The world is a beautiful place
to be born into
if you don’t mind happiness
not always being
so very much fun
if you don’t mind a touch of hell
now and then
just when everything is fine
because even in heaven
they don’t sing
all the time

Lawrence Ferlinghetti

Cada vez mais, somos levados a condensar momentos nas nossas cabeças. Podemos refletir sobre cada acontecimento de forma individual, mas eles continuam a suceder sem que possamos ter um devido momento de pausa, de reflexão. Mas o conhecimento também vive dessa efemeridade.

1.

Há já alguns anos, recordo-me de estar na Ulmeiro, ainda em Benfica, sentado à conversa com o José Antunes Ribeiro, seu mítico editor e livreiro, com quem tive o prazer de ter boas e longas conversas sobre a geração de escritores e artistas que por ali passaram. A certa altura, o ‘Zé’ Ribeiro – como é conhecido – mostrou-me uma foto dele ao lado de Lawrence Ferlinghetti, poeta norte-americano que por ali passou em 1986, quando a editora portuguesa o celebrou com a tradução para português de alguns dos seus poemas.

Por essa altura, era um leitor impressionado dos beats – hoje em dia com menos intensidade – e lembro-me da sensação que tive, de estar perante uma janela que se abriu e que me dava a conhecer uma história que desconhecia. Falar de autores e artistas que me marcam sempre foi um dos meus tópicos de conversa prediletos, confesso. É um exercício por vezes de pura abstração, mas há normalmente um condensar de ideias que sucede, como se estivesse a arrumar em gavetas estórias e pontas soltas de conhecimento que me enriquecem.

2.

Esta semana perdemos Lawrence Ferlinghetti, depois de 101 anos a perscrutar as vozes poéticas dessa América que muito mais frequentemente imaginamos do que realmente vemos.  Foi ele que ajudou a publicar os beats, transformando-se numa espécie de anjo divino que paira sobre as nossas cabeças, abrindo-nos para essa porta indagável de uma geração marcada pelo flagelo social da pós-Segunda Guerra e disposta a levar o sonho utópico da revolução cultural até aos limites dessa criação poética.

A sua capacidade e coragem – a edição de Howl, de Allen Ginsberg, levou-o a tribunal por publicar obscenidades – foi constituindo um legado que com o seu desaparecimento parece findar à frente dos nossos olhos. E mesmo a cidade onde se fixou, São Francisco, com a sua City Light Bookstore, parece morrer no domínio de uma certa imaginação, de uma quase inevitável nostalgia que não volta. Salva-nos a memória e os seus modos de usar.

3.

Levo-me a pensar: a morte de um poeta é sempre um estilhaço, a abertura de uma cratera, a perda essencial de um astro que podemos identificar de forma universal, como se de um guia se tratasse. É uma morte fundacional, a perda de uma raiz profunda. É o tombo da árvore que nos abriga.

As nossas vivências são muitas vezes abrigadas por essas robustas árvores que nos surgem pelo caminho, mas que são também elas efémeras e sensíveis aos ciclos de vida. É por isso que a cultura não pode nunca ser algo estanque. A cultura, nas suas diversas formas, é um elemento estelar da nossa vivência. E, como alguém disse há uns anos, não salva, mas pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.

4.

Pensar, fazer ou, no meu caso, escrever sobre cultura é por isso um profundo exercício de autoanálise, de autocrítica, mas também de permanente abertura ao novo, ao disruptivo. Acredito que esse ‘novo’ não existe pela forma, mas pode existir pela sua energia de mudança. Ferlinghetti percebeu isso ao ler os beats e ao escrever os seus poemas. O objetivo teria de ser, inevitavelmente, o derrube das velhas estruturas, daí a sua poesia como “arte insurgente”, que tira pedras do caminho e que escolhe passagens alternativas.

5.

E não há nada que tenha mais esse carácter disruptivo do que a cultura e as artes. É o lugar da inclusão, do pensamento multiforme, que não vive de dinâmicas rígidas. Molda-se à medida que é construída, tal qual um poema, construído verso sobre verso, onde cada passo dado é o desbravar de um caminho sinuoso e quase sempre obscurecido pela incerteza.

Daí que a morte na cultura possa sempre ser também uma forma de nascimento. A abertura de novas passagens. A chegada a novas paisagens à espera da sua própria claridade. Mas é também o continuar de um caminho, de um testemunho que passa de mão em mão, onde a grande luta é, afinal, contra o esquecimento.

6.

Esta pequena crónica é para aqueles que aqui deixo, mas que levarei sempre comigo. Um bem-haja a todos. Como diria o Céline, estamos “prontos para atravessar os desertos e as ondas, e procurar mundos diferentes noutro lado qualquer”.

-Sobre Ricardo Ramos Gonçalves-

Ricardo Ramos Gonçalves nasceu em Castelo Branco, em 1995, mas é em Lisboa que reside e trabalha atualmente como jornalista no Gerador, plataforma de comunicação na área da cultura que lhe permite estar envolvido em projetos artísticos que escapam às próprias fronteiras do universo da comunicação. É licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Ao longo deste tempo de itinerância entre áreas de estudo – que lhe permitiu viver e estudar por um breve período em Pádua, em Itália –, tem-se dedicado e envolvido sobretudo em iniciativas de âmbito cultural, em especial nos campos da literatura, do cinema e das artes visuais.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Andreia Mayer
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