Atriz, encenadora e formadora, Sónia Barbosa assumiu em 2018 a coordenação do projeto “Noite Fora” no Teatro Viriato. A Artista Associada da casa de Viseu tem trabalhado, ao longo de quase 20 anos, em diversos contextos e com inúmeros artistas entre Portugal e Itália, onde viveu durante sete anos a propósito de um projeto do Teatro Viriato.

“Noite Fora” nasceu, assim, da “relação de partilha e escuta” que mantém com o Teatro desde 2002. A sua preocupação com as relações e a comunicação entre espetáculo e espectador, culminaram naquele que é o “Noite Fora – Leituras e Conversas sobre Teatro” –  tempo de pausa, reflexão e partilha de textos e autores, num ambiente informal e de proximidade com o grupo de participantes. Se no primeiro ano as sessões tinham como temática os criadores “locais”, no segundo ano do projeto, Sónia Barbosa e o Teatro Viriato, procuraram dar destaque a artistas mulheres. Este ano, de 2020, a coordenação do projeto decidiu “dar enfoque a artistas com um assumido engajamento político e social no seu trabalho”, tendo tido como convidados Jorge Andrade e Alex Cassal. Até ao fim do ano, o Teatro Viriato apresentará mais uma sessão do “Noite Fora”, agendada para outubro.

Em entrevista ao Gerador, Sónia Barbosa fala sobre a história do surgimento deste projeto e da relação de proximidade que mantém com o Teatro, bem como da possibilidade de “novas propostas” e “novas soluções” para o futuro do “Noite Fora”.

Gerador (G.) – Antes de explorarmos o projeto que a Sónica coordena no Teatro Viriato, como surgiu a relação que mantém há já alguns anos com o Teatro? O que fez a Sónia tornar-se um Artista Associado?
Sónia Barbosa (S.B) – Eu cheguei a Viseu em 2009, vinda de Roma, onde vivi durante cerca de 7 anos, a convite da Rafaela Santos, para orientar um curso de iniciação ao teatro para a comunidade, dirigido pelo Teatro Viriato. A relação começou aí. Depois acabei por me mudar para cá – a minha vida pessoal assim o determinou, foi cá que conheci o meu companheiro e pai dos meus filhos. E como a primeira relação profissional aqui em Viseu foi com o Teatro Viriato, continuei a desenvolvê-la, fazendo propostas; e por outro lado recebendo também convites para projetos organizados pelo Teatro. Foi um percurso natural que culminou com a “oficialização” desta relação quando o Teatro me convidou, juntamente com outros artistas de Viseu que também mantinham uma proximidade profissional com o Teatro, para assumir o papel de Artista Associada. Esta relação tem sido fundamental no meu percurso profissional desde que regressei a Portugal: apesar de não ser exclusiva nem de dependência, permite um espaço de escuta, de propostas, de confiança, de pensamento a médio/longo prazo, uma base para imaginar projetos futuros. Um teatro que é um pouco a minha “casa teatral”. 

