Durante muitos anos, a biblioteca e o museu municipal, dois edifícios amarelos construídos lado a lado, foram uma espécie de pólo informalmente anexo às escolas do Marco de Canaveses. É muito pouco provável que alguém que tenha estudado no centro da cidade nunca tenha entrado na pequena biblioteca com dois andares, mas muita sabedoria concentrada, e no também pequeno museu com objetos de Carmen Miranda, cantora icónica que por ali nasceu e emigrou ainda com poucos meses de vida para o Brasil. Ainda que a sua passagem por esta cidade no norte do país tenha sido curta, há uma ligação que se mantém e se alimenta através de múltiplas homenagens feitas todos os anos. 

Quando se entrava no museu, entrava-se também numa pequena parte do universo de Carmen Miranda. Grande o suficiente para que tantas crianças e jovens (mas também adultos) se deixassem fascinar pela mulher que foi no seu tempo. As suas roupas, sapatos, turbantes e acessórios — sempre muito grandes — bastavam para que se pudesse imaginar Carmen a dançar pelos corredores. Para quem vive no Marco de Canaveses, celebrar Carmen Miranda pode ser algo tão natural quanto celebrar o rancho folclórico, as Fatias do Freixo, a cidade de Tongobriga ou qualquer outro símbolo da cidade. É celebrar, de certa forma, um pouco da terra e do fenómeno da emigração, presente no seio de muitas famílias marcoenses.

Ao longo dos últimos anos, a biblioteca e o museu reclamaram espaço. A cidade perdeu o único cinema comercial que tinha, não existiam equipamentos capazes de receber produções culturais de maior dimensão, mas os marcoenses continuavam a fazer por si, nos espaços e das formas possíveis. Houve quem não deixasse de reclamar por um melhor acesso à cultura. Este ano, nasceu o Centro Cultural Emergente, exatamente na mesma praça do antigo museu e da biblioteca, em frente a um monumento erguido para homenagear os emigrantes da cidade. No espaço que à biblioteca e ao museu dizia respeito, nascerá em breve um novo museu. De forma simbólica, estes novos equipamentos podem significar uma nova vida para a cultura e as políticas culturais do Marco de Canaveses. Com certeza representam um compromisso renovado com os públicos e uma porta para que novos mundos por ali possam entrar. 

A entrada está pensada para contextos expositivos

Um novo respiro 

Ao entrar pela porta do Centro Cultural Emergente, logo nos deparamos com uma exposição fotográfica “Emergência 366”, de Paulo Pimenta e Adriano Miranda, que resultou num livro homónimo. Mostram-nos a vida de pandemia numa altura em que ainda a vivemos mas já temos distanciamento para a refletir. À direita, o auditório, habitado por Manel Cruz na inauguração e semanas depois pisado por Luca Argel e Ana Deus, mas também por representantes de associações locais. À esquerda, uma sala expositiva com o resultado da Mostra de Cinema de Animação e com os contributos de estudantes marcoenses. 

Subimos. Uma nova biblioteca com um espaço dedicado à infância, janelas rasgadas para estudar ou trabalhar com vista para as montanhas. “Fazia-me falta um espaço para trabalhar e estudar no tempo de faculdade. Como agora vou ter de voltar a viver no Marco, sei que vou ter para onde ir. Com isto quero dizer que uma coisa tão pequena como ter um bom espaço de biblioteca faz o ‘voltar ao Marco’ algo menos sofrível. Associamos a este regresso ‘à terrinha’ que não se interessa pela cultura um pesadelo, mas se realmente nos propuserem espaços e atividades que contrariem isso, voltar não custa tanto”, diz-nos Inês Vasconcelos, de 24 anos, que está neste momento a terminar o mestrado em Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.

Gabriel Carvalho, Adjunto da Presidência, conta ao Gerador que o projeto de um centro cultural transitou do mandato anterior para o atual, presidido por Cristina Vieira. No plano inicial, o equipamento contemplava uma biblioteca, um auditório para conferências, mas “não mais do que isso”. “Olhando para aquele edifício, mas olhando também para o concelho e aquilo que era possível oferecer aos marcoenses, o executivo achou que não era suficiente, que não satisfazia. O Marco de Canaveses precisa de mais, os marcoenses precisam e merecem outro tipo de valências, merecem outro tipo de acesso à cultura, daí surgir um investimento que obrigou a uma alteração de um procedimento concursal para readaptar sobretudo o auditório com novas valências”, contextualiza Gabriel.

