“Onde há muito barulho, existem coisas fora do lugar (...) Aquele homem que diz que as mulheres precisam de ser ajudadas para entrar nas carruagens (...) e ter o melhor em todos os lugares... A mim, ninguém me ajuda a entrar em carruagens ou a ultrapassar as poças de lama, ou me cedem o melhor lugar. E eu não sou uma mulher? Olhem para mim, olhem para o meu braço! (...) Eu posso trabalhar e comer tanto como qualquer homem... E aguentei chicotadas tão bem quanto eles... E eu não sou uma mulher? (Discurso de Sojourner Thruth em 1851)

Estas palavras foram proferidas publicamente por Sojourner Thruth (ativista pelos direitos das mulheres e dos negros) em 1851. E por uma razão simples: compreendeu que as reivindicações feministas emergentes até à época não tomavam em consideração a realidade das mulheres negras quanto à opressão que sofriam.

O reconhecimento das múltiplas discriminações que as mulheres são alvo começa a desenvolver-se de forma significativa a partir da década de 1990, abrindo o movimento feminista espaço para se debruçar sobre as questões da raça e da orientação sexual, entre outras.

Contudo, ficaram de fora as mulheres com deficiência. Se pensarmos nas reivindicações e demandas feministas, compreendemos facilmente que a nossa realidade não foi considerada. Quando eram consideradas, eram apenas vistas como pessoas que precisavam de ser cuidadas por outras mulheres. 

Por força desta “ausência”, em janeiro de 2021, nasceu um coletivo de ativistas feministas designado Coletivo Feminista As DEsaFiantes. Este foi convidado por outros grupos/associações feministas para participar em ações do 8 de março.

Atualmente, é constituído por 5 mulheres: Carla Branco, Catarina Vitorino, Diana Santos, Patrícia Paiva e eu própria. Todas temos em comum envolvimentos com o ativismo pelos direitos das pessoas com deficiência e a vida associativa. Um grupo ainda embrionário, é certo, mas extremamente importante para alertar para as situações que vos exporei em seguida.

À semelhança de Sojourner Thruth surgirem-nos algumas inquietações...

Muitas de nós são pessoas dependentes para tarefas tão simples como fazer tarefas domésticas, comer, ir ao wc ou tomar banho. Ainda assim, não seremos mulheres? Muitas, apesar dos seus dignos 40 ou 50 anos, continuam a ser vistas como eternas crianças que necessitam apenas de proteção e ver as necessidades básicas satisfeitas. Serão crianças? Também não serão mulheres?

Muitas nem sequer equacionam a possibilidade de serem mães, ainda que o possam desejar. Porque não são vistas como sensuais, sexuadas... Porque ainda que engravidem ou queiram adotar, não se espera que sejam mães. Não estaremos perante mulheres, também?

Muitas encontram entraves gravíssimos à comunicação por motivo de surdez e não conseguem realizar uma denúncia por abuso sexual (porque a esquadra da polícia não tem intérpretes de Língua Gestual Portuguesa e a denúncia é negligenciada/desvalorizada). Não serão, também, mulheres?

Mais vulneráveis ainda estão as que têm deficiência intelectual. Supostamente, não são capazes de fazer escolhas nem de tomar decisões. As palavras que expressam pouco valor possuem. Outras pessoas podem decidir por si, independentemente das suas vontades. Algumas destas mulheres, ainda em idade fértil e bastante jovens, viram a sua saúde reprodutiva interrompida porque outras pessoas assumiram que “é melhor assim”.

A verdade é que a nossa feminilidade é muitas vezes ignorada/esquecida. O movimento feminista ainda se debate com a desconstrução do papel da mulher (para que não esteja associada tão significativamente à vida doméstica ou à maternidade, por exemplo) num sistema patriarcal. No nosso caso em particular, temos de alertar para a nossa feminilidade não normativa e para o alerta dos papéis de género que queremos desempenhar enquanto mulheres.

Que em 2022 possamos fazer mais barulho, porque o que é facto é que está muita coisa fora do lugar devido. Um lugar onde a nossa feminilidade seja reconhecida e valorizada. Um lugar onde possamos desempenhar papéis da forma que entendermos ser a melhor para nós. Onde, coletivamente, consigamos perceber o poder transformador que possuímos. E que 2022 comece com um brinde a feminilidades diversas!

-Sobre a Ana Catarina Correia-

Licenciada e mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto com interesse particular na problemática da deficiência. Foi doutoranda na mesma escola e área disciplinar, num projeto de investigação que versa sobre as políticas para a deficiência em Portugal e na Europa e que dá enfoque à filosofia da Vida Independente e que ainda não foi finalizado.
Atualmente, é técnica no Centro de Apoio à Vida Independente Norte da Associação Centro de Vida Independente. Na mesma organização é dirigente e coordena a delegação do Porto. Colabora, ainda, com outras organizações representativas de pessoas com deficiência. É ainda atleta federada de Boccia pelo Sporting Clube de Espinho e membro da seleção nacional da modalidade desde 2016.
Grande motivação na vida: a crença de que a construção de sociedades justas e inclusivas depende de cada um de nós e que esse será um dos grandes sinais de desenvolvimento humano. E qual é uma das grandes bases para este desenvolvimento? A educação e uma consciência global de Direitos Humanos.

Texto de Ana Catarina Correia
Fotografia da cortesia de Ana Catarina Correia
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.