Falar de liberdade pode parecer um campo no qual alguns ainda se esquecem de batalhar. Não sobe ao palco do Teatro São Luiz para explorar isso mesmo, questionando-nos o que é ser humano, e como “resistir aos ódios, violências e ditaduras” é importantíssimo numa sociedade que nos diz como temos de ser.

O namoro de Afonso Cruz com a Associação Cultural Lavrar o Mar não é novo. Giacomo Scalisi, diretor artístico desta associação – assim como Madalena Victorino – desafiou Afonso Cruz, desta vez, a explorar o tema liberdade, tendo como público as crianças, jovens, famílias e os professores. Assim nasceu Não, um espetáculo que nasceu a partir de um diálogo entre o encenador Giacomo Scalisi e o escritor Afonso Cruz sobre os livros deste, Paz Traz Paz e O Livro do Ano, e de alguns textos inéditos que surgiram após uma troca de ideias. Neste espetáculo, três mulheres – Ana Root, Rita Rodrigues e Sofia Moura – sobem ao palco para nos explicar que os monstros podem mesmo existir – e que ganham forma com as mais pequenas coisas e com os medos mais infundados. Questões como “o que é, afinal, ser normal?” e “o que são pessoas de bem?” são assim levantadas pelo canto polifónico destas três vozes – com a cocriação musical e ouvido exterior de Pedro Salvador.

Depois de Não ter agitado as mentes em algumas localidades da Costa Vicentina e Interior Algarvio, a peça sobe agora ao Teatro São Luiz, no dia 16 de janeiro, pelas 16 horas. Em entrevista ao Gerador, Giacomo Scalisi conta o que o levou a este lugar de questões, como a liberdade é mais importante do que nunca e ainda o que podemos esperar de um espetáculo que, no fundo, é um lugar de memórias e de resistência.

Gerador (G.) – A peça Não vem de um diálogo com Afonso Cruz, o que estava na base deste diálogo que deu origem a esta peça?

Giacomo Scalisi (G. S.) – Eu tinha esta ideia, já há muito tempo, de voltar a fazer um espetáculo para as crianças, famílias e professores, três elementos que para mim são importantes. Claro que é um espetáculo para todo o público, mas é criado mais para o público familiar, e também para os professores, porque estamos a viver um momento histórico de grande transição, as forças populistas que voltam em força. Parece que estamos a voltar atrás, que a história se está a repetir. Então acho que é importante não perder a memória. E esta memória é uma memória que os mais jovens não têm e os pais às vezes se esquecem – muitas vezes eles próprios também não a tiveram. Então, a minha ideia era inserir estes temas, que acho importantíssimos, num espetáculo. No fundo, criar uma nova memória que possa ajudar a imaginar exatamente o que é a liberdade. Os grandes temas do espetáculo abordam o que é ser um ser humano, como é que nós conseguimos ser seres humanos, como conseguimos viver a infelicidade e a felicidade da nossa vida sem odiar, sem ter preconceito, sendo cada um de nós a pessoa que é, porque esta é a coisa mais importante: julgar as pessoas por aquilo que são e não por aquilo que parecem ou o que a sociedade nos diz que temos de ser.

Eu disse ao Afonso que tinha este desejo muito grande e perguntei se ele queria fazer comigo este espetáculo. É sempre um ‘sim’ com o Afonso e é uma maravilha, um prazer trabalhar com ele. Eu tinha esta ideia do tema que é muito forte, e tinha a ideia de misturar o teatro com o canto polifónico, porque acho que a música, em particular o canto polifónico, pode fazer chegar mais diretamente estes temas às pessoas. Há momentos que, quer a música quer o canto polifónico podem abrir um caminho. O Afonso diria que é um caminho em direção ao coração, para que alguns conceitos possam entrar de outra maneira e ter outro diálogo. Queria também trabalhar com um elenco feminino, por isso são três mulheres. Gostava de ter esta parte mais feminina porque vinha de um espetáculo que tinha feito, o Clown, em que eram três homens, talvez o próximo seja misto…

