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Nos olhos de cravo

Nas Gargantas Soltas de hoje, Shahd Wadi nos fala sobre a força nos olhos de um corpo palestiniano.

Opinião de Shahd Wadi

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“Eu sou a terra dentro de um corpo
Não passarão!”

Mahmoud Darwish

Num corpo palestiniano mora um homem de Gaza. É sentado, mas é à força. As suas mãos, atadas, perderam o movimento. Não estão atrás da cadeira, mas à volta da sua própria lombar, tornando impossível o encontro das suas costas com o encosto. Os seus pulsos estão ligados um ao outro com que aparenta ser uma fita-cola preta. Não é castanha, mas também não chega a ser algemas.  Para evitar qualquer oportunidade de conforto, os seus punhos não são postos ao centro das vértebras, mas inclinados, ficando na parte lateral da sua cintura. Um dos braços é obrigado a esticar-se para ir ao encontro do outro, ficando ambos do lado da máquina fotográfica que regista o momento. 

O sangue está a escorregar da coxa, colando-se na cadeira. É o único elemento que está a fluir-se e a descansar dentro da sua abundância.  Os seus pés descalços aparentam ter passado por uma dor. Um deles está ligeiramente levantado do chão, como se estivesse prestes a levantar voo, a caminho da liberdade. O moreno radiante do corpo do homem palestiniano está praticamente todo visível. Está em contraste com o azul-mar e amarelo-margarida da parede atrás. Os contornos dos seus ombros levantados são bem visíveis, como se tivessem sido acabados de ser desenhados com uma caneta fina cuja tinta ainda não secou. Nada parece ser uma opção estética, mas antes a única possível: não é fácil domar este corpo, diz a fotografia.  

Assim que olho para o lado direito da imagem, ela apaga-se. Desaparece o mar, a margarida, o moreno e os contornos. Está lá na fotografia um outro ser, mas sem ser, sem sequer estar. É um soldado israelita que nas suas alucinações existe, imaginando controlar este corpo palestiniano, os corpos palestinianos. A ponta do que aparenta ser a sua arma está quase a tocar na perna, sem a conseguir invadir. Jamais. O seu fuzil é como ele, está, mas não é, como uma rajada de vento que já passou. O nunca-ser tem um nome para além de soldado, mas não dura. Não é bem um esbatido verde e não chega a ser sombra. É um ocupante que fracassa em ocupar o próprio corpo que ocupa. Falha até em supor ser o protagonista da imagem por ele espalhada. Ele não é nada mais de um defeito temporário. 

O corpo palestiniano capturado, torturado, atado, ferido, vírgula, vírgula, vírgula, deixa de o ser assim que dirige um olhar na direção do soldado. Nada mais necessita. Um só olho palestiniano de cravo deixa cair pétalas infinitas de um medo eterno num ser armado até aos dentes. Com um alento justo ultrapassam os muros, os bloqueios e todas as fronteiras espinhosas postas por um mundo inteiro. Apenas duas pálpebras palestinianas nada mais. Nada mais que pestanas apontadas a um soldado que faz cair todos os disfarces do exército que se diz o “mais moral” do mundo. Um pestanejo de resistência, perante o qual nenhuma arma, nem sequer o exército, aguenta. 

Nas costas direitas deste corpo um mar de dignidade. No pescoço longo estende a teimosia de nunca desistir de resistir contra a ocupação. Na cabeça erguida nunca adormece o sonho de uma terra livre, porque nesta cara há dois olhos afiados de tanta morte vista. Olhos que atravessam a farda militar do soldado, quebram a cegueira protegida pelos seus óculos militares, estilhaçam o seu capacete que nunca pesa na consciência e furam o seu colete cobarde. Dois olhos que esburacam qualquer tentativa de ocupar aquele corpo palestiniano livre.  

Com o simples olhar deste corpo, jamais atado, apodrece de repente o cadáver vivo de um soldado colonizador.  Continua lá de pé, mas já não está. Como uma erva daninha que secou ao beber a sua própria crueldade, o soldado – que já não é – é forçado a venerar um corpo que carrega a memória herdada de um futuro de uma Palestina livre. Observo a fotografia e aproximo o meu ouvido do som do corpo palestiniano, muito mais que corpo. Escuto atentamente o que sai daquela boca fechada e repito: “sou a terra dentro de um corpo. Não passarão... Não passarão. Não passarão.”

Nota: circulou nos últimos dias uma fotografia de um homem palestiniano ferido, atado e semi despido sentado numa cadeira, a olhar diretamente para um soldado israelita armado que está em pé ao seu lado. Terá sido tirada numa escola em Gaza, segundo fontes locais, tendo o detido sido identificado como Hamza, do bairro de Shujaiyahe. A imagem foi divulgada num vídeo pelo próprio soldado, trazendo à memória as fotografias de tortura perpetuada pelo exército norte americano na prisão de Abu Ghraib, em 2004. O mesmo soldado israelita já tinha partilhado outras imagens parecidas de grupos de pessoas palestinianas obrigadas a despir-se, vendadas e algemadas, provavelmente e apesar de tudo a sonhar com uma Palestina livre.

- Sobre Shahd Wadi -

Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010).  Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua. 

Texto de Shahd Wadi
As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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