reconfortante, normalmente depois dos exageros natalícios ou carnavalescos, antecipando assim a quaresma.

A sopa à portuguesa é um dos melhores e mais completos pratos que podemos ingerir. Engorda muito menos do que a habitual substituição do jantar por “umas sandes em frente à televisão” e faz muito melhor à saúde, tendo ainda a vantagem de reconfortar sem esticar demasiado o estômago, virtude sempre de assinalar para quem, como eu, se deita com as galinhas  (salvo seja), para se levantar com os galos.

Qualquer sopa das nossas tem sempre a mesma forma de execução: uma cozedura lenta em água de legumes escolhidos, com mais ou menos batata, alho francês, cebola, por vezes com nabos, azeite e sal.

Depois, é só passar pela varinha mágica e acrescentar, em seguida, mais legumes verdes (couve, nabiças, agriões, etc., ripados à mão) para quem aprecie a sopa mais ou menos forte.  Deixam-se cozer estes últimos com a panela aberta para que a couve (ou o que for) não perca a cor, durante uns 10 minutos, e vai para a mesa.

De todas as formas, o segredo para que qualquer sopa apresente aquele toque aveludado de que todos gostamos é a utilização de muita e boa cebola que, com o alho francês, deve sempre fazer parte da base da maioria das receitas.

Neste tempo que é o nosso, onde é já possível comprar pré-lavados e desinfetados os agriões, o caldo verde, as nabiças ou espinafres, em que o feijão, as ervilhas e o grão vêm em latas pré-cozidos, fazer uma sopa é tarefa fácil e rápida.

Com a outra vantagem de se poder fazer ao fim de semana para aguentar, pelo menos, até quarta-feira seguinte no frigorífico.

Vão por mim: uma sopinha ao jantar — independentemente das idades e dos pesos — dá bons sonos e melhores sonhos!

Se estivermos acalorados — o que pode acontecer em qualquer época do ano — venha daí uma sopa fria: um gaspacho à moda do nosso Alentejo, mas o rústico, sem ser passado até ficar em puré.

Peçam lá na praça, na banca do peixe, para lhes arranjarem um quilo de carapaus pequenos.

Salguem, passem-nos por farinha e fritem-nos muito bem em óleo de girassol, um dos mais resistentes sem degradação às altas temperaturas.

Depois de fritos deitem os carapaus por cima de um bom pedaço de papel absorvente e reservem.

Na hora de comer, partam para uma tijela aos bocados pequenos: pepino, tomate maduro, pimento vermelho e verde. Tudo sem grainhas, pevides ou fios. Acrescentem bocadinhos de presunto bem cortados.

Deem uns socos em quatro ou cinco bons dentes de alho, juntem-lhes duas colheres de sopa de sal e misturem num almofariz.

Deitem tudo — a massa de alho e sal, mais os vegetais cortados e o presunto — para cima de algumas fatias de pão da véspera (alentejano de preferência, mas existem outras boas alternativas, como o de Rio Maior ou da Lagoinha).

Temperem com azeite e vinagre a gosto, um pouco de pimenta e cubram de água. Na altura de servir, juntem gelo aos cubos e salpiquem com orégãos.

Há também quem deite um copo de vinho branco por cima (quantidade para uma tigela grande). Se quiserem perfumar com o vinho façam-no, mas cortem, então, um pouco no vinagre.

O gaspacho serve-se com a travessa de carapaus (ou de petinga) fritos ao lado. E, no tempo deles, há quem goste de compor a mesa com um prato de figos maduros, abertos ao meio.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 
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