O edifício não se criou de raiz, já existia, e o resultado final assenta nesse espaço pré-existente e nas suas características. O Adjunto da Presidência explica que “não foi possível criar um auditório com mais lugares” nem “um palco maior do que o que lá está”, mas garante que a programação está a ser pensada em torno das características do espaço. Como exemplo traz para a conversa a atenção que darão ao “cinema de autor, ao estilo cineclube”. A dimensão da sala tem proporcionado concertos mais intimistas, como aconteceu desde logo na inauguração. Além deste cuidado existir no que toca à dimensão, existe também uma preocupação para que a programação seja eclética e chegue a diferentes públicos. O objetivo é chegar ao maior número de pessoas possível, “inclusive as pessoas que vivem em meios mais rurais dentro do concelho”, refere Rita Guimarães, a programadora.

Uma das primeiras peças a pisar o palco do Emergente foi "Dama Pé de Mim"

Nesta fase inicial, o Emergente ainda não fez um estudo de públicos formal, mas tem vindo a estabelecer diálogos com os cidadãos. “Tentámos, antes de mais, perceber a sensibilidade do público, tentar perceber o que é que as pessoas ambicionam para a cultura, o que é que procuram de novo. Por outro lado, tentámos perceber como é que funciona o mecanismo cultural do Marco de Canaveses, o que é que as associações estão a fazer, do que é que precisam e o que é que procuram. Tentou-se criar algo a partir disto”, diz Gabriel Carvalho. E para já, todos os bilhetes têm sido gratuitos. 

Quiseram marcar essa abertura e a tentativa de chegar a diferentes públicos desde a inauguração. Num dia, a  Orquestra do Norte, “que é a Orquestra Regional da região e que vai a determinado tipo de público que aprecia a sua música”. No dia seguinte, o concerto do Manel Cruz, “que tem um público jovem que gosta de música alternativa, gosta de poesia, tem algumas referências”. A sala esteve cheia nos dois dias. 

Um equipamento para os munícipes (mas não só)

Rita Guimarães, programadora e gestora cultural, é natural do Porto e chegou ao Marco de Canaveses através de um concurso público. “Houve um concurso para gestão cultural, eu concorri, fiquei, e confesso que foi um enorme desafio quando percebi que não era só um, mas que teremos também o Museu Carmen Miranda  — que vai surgir em breve —, e há que dar resposta a toda esta logística do que é pensar em espaços que estão a inaugurar e que devem crescer bem. Mas se isto tudo correr bem, o município vai ter de abrir mais concursos porque isto tudo vai correr tão bem que vamos precisar de mais pessoas para trabalhar”, partilha entre risos. 

Com formação em Antropologia, Rita traz uma visão de fora. Até agora, conseguiu perceber que o Marco de Canaveses  “tem uma diversidade enorme de públicos” e que será “complexo dar resposta a todos” — embora ache que é nesse sentido que têm estado a trabalhar. “No outro dia, com o Teatro de Montemuro, percebi que pessoas vindas de lugares mais pequenos e mais rurais do concelho estavam presentes para ver o espetáculo. Foi muito bom ver chegar pessoas vindas de sítios que eu poderia achar que não se iam deslocar ao Emergente. Estavam lá pessoas que notoriamente vinham de sítios mais pequenos, mais rurais. E eu acho que é delicado, é preciso responder a estas várias vozes, mas o objetivo é ir tentando cumprir todas estas camadas que o Marco cobre. Com certeza não vamos corresponder de forma igual, nem a todos os gostos, mas é ir tentando”, partilha Rita. 

Apesar de não ser marcoense, a programadora acredita que este novo centro cultural é uma oportunidade para “perceber os objetivos que se pretende nas políticas atuais do Marco de Canaveses em relação à cultura”. “Quando um lugar como este nasce, exige-se este tipo de análise mais profunda”, refere, sublinhando a importância de um estudo mais aprofundado que poderá vir a ser feito. “Se calhar, até agora, o município tinha esta vontade de mudar um bocadinho o rumo e estes equipamentos são essenciais para se mudar um pouco o rumo das políticas culturais locais. Ainda no outro dia, no concerto da Ana Deus e do Luca Argel, de repente estavam pessoas marcoenses, mas também havia muita gente de fora, que veio de propósito de Amarante, do Porto, e isto é importantíssimo para a cidade. Mesmo em termos de desenvolvimento económico, turístico, para a restauração. É mesmo muito positivo”, sugere. 