(G.) – O projeto Noite Fora já estava na gaveta à espera de uma oportunidade para ser explorado e desenvolvido, ou bem pelo contrário, surgiu em parceria com o Teatro Viriato? Como foi o processo de pensar o formato e o arranque do projeto? 
(S.B) – O Noite Fora surgiu literalmente dessa relação de partilha e escuta que mantenho com o Teatro, muito especificamente, com a Paula Garcia (ex-diretora artística e de programação). Nesses encontros onde se propunham ideias, se lançavam desafios, se faziam propostas, em conversa com a Paula, eu falava bastante sobre a minha vontade de desenvolver algo que tivesse a ver com a leitura de textos teatrais (sempre tive muito interesse pela leitura e divulgação de textos), e ela a certa altura desafiou-me para imaginar um formato de encontros regulares com esse foco. E a mim, para além da leitura encenada, interessava-me, e continua a interessar-me, encontrar formas de proporcionar a reflexão coletiva, o debate, a partilha de ideias. E não só entre os artistas – isso acontece também inevitavelmente, mas com os espectadores, com a comunidade, com as pessoas que, ocupando um outro papel, o de espectador, têm também algo a dizer sobre a cultura, o acesso e fruição da obra artística. Faz muito sentido para mim criar momentos de bilateralidade entre o artista/criador e as pessoas que vão ao encontro da criação. O formato extremamente informal e acolhedor, na Sala de Ensaios, com um grupo relativamente pequeno (30 a 40 pessoas), num dispositivo de grande proximidade e ainda com o momento do copo de vinho e do chazinho durante a sessão, foi pensado exatamente para permitir que essa aproximação pudesse sair duma zona formal de “conversa com o público” para uma zona de quase intimidade, onde essa partilha possa ser mais significativa. Não é fácil chegarmos lá, a essa atmosfera, mas continuo a sentir que é importante investir nessa direção. Para além disto havia mais duas linhas de pensamento: o envolvimento de intérpretes profissionais que estivessem a viver aqui no nosso “território”, no sentido de fomentar a ideia de profissionalização da atividade artística local; e o envolvimento de artistas/encenadores/criadores sempre diferentes para cada sessão que pudessem proporcionar um outro nível de encontro e descoberta entre os próprios artistas envolvidos e entre o Teatro e os artistas. Começámos com criadores “locais” (no primeiro ano as sessões foram dirigidas pelo Jorge Fraga, pelo Guilherme Gomes e por mim mesma), para depois começarmos a pensar de modo mais abrangente, nacional e internacional.

(G.) – Ao longo dos últimos dois anos têm sido várias as sessões e os convidados com quem marca encontro. Como é que se cria uma ligação com os diferentes convidados e público todas as sessões? 
(S.B) – Temos tido convidados muito diferentes e muito interessantes ao longo da nossa breve história. No segundo ano decidimos, eu em conjunto com a Paula Garcia, (o projeto tem tido sempre essa base de colaboração e troca de ideias com o Teatro Viriato) dar destaque a artistas mulheres. Tivemos a Sara Barros Leitão, a Patrícia Portela (a atual diretora artística e de programação) e a Paula Diogo. E neste terceiro ano de edição, decidimos dar enfoque a artistas com um assumido engajamento político e social no seu trabalho. O convidado para a primeira sessão foi o Jorge Andrade da mala voadora (sessão que acabou por sofrer alterações radicais devido à pandemia), e o segundo foi o Alex Cassal, dramaturgo e encenador brasileiro a viver agora em Portugal. E confesso que todos eles têm proporcionado encontros muito ricos, do ponto de vista artístico com a equipa envolvida para cada leitura, e também com os espectadores, através das propostas que trazem e que nos têm suscitado conversas e discussões bastante interessantes, com textos que vão de Heiner Müller a Ésquilo, passando por Eduarda Dionísio ou Harold Pinter.

(G.) – Para quem nunca marcou presença em nenhuma das sessões, a Sónia prepara e orienta a conversa, estimulando a partilha de ligações emocionais e troca de ideias relacionadas com o texto e a temática de cada sessão, ou as conversas e os momentos de partilha fluem no momento? 
(S.B) – Sim, eu preparo minimamente a conversa, ou melhor, preparo um “desbloqueador” de conversa, fazendo uma breve introdução e começando a discussão com o artista convidado através de algumas perguntas ou curiosidades ou comentários sobre os temas presentes. Mas tento conduzir a situação para a tal bilateralidade em que os espectadores façam efetivamente parte dessa conversa. O mais interessante é quando a conversa flui e as pessoas começam a exprimir-se mais livremente e a fazer associações com as suas vidas e as suas experiências.

