Natal, o que é Natal?
Uma celebração do nascimento de Cristo?
Uma desculpa para recebermos prendas?
Uma forma de ter a família reunida?

Pode ser e é muita coisa, mas a única certeza que eu tenho é que essa cena é fixe. De todas as celebrações que existem durante o ano, digo, com toda a certeza, que o Natal é a que mais gosto. Comemos sem pensar muito, gastamos sem pensar muito e, acima de tudo, estamos todos num ambiente de peace in love.

O espírito natalício realmente existe e vejo que até a pessoa mais fria e sem sentimentos entra nesse espírito. Até deseja um “FELIZ NATAL”. Aconteceu-me ontem em Chelas, por acaso. Quando fui pai ou quando faço anos, não me recordo desta personagem me ter dado tanto love como ontem a desejar-me Feliz Natal.

Vejo muitas pessoas a falar do consumismo exagerado nesta altura, seja na alimentação ou nos presentes, mas é apenas uma vez no ano. Considero-me uma pessoa consciente e não gosto muito de ir em modas ou seguir manipulações capitalistas, mas devo dizer que, no Natal, é diferente, e o sentimento de partilha e de querer ver os outros felizes não tem preço.

A ignorância que falei noutro texto publicado no Gerador, aqui tem de estar de serviço 24/7. É um bocado ou muito hipócrita da minha parte, mas é a realidade e sou o primeiro a admiti-lo. Compro comida a mais, compro prendas a mais, bebo e como a mais, mas quero que fique bem claro que gostaria de ser diferente e ter um Natal mais moderado e que fosse abençoado apenas pelo espírito do AMOR.

Por outro lado, acredito que, para muitas famílias, seja das piores alturas do ano. Ainda por cima, em tempos de pandemia, o caos está instalado no mundo e muitas famílias que, em tempos, eram abastadas ou viviam uma vida tranquila, estão neste momento a viver uma realidade diferente que é não poder ter o Natal que já tiveram por motivos económicos, e essa realidade pode ser muito dura.

Eu cresci numa barraca, um bairro chamado Azinhaga das Teresinhas, mesmo em frente ao Colégio Valsassina. Tinha um pequeno grupo de amigos com quem fazia troca de prendas e recordo-me que adorava ser eu a montar a árvore de Natal. Passava o Natal só com os meus Pais e, mesmo naquele ambiente de pobreza e se calhar poucas prendas, sei que era super feliz e o sentimento estava lá como está agora, que tenho a árvore cheia de presentes para a minha família e sei que a mesa vai estar farta, mas acredito que o feeling fosse diferente se fosse ao contrário.

“DEVE SER FÁCIL LIDAR COM TEMPOS DIFÍCEIS, JÁ OS ESTIVESTE. E DEVE SER DIFÍCIL LIDAR COM TEMPOS DIFÍCEIS SE NUNCA OS TIVESTE,”

Outra dificuldade nestes tempos é o risco de transmissão do vírus, casas cheias, abraços e beijinhos e está o caos instalado. Este ano viu-se uma maior preocupação nas pessoas, os centros e farmácias estiveram completamente cheios e muitas pessoas tiveram a preocupação de se reunir com os seus entes queridos, sabendo que estavam negativos, mas mesmo assim, sabemos que os casos vão aumentar, algo expectável, digo eu.

Com este texto, queria deixar uma mensagem positiva e contaminar todos com o espírito de Natal. Ele não vai terminar como eu queria, porque, durante o dia de hoje (dia 24), soube da morte de um jovem amigo do meu filho - o Francisco saiu para se divertir e foi morto em Lisboa, logo neste dia tão importante para a família. A vibe, sinceramente, não é a mesma que eu tinha no início do texto e a noite de Natal será, com toda a certeza, diferente.

Um jovem cheio de energia, cheio de vida pela frente, morreu.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas. Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Pedro Vaccaro
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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