A refeição da Noite de Natal já teve em tempos contornos mágicos, associados a uma época onde a Igreja e os seus cultos faziam parte integrante da mitologia natalícia.

Pelo menos para os católicos... 

Ia-se à Missa do Galo - que começava algures entre as 21,30h e as 23,00h, conforme as paróquias. Deixava-se a mesa já posta com os doces da quadra e, na cozinha, ficava o bacalhau de cura amarela já meio cozido com as couves pencas e as batatas, tudo abafado em água quente numas panelas rodeadas de cobertores de papa ou de jornais velhos.

Quando se regressava da Igreja ia-se para a mesa e só depois da refeição se abriam os presentes dos adultos.

Os das crianças seriam descobertos lá mais pela manhãzinha.

Antes da "deita", lá para as 2 ou 3 da manhã, ainda era costume beber um Porto Vintage ou um Whisky velho.

Os fritos de Natal dominavam a sala de jantar: sonhos de abóbora ou de laranja, amassados ou não com aguardente, filhoses, coscorões, rabanadas, azevias de amêndoa ou gila e outros que de certeza por aí existirão.

Por acaso embirro com eles... Aguento um ou dois sonhos de abóbora quando estão acabados de fazer e rescendem ainda ao bom bagaço da "amassadura". Mas isso será o mais perto que me podem encontrar da travessa dos ditos "fritos".

Acho que esta embirração provém do facto de muitas noites de 23 de dezembro ter sido obrigado a ajudar a minha mulher na cozinha a estender, amassar e fritar estas coisas. Só o cheiro da canela e do açúcar no ar me enjoam ainda hoje. Para não falar da fritura propriamente dita, que enchia a cozinha de aromas tenebrosos.


Mesmo com a animação de primos e primas, sogra e sogro, cunhados e etc… verdade seja dita que se estava sempre à espera do dia seguinte para meter o dente em coisas mais substantivas, como o borrego ou o peru engordado na quinta e lá mesmo embebedado e morto, as ervas (esparregado grosso de nabiças) e o magnífico queijo da serra da mesa de Natal, especialmente escolhido pelo pastor que arrendava o pasto e que nunca tinha menos de 2 kg.

Começava o Dia de Natal com mais outra missa pela manhã, e vinha-se depois tratar do almocinho. Para quem se deitou tarde, almoçava-se "roupa velha " feita com as sobras do bacalhau e das couves da véspera.

Ao jantar (ou ao almoço dos bem dormidos) a refeição variava com a zona do nosso país: Cabrito com batatinhas pequenas, no Norte e Centro; Lombo de Porco ou Caça, no Alentejo e Sul. E o tal Perú que se introduziu nos nossos hábitos alimentares a partir do Século XIX, um pouco por todo o país.

Em Trás-os-Montes era tradição fazer neste dia o Cozido Rico, onde entravam todas as espécies de carnes de vaca e de porco, frescas ou fumadas. Mas também - o que é curioso - em certas localidades algarvias este cozido tinha igualmente presença.

Sobremesas tradicionais eram o leite creme queimado no fogão com ferro em brasa e o arroz-doce, numas terras sem ovos, para comer junto com o leite-creme, noutras com as gemas incorporadas. Na Beira Alta o pão de ló quente do forno servia de acompanhamento ao queijo da serra de entorna.

Mas o mais importante era que nesse almoço do dia 25 as travessas dos "fritinhos", já bastante abusadas da véspera, não vinham para a mesa. O alívio que isso me dava...

O vinho que bebíamos na consoada e no dia de Natal era sempre escolhido com carinho. De preferência em garrafas de litro e meio, para acomodar as 11 ou 12 pessoas que sentavam à mesa.

Se fosse hoje poderia sugerir um Redoma de 2017 (Douro) em garrafa Magnum, por cerca de 70 euros, ou um Quinta da Leda de 2017 (outro Douro em Magnum) por mais ou menos 80 euros.

Feliz Natal para todos!

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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