G. – A escolha de um elenco feminino tem alguma relação com o tema?

G. S. – Não particularmente, mas acho que as mulheres para um tema como este têm uma presença que me interessa mais do que a dos homens neste momento em cena. É uma intimidade que criam muito interessante. Também as vozes interessavam-me que fossem três femininas para o canto. Então, o Afonso começou a escrever em dezembro do ano passado e começámos a ensaiar. O Afonso, a primeira coisa que fez foi escrever uma peça de teatro, não era um conto ou poesia. Começámos a perceber, em algumas conversas, que a maneira para falar disto não era direta, não era simples, mas era uma maneira metafórica e poética (e sobre isso estivemos de acordo). Ele escreveu uma peça de teatro que quando li pensei: “O que vou fazer com isto?” Era uma coisa que eu não esperava porque ele surpreende-me sempre quando escreve, era uma peça de teatro mais grotesca, uma coisa de Brech, dos anos 30, mas era maravilhosa. Eu li a peça e fiquei desconcertado porque não esperava. Começámos a ensaiar com as atrizes e encontrámos um caminho maravilhoso para pôr a peça a funcionar. Começámos pela última parte, que ficou como segunda parte do espetáculo e, a partir daí, encontrámos esta loucura que, no fundo, faz parte do espetáculo, que é uma grande metáfora sobre a questão da liberdade, de ser diferente, de ser de outra raça, de pertencer a outra cultura, de ser diferente daquilo que a sociedade quer como modelo.

Depois, decidimos que íamos utilizar dois livros, porque a primeira sugestão que o Afonso me fez foi um poema que eu escrevi que se chama “Não” – por isso a peça se chama assim – e escolhemos o livro Paz Traz Paz, e disse-me “lê este poema” porque tem que ver com aquilo que queremos fazer. Eu li, adorei! Tanto no Paz Traz Paz como no Livro do ano (também utilizado), ele tem sempre esta escrita para as crianças que fala aos adultos, assim como o nosso espetáculo, e fomos tirando algumas partes destes dois livros para criarmos uma dramaturgia. No entanto, a Ana Root, trabalhou sobre as canções, que têm texto de Afonso Cruz também, alguns do livro, e tudo isto criou um espetáculo com música, teatro, momentos satíricos, grotescos e com referências interessantes.

G. – O teatro é educacional. Mas para crianças, como se abordam temas como aqueles que o Não traz?

G. S. – Eu não tenho a certeza de que o teatro seja educacional…

G. – Mas educa de alguma forma, é uma consequência…

G. S. – Sim, é mais uma consequência. Há espetáculos que são feitos para educar, mas eu não gosto, não educo ninguém. Faço um espetáculo com coisas muito claras, e tem um próprio ponto de vista e uma sugestão sobre o que aconteceu na nossa história, porque falamos do fascismo e liberdade, e conto uma história que é verdade, que tem que ver com a minha própria memória. É isso. Vou contar uma história que tem que ver com o espetáculo: um dia, quando eu tinha oito ou dez anos, estava numa sala da aula, em Itália, e o meu professor da escola primária chegou à nossa aula e disse que nós agora estávamos a viver num país livre onde a liberdade era um fator adquirido, mas que tivemos uma grande guerra (que era a Segunda Guerra Mundial) e que tivemos uma ditadura que era o fascismo, em que as pessoas que não pensavam como a ditadura iam presas, eram torturadas. No fundo, não respeitavam as outras pessoas, se fossem diferentes ou de outra cultura, eram deportadas, presas e mortas. O meu professor não estava de acordo com a ditadura e foi para as montanhas e transformou-se num partigiano (que em Itália eram aquelas pessoas que lutavam pela liberdade, eram contra o fascismo). Quando a guerra acabou, voltou a ser professor e diziam-nos justamente que estávamos a viver em paz, mas que o ódio pode sempre voltar e que, naquele momento, quem tinha de defender a liberdade éramos nós, e isto deixou um legado muito forte que tenho trazido comigo ao longo da minha vida. Mas é interessante que, quando fiz o espetáculo, não me lembrava, e só no fim é que me lembrei, ficou tanto dentro de mim, sem eu saber, que a minha vida foi de alguma maneira orientada neste sentido. No fundo, voltando à pergunta, o espetáculo não educa, mas faz pensar e dá-nos algumas perguntas importantes – “o que é a liberdade”, “o que é o ser humano”, “o que é ser diferente”, “como é que somos iguais”, porque vivemos numa sociedade que faz com que todos sejamos iguais, e que quem é diferente é posto à margem. Esta peça tem o Instituto das Pessoas Normais, o famoso instituto que o Afonso inventou, que, no início, procurava as pessoas para fazê-las brincar e serem diferentes entre si, mas que agora se transformou numa uniformização da nossa sociedade. São uma série de perguntas e pensamentos, emoções, porque o canto cria estas emoções e era aí que queria chegar. As pessoas têm estas emoções e depois voltam para casa com isto e vão pensando.

Mas os adultos têm um papel fundamental, eles podem explicar às crianças porque tudo isto aconteceu, o que foi o passado, e porque não tem de acontecer agora, é ter uma militância, é resistir – a última palavra do espetáculo –, porque no fundo temos de resistir aos ódios, violências e ditaduras, que são tão fáceis e rápidos que não nos apercebemos de como as coisas mudam. Eu acho que os pais ou os professores têm um papel fundamental.

