Os NFTs entraram em cena com estrondo após a venda, por 60 milhões de euros, de uma obra de arte digital. É certo que o montante, absurdo, falou mais alto do que a tecnologia e as suas implicações. Mas, são estas que realmente devem interessar aos artistas e às artes criativas.

 Os NFTs são, na verdade, um derivado do blockchain. Sem querer entrar na descrição técnica, o blockchain é um registo digital numa sucessão de blocos invioláveis e descentralizados que garante uma absoluta segurança dos dados e da sua propriedade. Criado por volta de 2008, foi inicialmente aplicado nas criptomoedas, para assegurar a sua fiabilidade, mas desde então tem mostrado ser vantajoso em muitos outros tipos de registos e transações. Chegou à arte em 2014. Curiosamente, como um projeto artístico e não de mercado.

Os NFTs resolvem sobretudo o problema da unicidade do objeto. A arte digital que circula na Internet é, pela sua natureza, facilmente copiada. Daí também o pouco valor atribuído e, no contexto da criação artística, o baixo interesse que suscita. Na verdade, até hoje, a arte digital convencional, ou seja, a mera produção de imagens através de programas do tipo Photoshop, tem sido vista como uma arte menor. Os NFTs, vieram alterar esta realidade ao equiparar as obras de arte digital às obras físicas. Uma vez individualizada pelo NFT a obra digital torna-se única, tal como uma pintura de Van Gogh e é irreproduzível devido ao protocolo blockchain. Ora isto interessa muito aos colecionadores e a quem pretende criar uma coleção original, como é o caso dos Museus.

Apesar da loucura mercantil e especulativa que depressa suscitou, do ponto de vista da criatividade artística, a dinâmica dos NFTs abre novas possibilidades e implica um verdadeiro upgrade da arte digital. Limitada a pequenas manipulações de imagens e efeitos predeterminados, a arte digital tem sido principalmente uma forma de ilustração, frequentemente pouco informada sobre a própria história da arte. Mas, agora, tendo de competir num ambiente tecnológico sofisticado a arte digital é obrigada a evoluir, muito e rapidamente. Os NFTs abrem um novo campo para a imaginação artística.

Por outro lado, esta tecnologia vem reanimar a forma de divulgar a arte já que ao contrário das velhas Galerias de arte, fechadas sobre a sua pequena bolha, as plataformas NFT são abertas e dinâmicas.

Embora desencadeada pelo dinheiro e pela especulação, esta nova tecnologia vai conduzir a uma aceleração da criatividade artística em ambiente digital. E isso é muito positivo.

-Sobre Leonel Moura-

Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.

Texto de Leonel Moura
Fotografia Bebot
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