Uma intenção promissora e um debate necessário a que não chega ser trendy.

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, anunciou a criação da Nova Bauhaus Europeia (New European Bauhaus), um movimento que pretende ser uma ponte entre o mundo da ciência e tecnologia e o mundo da arte e da cultura. A nova Bauhaus Europeia é uma iniciativa criativa, que pretende derrubar fronteiras entre a ciência e a tecnologia, a arte, a cultura e a inclusão social, a fim de permitir a conceção de soluções para problemas quotidianos. Um esforço coletivo para imaginar e construir um futuro sustentável, inclusivo e belo.

A nova Bauhaus Europeia será uma força motriz para dar vida ao Pacto Ecológico Europeu (Green New Deal for Europe), baseado na sustentabilidade, inclusão e estética reunido arquitetos, artistas, cientistas, engenheiros, especialistas digitais, estudantes e muito mais. É, sem dúvida, positiva esta ponte entre a cultura e o principal roteiro para tornar a economia da UE sustentável, o Pacto Ecológico Europeu, na medida em que este é o caminho para o definitivo reconhecimento do papel da cultura na implementação dos objetivos de desenvolvimento durável e equilibrado entre o homem e o meio ambiente, como aliás defende todo o ecossistema cultural.

A iniciativa não é a única. Também a Agenda 2030 das Nações Unidas e o seu conjunto ambicioso de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) valoriza esta relação e desenha um quadro vital para a dimensão cultural do desenvolvimento sustentável. A diversidade cultural da Europa molda quadros e vivências que condicionam as tão necessárias trajetórias transformadoras para o alcance de objetivos e planos “verdes”, promove mudanças nos sistemas sociais, económicos, políticos e ambientais e, ao mesmo tempo, são uma ferramenta altamente eficaz para disseminar conhecimento sobre os temas urgentes servindo de vetor para o sucesso da implementação de todos os instrumentos como os ODS ou o Pacto Ecológico Europeu. A cultura molda a forma como percecionamos as realidades em mudança. As artes e a cultura dão sentido às nossas perceções, aproximam a humanidade através das emoções, imaginação e pensamentos.

A nova iniciativa Bauhaus Europeia, ao lançar uma colaboração abrangente entre os criativos europeus, é, sem dúvida, um sinal prometedor do mainstreaming da cultura em vários domínios políticos. Com o objetivo de construir um amanhã mais verde, mais bonito e humano. Inspirado pelo Movimento Bauhaus no início do século XX, este projeto emergente ecoa alguns dos conceitos originais ao incorporar a estética na funcionalidade do quotidiano. Os processos de interdisciplinares e cocriação estiveram no cerne do projeto Bauhaus. A referência à Bauhaus, no entanto, não só leva a associações interessantes com movimento artístico progressista dos anos 20, como também valoriza a prevalência da forma sobre o conteúdo nas suas estratégias estéticas.

Apesar de não ter surgido espontaneamente como o movimento cultural Bauhaus original, pois este é estabelecido por autoridades públicas europeias, não deixa de ser também o início de um processo inovador de conceção conjunta. As organizações que pretendam participar neste processo podem tornar-se parceiros do nova Bauhaus europeia, respondendo ao convite formulado no sítio web da iniciativa. Aqui, artistas, projetistas, engenheiros, cientistas, empresários, arquitetos, estudantes e todas as pessoas interessadas podem partilhar exemplos de realizações inspiradoras para a nova iniciativa e apresentar as suas ideias sobre a forma como deve ser moldado, como deve evoluir ou expressando novas preocupações e desafios.

A fase de implementação da iniciativa centrar-se-á no desenvolvimento de cinco novos projetos europeus em todos os Estados-Membros da UE que visam a sustentabilidade através da interseção entre a arte e a cultura e a respetiva adaptação às condições locais, dando atenção aos materiais naturais de construção, eficiência energética, demografia, mobilidade orientada para o futuro ou inovação digital eficiente em termos de recursos e que sejam exemplos existentes que representem a integração dos valores fundamentais da iniciativa e que possam inspirar os debates sobre os locais onde vivemos e a transformação dos mesmos.

Sem dúvida uma ideia positiva, mas que não deixa de ser criticada como bastante vaga e frouxa na sua forma atual, levantando já controvérsias no diálogo europeu. Desde logo, porque a nova iniciativa Bauhaus Europeia ainda não tem um orçamento definido. A cultura e os ecossistemas criativos, devastados pela atual pandemia, manifestam preocupação com o facto de a Nova Bauhaus Europeia ser apoiada pelo programa Europa Criativa, o único programa da UE especificamente dedicado à cultura, prejudicando assim o seu já escasso orçamento. 

O setor considera essencial, exatamente o contrário, que esta nova iniciativa da UE possa ser financiada fora da Europa Criativa, através do envelope financeiro do Pacto Ecológico Europeu, para sinalizar e valorizar o contributo da cultura para a transição verde da EU.  A Nova Bauhaus Europeia não chega ser trendy. Mais do que uma marca bastante complexa, terá de ser um projeto abrangente, robusto em todos os seus aspetos e constituir uma oportunidade para incluir uma perspetiva cultural transversal na estratégia de sustentabilidade, colocando-a no centro da “política” e das políticas europeias. Sem dúvida que o setor está ansioso para saber mais sobre a forma como todo o projeto será enquadrado, bem como o grau de envolvimento dos atores culturais nele.  Este é um setor que se sente preparado para reagir ativamente ao convite à cocriação e à colaboração, não fosse a arte esse instrumento de permanente reação e transformação presente instalado.

-Sobre Francisco Cipriano-

Nasceu a 20 de maio de 1969, possui grau de mestre em Geografia e Planeamento Regional e Local. A sua vida profissional está ligada à gestão dos fundos comunitários em Portugal e de projetos de cooperação internacional, na Administração Pública Portuguesa, na Comissão Europeia e atualmente na Fundação Calouste Gulbenkian. É ainda o impulsionador do projeto Laboratório de Candidaturas, Fundos Europeus para a Arte, Cultura e Criatividade, um espaço de confluência de ideias e pessoas em torno  das principais iniciativas de financiamento europeu para o setor cultural. Para além disso é homem para muitas atividades: publicidade, escrita, fotografia, viagens. Apaixonado pelo surf vê̂ nas ondas uma forma de libertação e um momento único de harmonia entre o homem e a natureza. É co-autor do primeiro guia nacional de surf, Portugal Surf Guide e host no documentário Movement, a journey into Creative Lives. O Francisco Cipriano é responsável pelo curso Fundos Europeus para as Artes e Cultura – Da ideia ao projeto que pretende proporcionar motivação, conhecimento e capacidade de detetar oportunidades de financiamento para projetos artísticos e culturais facilitando o acesso à informação e o conhecimento sobre os potenciais instrumentos de financiamento.

Texto de Francisco Cipriano
Fotografia da cortesia de Francisco Cipriano
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