(G.) – Este ano tem sido particularmente difícil para o setor cultural. Contudo, este soube reinventar-se e procurar alternativas, levando a cultura até às nossas casas. Foi o que a Sónia e o Teatro Viriato fizeram em março, quando migraram a sessão para a página do Facebook do Teatro. Como correu a experiência? E qual foi o feedback do público?
(S.B) – A sessão de março foi de facto muito particular. Aconteceu exatamente na noite em que o Estado de Emergência foi decretado. E confesso que nesses primeiros dias estávamos, como ainda estamos, todos muito confusos, incertos, hesitantes, angustiados… Não sabíamos o que ia acontecer, não percebíamos bem a dimensão dos acontecimentos… Essa sessão de março foi mesmo um “ato simbólico”. Não houve tempo para a preparar, desenvolver e pensar profundamente. Entre questões técnicas, humanas, logísticas, e tantas outras, tudo foi decidido principalmente com base na vontade, minha e da Patrícia Portela, que tinha acabado de assumir a direção do Teatro, de manter a relação com os nossos espectadores, de continuarmos, dentro do possível, presentes e atuantes neste momento que atravessamos. Por isso a sessão acabou por ser uma espécie de viagem minha, muito pessoal e subjetiva, pela estrada até então percorrida pelo Noite Fora. As pessoas reagiram bem, penso, mas também foi complicado, parece-me, para as pessoas em geral acompanharem todas as solicitações online que de repente surgiram. Mas esse já é outro tema. 

(G.) – O online permite alcançar outros públicos e dar uma visibilidade ao projeto mais alargada, territorialmente. Ponderam recorrer a este formato online mais vezes em futuras sessões? Ou, pelo contrário, acha que a experiência se perde com a falta de proximidade física e diálogo frente-a-frente?
(S.B) – Esse tema é extremamente complexo e cheio de camadas… e a resposta penso que também o deve ser. Se, por um lado, o online nos permite exatamente esse alargamento de perspectiva, a nível geográfico e também a nível de visibilidade, e é verdade que com a Patrícia Portela já conversei sobre as possibilidades que isso nos pode trazer, como convidar artistas de outros países e até de outros continentes para realizarem um Noite Fora meio digital/meio presencial, por exemplo; mas por outro lado, a experiência presencial é fundamental no teatro. E é importante neste momento de passagem, não a desvalorizar, não a banalizar: um espectáculo que se processe através dos meios digitais não tem a característica que eu considero basilar para o acontecimento teatral, como já Peter Brook dizia: o ator (ou atores), o espaço e o espectador, simultaneamente no aqui e agora. O que não quer dizer que não se possam fazer adaptações ao meio digital e ele não possa trazer muitas vantagens e possibilidades novas. Mas é importante salvaguardar essa vertente do encontro ao vivo – até porque estou certa que no futuro esse tipo de encontro vai fazer muita falta!

(G.) – Em 2018, numa das sessões, a Sónia assumiu o papel de encenadora convidada em homenagem ao ator e dramaturgo Sam Shepard. Voltaremos a ver a Sónia neste papel? Há espaço para novos modelos e formatos no Noite Fora: Leitura e Conversas sobre Teatro? O que podemos esperar ainda daqui até ao fim do ano?
(S.B) – Como disse antes, o que nos parece mais interessante neste formato é a possibilidade de novos encontros, de descoberta e de renovação. Por isso acho que não faz muito sentido eu voltar a dirigir uma sessão. É mais interessante continuar a promover encontros com pessoas muito diferentes, propostas diferentes, etc. Até porque, no conceito do Noite Fora, o artista convidado tem toda a liberdade para escolher o texto que pretende partilhar e também o dispositivo cénico para a leitura encenada, dentro da simplicidade e do pouco tempo disponível que temos em cada encontro. E essa contínua abertura a novas propostas, novas soluções, é uma das coisas mais interessantes neste projeto. Espero continuar nesta direção de experimentação, liberdade e também curiosidade pelo outro (pelos outros). Para este ano ainda teremos mais uma sessão em outubro. Mas não avanço ainda mais notícias uma vez que estamos exactamente por estes dias, eu e a Patrícia Portela, em conversa sobre o futuro do Noite Fora e outros projetos futuros de colaboração.

Entrevista de Bárbara Dixe Ramos
Fotografia Carlos Fernandes