No meio deste caos provocado pela pandemia, ainda havia alguma esperança de que, em setembro, pudéssemos assistir a alguma mudança, isto para quem trabalha na área da música e eventos.

Estamos em agosto, continuamos todos com medo de uma segunda vaga de contágios e previsões de voltar tudo ao normal, não existem. O que é certo é que a vida tem de seguir em frente e as contas têm de ser pagas, as soluções do governo não tocam a todos e todos conhecemos um caso ou outro mais complicado. Na minha vasta lista de contactos neste meio, já ouvi de tudo: pessoas que movimentavam mais de 500 mil euros por ano a fazerem entregas para sobreviver, outros a trabalhar em restaurantes ou a tentar a sua sorte no call-center… não quer dizer que não tiveram uma boa gestão dos valores que ganharam no passado e que gastaram tudo, mas dinheiro só a sair não é bom para ninguém. Como me dizia um senhor mais idoso, numa taberna na Mouraria, “o dinheiro é bom, mas é deste lado".
Em Chelas usamos muito a expressão "Fiz-me a pista", e foi o que tive de fazer. Comecei o ano de 2020 com muito boas previsões, cheio de planos, parte do que iria conseguir fazer este ano seria para organizar a segunda edição do Festival Hip Hop Sou Eu, algo que fizemos em 2015 no Coliseu de Lisboa e que, agora, faria todo o sentido ter uma segunda edição. Tinha eventos marcados até setembro e, pela primeira vez, iria estar em três viagens de finalistas, com vários projetos, mas estamos em agosto e estou com um trabalho das 9h às 18h, com uma hora de almoço, não é de todo o que imaginava, mas tem de ser, a Covid apareceu.

Quero com isto tentar encorajar todos os que fazem parte deste meio, que viram todos os seus planos serem suspensos e dar uma força a todos os que estavam numa boa posição antes da Covid e que se encontram neste momento numa fase menos boa, sem rumo e com medo do futuro. Bem sabemos que as notícias sobre o desemprego não são nada animadoras, mas continuam a haver muitas oportunidades no mercado de trabalho.

No final do ano passado estava um bocado cansado da quantidade de vezes que dormia fora de casa em hotéis, que almoçava e jantava em restaurantes e de todas as viagens pelo país todo, mas que injusto estava a ser, não imaginamos a sorte que temos, pagavam-nos para fazermos o que gostávamos… essa é uma coisa boa que levo desta pandemia, de certeza que vou valorizar muito mais cada evento, cada viagem de avião e cada cheque que receba por um evento… bem, posso dizer aquilo que tanto se diz ultimamente, essa frase clichê: éramos felizes e não sabíamos.

Após trocar algumas ideias com profissionais da área, vejo que, em alguns casos, a vergonha é o que impede esta mudança radical de área, não estou a falar só de eventos, apesar de ser algo que referi muitas vezes por aqui, mas assim por alto falo de donos de restaurantes, donos de agências de publicidade, donos de empresas com serviços de transporte, como a Uber, ou a Airbnb, pessoas que possivelmente terão de começar de novo. Arregacem as mangas e mãos à obra, dois passos atrás para avançarmos seis em frente, vamos embora, Fu*K Covid.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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