G. – Vocês abordam questões que são muito importantes para as crianças e jovens, como o “ser normal”, mas, por vezes, também existe alguma crueldade nesta idade. Este espetáculo é uma espécie de provocação aos jovens?

G. S. – Sim, o espetáculo é uma grande provocação, e é uma grande provocação também do ponto de vista físico. Elas fazem coisas que não se fazem, como, por exemplo, a certo momento as três têm a língua de fora, e mostrar a língua é uma coisa que nós nunca mostramos – mas e porque não? –, e elas fazem isso de uma maneira quase excessiva. É claro que é uma provocação porque tem muitas coisas que eles fazem, que são mesmo contra as regras, que entre aspas, somos educados – e volto a questionar, porque não? – Elas contam também sobre pessoas que fazem coisas diferentes. O espetáculo é mesmo uma provocação.

G. – Já tinham apresentado esta peça na Costa Vicentina e no Interior Algarvio, como é que esta liberdade foi entendida?

G. S. – Eu não estava à espera, mas tive uma reação maravilhosa, pessoas que nos vinham agradecer por fazermos o espetáculo. Lembro-me de uma professora em Monchique a chorar, mas a chorar em frente aos seus alunos, e a dizer que considera este espetáculo importantíssimo, e que ia trabalhar sobre estes temas fundamentais quando voltasse para a aula, como se este espetáculo ajudasse a ser um outro adulto. Com o público tive uma reação muito calorosa. Em Odemira, fizemos a apresentação para as escolas, com condições técnicas mínimas, com jovens entre os doze e os quinze anos que reagiram muito bem. E eu tinha medo porque é uma idade muito difícil, alguns entraram com auriculares olhando para baixo, não se importando com nada, mas quando ouvem a música a tocar e os instrumentos há qualquer coisa que os desperta, e tivemos comentários muito interessantes – a mensagem tinha passado.

G. – Não é como um lembrete de coisas importantes das quais não nos podemos mesmo esquecer. Que coisas importantes são essas?

G. S. – Todas coisas que eu disse até agora. Estamos a falar da coisa mais importante que é a nossa liberdade. Achamos que somos livres – porque eu acho que não somos – e quando esta liberdade desaparece, percebemos quanto é importante, e há uma coisa importantíssima da qual não nos podemos esquecer nunca – e quando falo de liberdade não é estar em casa e não poder sair como a covid nos impôs. Estou a falar de um sistema financeiro que nos obriga a fazer escolhas, a pensar, a liberdade de pensar é fundamental mas temos de pensar antes de tomar decisões, temos de pensar com a nossa cabeça, tudo está feito para nós não pensarmos e fazermos aquilo que os outros querem. No fundo, quando falo de liberdade não é só uma questão física e política, é uma questão de um mundo diferente no qual que queremos viver.

G. – Isso vai dar à educação e literacia nas escolas, ou seja, também esta peça vem educar de alguma forma, daí eu dizer que o teatro pode ser educacional…

G. S. – Sim, claro. Nesse sentido, sim, a educação é importantíssima, claro que é, mas é tão mal utilizada às vezes. Por isso prefiro não utilizar, mas chego lá por outra parte, porque dou outro sentido à palavra educação. Quando falamos de educação vêm-nos sempre à cabeça coisas que não são interessantes. É mal utilizada. Prefiro falar de qual é ou qual podia ser a educação, por exemplo, a filosofia nas escolas é fundamental. Porque é que não se trata da filosofia nas escolas se até na escola primária há discursos sobre a vida? No fundo, estes jovens e crianças têm de estar preparados para vida. Claro que têm de aprender a falar, fazer contas, etc., mas falta outra preparação sobre o que é viver em sociedade, ser humano com todas as grandes preocupações e pensamentos que acho importantíssimo, e que a escola tem essa falha enorme que não trata.

G. – Para quem não puder ver o Não no São Luiz, vão rumar a outros teatros?

G. S. – Esperamos que sim, não temos datas de momento. Temos uma data ainda em São Teotónio, mas não temos datas marcadas. Tivemos esta oportunidade do São Luiz, que é uma mostra em que cada teatro tem um espetáculo diferente, uma reflexão sobre a criação para o público jovem. Mas gostava muito que o espetáculo andasse, porque temos um país em que, por vezes, a vida do espetáculo é muito curta, não, não consegue andar, e acho que este espetáculo merecia.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia de João Mariano

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