O trajecto é o que já fiz tantas vezes. 

De casa ao trabalho. Se vou de carro, opto por fazer sempre este percurso. Já o conheço, sinto que o domino, o que permite que chegue mais cedo ao meu destino.

A manhã ainda estava fresca, mas sabia que seria uma sensação passageira, quando despertei vi no telemóvel que seria um dos dias mais quentes do ano, o termómetro passaria dos 40 graus. 

Estava tranquila. Era domingo, um fim-de-semana de trabalho, depois de tantos meses sem esta possibilidade, apesar de ter trabalhado até ao anoitecer do dia anterior, a noite tinha sido descansada. É bom dormir na minha cama depois de dias intensos de trabalho. 

Calma. As ruas estavam calmas. Na verdade, as ruas estavam vazias, era domingo de manhã e dia feriado, não eram muitas as pessoas, como eu, que tinham de se movimentar.

Quase parecia uma manhã de confinamento. Acordei animada para mais um dia de programação. Como despertei cedo, ainda não eram 7 horas, tive tempo para tomar o pequeno-almoço calmamente, e o momento de beber café foi passado com o pequeno Elias, o gato, entre brincadeiras, festas e dentadas.

Saí. 

Optei por ir de carro.

Sentia-me segura e protegida. O que me poderia acontecer neste caminho que conheço, onde agora ninguém caminha ou conduz?

Era um daqueles momentos em que parece que estamos apenas nós a caminhar para um lugar que não sabemos qual é.

Eu seguia. Mas o tempo parou. Parou-me.

Os segundos senti-os como os mais rápidos de sempre, mas em simultâneo conseguiram ser longuíssimos... 

Sensação estranha, esta que parece que algo nos escapa por entre os dedos, mas que depois tem a capacidade de ser infinita. Ainda duram estes segundos, apesar de já se terem passado algumas semanas.

Não estava sozinha. 

O caminho que fazia cruzou-se com o de outra pessoa, que se mostrou com mais pressa do que eu, e que avançou em vez de parar.

Este não se limitou a cruzar o meu caminho mas atravessou-o. 

Foi um estrondo! Uma mancha branca a vir contra mim! Que embateu em mim, no meu carro, e que me atirou para muitos metros dali, distantes do que seria o meu percurso. Que me desviou do meu dia. Que me retirou parte da liberdade que tinha até àqueles segundos.

Que me mudou!

Não me matou.

A mim não me matou. 

A pressa com que vivemos nos dias de hoje leva-nos a menosprezar a lógica, o tempo da travessia, a cedência de passagem, os cruzamentos e o respeito pelos seus pressupostos, e pelo outro que neles se cruzam. 

Embatemos uns nos outros sem nos apercebemos das consequências destes choques.

Somos muitos a caminhar na mesma direcção, em direcções opostas, em todas as direcções, mas as estradas são as mesmas. 

Aprendemos a ler e compreender os mesmos códigos para que em diferentes lugares e situações tenhamos o mesmo entendimento, mas nem sempre os temos em consideração. Estamos nos mesmos sítios, vemos o mesmo código, sabemos o seu significado mas avançamos e arriscamos por iniciativa própria. Não medimos os actos. As consequências são sentidas por nós, pelos outros, não tendo, por vezes, a reflexão necessária.

Estamos habituados a bater, ser batidos e a continuar.

Os segundos que nos obrigam a parar não têm a força suficiente para nos acalmar nas horas seguintes. 

Continuamos a avançar com pressa, sem olhar para todas as direcções, nem sempre cedendo passagem a quem se cruza por nós limitando-nos a atravessá-los, a mudar-lhes o dia, sem parar…

A prioridade que tinha cedeu-me a passagem que o outro transgrediu. 

A liberdade que tinha foi abalroada pela pressa que o outro tinha de passar, pela pressa que o outro tinha de chegar.

Parou-me. Parou-o. Parou-nos.

Mudou-me. Mudou-o? Mudou-nos?

A mim não me matou.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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