Sendo este um equipamento municipal, tanto Rita como Gabriel acreditam que deve servir as necessidades dos munícipes em vários sentidos. A programadora aponta que “desde que o Centro Cultural Emergente abriu, tem havido uma procura muito grande por parte das entidades locais” (e que não são poucas as associações locais ligadas, de alguma forma, à cultura). “Nós temos tentado dar essa resposta porque sentimos mesmo que é um espaço que servirá em primeiro lugar para que estas entidades possam finalmente apresentar os seus espetáculos e atuações. Ao mesmo tempo, é muito importante pensar que é bom trazer coisas externas, novas, e fazer esse equilíbrio precisamente de tentar servir um pouco diversas camadas de público que existem, os diversos gostos; é muito desafiante”, continua. 

O Emergente tem criado pontes com as escolas e as associações locais

Neste momento, o Emergente já estabeleceu três protocolos com associações que fazem teatro e que o querem apresentar neste palco: a Artâmega, o Grupo de Teatro da Universidade Sénior e o GRUTA CCL - Grupo de Teatro Amador do Centro Cultural da. Livração. Segundo o Adjunto da Presidência, “o município atribuiu um apoio financeiro para estas entidades fazerem pelo menos três apresentações em três sítios distintos do concelho”, o que lhes permitiu “ter uma programação de teatro anual, levar o teatro a todo o concelho, e ainda tornar possível estas entidades apresentarem teatro de qualidade, cada vez mais profissional”. “Puderam contratar encenadores profissionais, puderam capacitar-se. Isto é importante também para eles. E é importante para quem vê, porque não é só aqui no centro que estas peças vão ser apresentadas. O que pedíamos era que fizessem pelo menos três apresentações em três sítios distintos e, se possível, as três peças não coincidirem no mesmo sítio, precisamente para chegar a todo lado. Mas eles foram mais longe, fizeram mais do que três apresentações, o que foi extraordinário porque permitiu o acesso a muita gente. E no fundo também se quer isso no Emergente: que surjam propostas de criação novas que possam ser apresentadas ali, mas também fora.”

Gabriel quer deixar claro que “é preciso permitir que os marcoenses possam ter acesso a outras formas de cultura que até aqui não tinham, e em boas condições”. Porque também é importante “olharmos para nós”, mas “o que vem de fora pode e deve ser integrado na nossa cultura”, já que “é isso que nos permite ter uma visão, ter mundividência, conhecer”. “É isso que nos dá mais ferramentas culturais, e não só, para termos bem estar, para estarmos melhor na nossa carreira, na nossa vida pessoal. E é preciso ter essas referências exteriores, daí pensarmos do concelho para o concelho, mas também de fora para o concelho”.

Um museu que está por vir 

Este pensamento de dentro para dentro, e de dentro para fora, vai estender-se em breve ao museu. “O Museu Carmen Miranda será um museu da artista, que é uma referência do Marco de Canaveses, que nasceu aqui e esteve pouco tempo cá, mas que tem uma projeção internacional, que é sempre necessário. E julgo que é positivo aproveitá-la. Já existia o Museu Carmen Miranda, era muito pequeno e transformaram-se aqueles dois espaços, a biblioteca e o museu, acrescentou-se mais um corpo e sairá dali um museu novo, que vai refletir precisamente o que foi a artista, o que foi o mundo artístico do tempo dela, a importância dela na história da música, na história do cinema e, por outro lado, tenta-se compreender o fenómeno da emigração”, conta Gabriel.  

Para Ana Rita Carneiro, coordenadora do departamento de Arte e Cultura da ZORA, movimento associativo de jovens do Marco de Canaveses, e estudante do mestrado em Estudos Museológicos e Curadoriais na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, acredita que os dois equipamentos “são a concretização de uma necessidade e de uma vontade muito latente na cidade de Marco de Canaveses”. “Estes edifícios vêm suprir essas necessidades, mas também servir de ferramenta para os indivíduos que querem ver a cultura mais desenvolvida na cidade e para a sociedade coletiva, nomeadamente as associações de cariz cultural que podem utilizar estes edifícios e respetivas infra-estruturas para vir concretizar os seus projetos e contribuírem assim para a dinamização cultural da região”. 

Na linha do que Gabriel tinha dito, Rita Guimarães conta que “a questão da emigração é muito importante, e vai ser um ponto forte do discurso expositivo, mas o museu gostaria de ter também uma parte dedicada ao lado mais etnográfico do concelho”. Apesar de haver pouco que possam revelar, para já, garantem que “vai haver uma vontade de estabelecer algum tipo de programação que ligue o Museu Carmen Miranda, ainda por abrir, e o Centro Cultural Emergente”. A expectativa já é grande. 

Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia do Centro Cultural Emergente