Em várias das M-Talks 4ALL do Festival Mental que têm estado a ser publicadas diariamente desde Março, tentei perceber junto de convidados mais especialistas se alguma coisa mudou em relação à forma como as “novas” tecnologias são olhadas, pensadas e vividas.

Em edições anteriores do Festival, já incluímos temas como o F.o.M.O. (Fear of Missing out) ou a Ciberdependência nas M-Talks em sala, e é por demais evidente que as tecnologias eram (ou são) apontadas como um factor potente no campo das dependências (jogos online, cybersexting, cibersexo, redes sociais, vidas alternativas, avatares como escapes, entre tantas outras coisas), mas a verdade é que uma parte importante do tratamento da pandemia do Covid-19 têm sido actividades realizadas precisamente através de plataformas de videochat como Teams, Zoom, Duo ou Skype (para mencionar algumas), das redes sociais, em suma, com as “novas” tecnologias.

Torna-se mais evidente no grupo etário infanto-juvenil, dos jovens adultos e adultos onde os conteúdos vistos em monitores, tablets e telemóveis ajudaram a gerir o bem-estar social, psicológico e a proximidade social tão importante durante estes dias que ainda continuam.

Muitos dos que antes da pandemia estavam (legitimamente) preocupados com os danos à saúde mental que estas tecnologias estão a provocar, são os que se tornaram agora entusiastas das mesmas, vendo o que tem sido o seu potencial para manter vivos os laços sociais e garantir que o distanciamento físico não justifique nem signifique o distancamento social – sobre isto já escrevi também.

Entre os adolescentes, os ecrãs podem ser usados de várias formas: para jogar com os amigos, partilhar as suas vidas nas redes sociais, fotografias e vídeos mais ou menos verdadeiros no Instagram, para se encontrarem em salas de chat, ver filmes acompanhados. A sexualidade emergente faz com que também os usem quase compulsivamente para procurar e conhecer novos/novas parceiros/as, num scroll up &down de fotografias até à exaustão. Cada vez mais os jovens vêm o sexting como parte normal do processo, apesar da possibilidade que existe das mensagens e imagens partilhadas estarem à frente dos limites de um mero relacionamento romântico. Neste contexto, é importante que haja mais informação sobre os riscos interpessoais, sociais, legais e até morais sobre o envio de imagens sexuais, nomeadamente envolvendo menores.

Dentro deste contexto, também se incluem os pais que exibem fotos de filhos menores nas redes sociais, tal é o orgulho mascarado com falta de informação em cibersegurança. É uma motivação humana, um imenso orgulho e amor, exuberância compulsiva, que até se compreende mas que deveria ser refreada. Há formas de ocultar as caras dos menores, protegendo-os. Mas pais e familiares promovem a sua exibição, totalmente alheios ao que no futuro pode vir a ser considerado crime e abuso – nenhuma das crianças deu autorização para esta exposição, feita por parte de quem mais os deveria proteger!

Nestas vidas totalmente digitalizadas, é ainda mais importante que as discussões sobre identidade e bem-estar digital passem a fazer parte das conversas de café, da forma mais normal e frequente que for possível. Isto inclui a importância de ajudar os jovens  (até alguns pais) a entender o que significa a palavra Privacidade na era digital e a natureza da “pegada digital” – o rasto do que deixamos online – e o controle de tudo isto (que é um mundo complexo) para minimizar danos futuros. Trabalhar com crianças e jovens para controlar a sua pegada digital pode ajudar a incentivá-los e capacitá-los a pensar antes de enviar seja o que fôr e reduzir activamente comportamentos de risco.

É muito importante também que os pais alterem o seu comportamento online em relação aos filhos e comecem a protegê-los, sobretudo se forem bebés ou menores de idade. O comportamento apropriado não passa, em momento nenhum, por expô-los online. Há que conseguir promover campanhas junto dos pais e familiares de menores, dando-lhes a conhecer os riscos deste comportamento, levando-os a reconhecer que estas suas acções vão efectivamente afectar negativamente a pegada digital dos seus filhos através de publicações, partilhas de videos e fotografias e demais informações sem o consentimento deles.

Se as crianças estão totalmente desprotegidas, cabe aos pais tomar consciência dos seus actos e evitar a todo o custo a sua exposição. Mas o que se passa (com as devidas excepções, obviamente!), é uma generalização de exposição dos filhos sem qualquer protecção. Já para não falar do óbvio: sem o seu consentimento!

Voltando aos jovens, os ecrãs servem também para partilha de espaços académicos, troca de informação para estudos e interesses diversos, trabalhos em grupo, tantas coisas.

Os “atacantes” das tecnologias, mesmo tendo todos estes factores em conta, conseguem agora vê-la como uma tábua de salvação (digital) contra o isolamento, para a saúde mental, partilha e bem-estar. Esta “época Covid 19” veio demonstrar como é importante entender, de uma vez por todas, o bem e o mal que as práticas digitais fazem a cada um.

Aos que já se podem defender, aos que ainda não.

A promoção da Saúde Digital é quase tão importante como a da Saúde Mental. Passou a ser quase intrínseco nas sociedades ocidentais e/ou digitalizadas. Com os jovens on-line com mais frequência e por períodos mais frequentes e mais longos, também surgem mais oportunidades para o cyberbullying.

Se conseguimos entender tudo isto globalmente, vamos entender tanto a pressão psicológica a que estamos sujeitos como a libertação e o Mundo que podemos receber. Todos os dias. A promoção da saúde digital é absolutamente essencial e tanto falta ainda fazer – a par da saúde mental – no combate à iliteracia. Para crianças, jovens, pais e famílias. Para todos.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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