Qualquer caminho que façamos até à Praça da Batalha, no Porto, far-nos-á avistar ao longe o já antigo edifício do Teatro Nacional de São João. Ao alto, as duas máscaras que remetem para os primórdios da tragédia, na Grécia, dão a entender que por ali se respira teatro. Restaurado entre 1993 e 1995, reabriu as portas em setembro desse ano, conduzido por Ricardo Pais. Vinte e quatro anos mais tarde, a história constrói-se pelas mãos do encenador Nuno Cardoso, agora diretor da casa que já trata por tu.

Depois de uma apresentação de A Morte de Danton com casa cheia no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, Nuno Cardoso regressou à “instituição-irmã” daquela que gere todos os dias para recomeçar mais um dia de trabalho. Antes de retomar os ensaios sentou-se com o Gerador para conversar sobre a sua peça, a governação de um teatro nacional e a importância da língua e da pronúncia num país.

Antes de olhar o futuro,o encenador não esquece o passado e o caminho construído por todos aqueles que por lá foram passando. “O legado do São João é de continuidade. Vem desde o Ricardo Pais, passa pelo José Wallenstein e pelo Nuno Carinhas, mas passa, antes disso tudo, pelo Eduardo Paz Barroso”, sublinha.A revolução que propõe não se faz com um simples romper do passado, mas sim com um diálogo permanente face a um legado que o São João mantém.

Gerador (G.) – Vimo-lo ontem entre o público d’A Morte de Danton. Enquanto encenador tem por hábito assistir às suas peças? Como é que é esta relação com os momentos de apresentação das peças?
Nuno Cardoso (N. C.) – Não a todas as sessões, mas a grande parte delas, porque continuo a trabalhar e porque tenho de dar notas, para no dia seguinte devolver aos actores uma opinião, que lhes permita, de alguma forma, terem um eco. Neste momento também cá estou [em Lisboa] porque o elenco residente do Teatro Nacional de São João (TNSJ), recentemente criado, faz parte do elenco d’A Morte de Danton e estamos a ensaiar a Castro, que é para onde vou agora. Mas neste momento estou numa posição muito light em relação à Morte de Danton. Ou seja, a peça estreou em setembro, já fez a sua tournée nacional e internacional e estamos a acabar com a temporada em Lisboa, portanto as notas são reduzidas e dá-me prazer vê-los trabalhar. Sou um encenador à antiga. Gosto de espreitar o público, fico feliz quando as pessoas gostam e fico triste quando não gostam. Basicamente o que a gente faz é contar uma história, e quando se conta uma história tem que se ter prazer a contá-la, mas também em perceber se ela está a ser bem recebida ou não.

G. – A ideia de revolução está muito presente nesta peça pela sua narrativa, tal como está no texto que assinou para a nova temporada do TNSJ. A Morte de Danton acaba por funcionar como peça de transição? Que revolução é que propõe para a estrutura que agora dirige?
N. C. – Para além da revolução presente no texto, também são suscitadas questões de género, questões de tempo, etc. O que se pretendeu com este início de temporada, e só agora a partir de janeiro é que a programação passa inteiramente a ser minha, foi de alguma forma sistematizar a programação do São João para que o público não a sinta avulso. Que sinta que o teatro é um interlocutor que lhe põe algumas questões e que lhe oferece espaço para desenvolver essas mesmas questões. Nesse sentido, a ideia de revolução ou de alteração é importante. Não tanto de uma forma autocrítica, porque não é essa a minha intenção, mas porque acho que o São João tem desenvolvido nos últimos 25 anos um trabalho de extrema coerência com as suas variações – e porque um teatro nacional faz disso a sua força da continuidade. O São João é talvez a instituição que, desde o momento em que aparece no seu formato atual, em 1995, maior continuidade e coerência tem tido, tanto que já nos tratam por“avô velhinho”. Mas nesse sentido também quer produzir um outro olhar, mantendo as linhas de força do São João, com uma atenção ao texto, uma atenção à língua, uma atenção à criação da casa de grande repertório. O São João como pólo dinamizador e enquanto coprodutor dos nossos colegas independentes e como academia. É um São João que se desdobra pelo país inteiro e também lá fora. A Morte de Danton basicamente não serve tanto como uma declaração de intenções, como que a dizer «agora vai ser diferente, vamos revolucionar tudo, usar sapatilhas XPTO e ser bué cool», mas serve, acima de tudo, para voltar a pensar. Pelo simples facto de todas as ideias da Revolução Francesa terem sido geradas em meses de profunda alteração e de contínuo trabalho num campo de ténis [na Sala do Jogo da Péla]. Nós ainda não saímos desse campo enquanto sociedade. Se virmos agora os protestos em Hong Kong ou no Chile, o retorno do populismo, as questões que se discutem foram afirmadas e inventadas neste tempo, portanto nós não saímos daqui. Quando muito pensamos que saímos, mas só crescemos.

G. – Pesará também o legado do Nuno Carinhas, que esteve dez anos à frente da instituição, e ao falar dessa ideia de mudança é preciso dizer que todas as mudanças demoram o seu tempo. Há esta preocupação com aquilo que foi feito para trás, de não provocar um corte direto?
N. C. –O legado do São João é de continuidade. Vem desde o Ricardo Pais, passa pelo José Wallenstein e pelo Nuno Carinhas, mas passa, antes disso tudo, pelo Eduardo Paz Barroso.Foram poucos diretores artísticos, mas dentro disso há dois que deixam uma marca indelével, cada qual com as suas caraterísticas. O Ricardo, que funda e de alguma define o São João e o Nuno, que, num período muito difícil para a cultura portuguesa, se assume como um diretor abnegado, que segurou muita da criação artística do Porto, algo que poucas vezes lhe é reconhecido. A ele a à Dra. Francisca Carneiro Fernandes, que era a presidente do Conselho de Administração na altura. Neste contexto, a necessidade de mudar ou de matar o pai só surge na adolescência ou quando nós temos temor e eu não tenho temor nenhum sobre isso, até porque fui diretor do  Teatro Carlos Alberto (TeCA), e participo nesta história até mesmo antes do Nuno Carinhas. Quer eu quer o Pedro Sobrado somos, cada qual à sua maneira, regressos. Agora, temos a nossa própria visão do que precisamos de fazer na cidade. O Porto alterou-se substancialmente e o país também. Uma dessas perspetivas é que para nós “cidade” significa “país”. Somos teatro nacional. Uma outra perspetiva é que, para nós, o primado na nacionalização é mais importante que o da internacionalização. Embora internacionalizemos, e cada vez mais, estamos a fazer isso. Mas para nós o país é importante e o primado da língua é tão subtil e importante como isto: é muito comum ouvirmos na comunicação social pessoas a dizerem que a língua portuguesa é poliforme, múltipla, que se reflete aqui, no Brasil ou em África, mas essas mesmas pessoas, às vezes, reagem mal àquele que é um dos maiores patrimónios da língua, a pronúncia. Um país que não consegue conviver com as suas diversas pronúncias é um país que ainda não está bem resolvido.Há uma série de questões que nos assaltam, seja na prática da gestão, da programação, da criação ou da relação com os nossos colegas criadores. Porque temos de ter essa consciência aguda de que a cultura das artes de palco é sobretudo sustentada pela criação independente. Essa criação está distribuída pelo país, e é isso que faz o tecido das artes de palco em Portugal. É uma espécie de mil-folhas, e a nossa função é potenciar isso para deixarmos de ser menos localizados. Cada administração do São João foi confrontada com o mesmo problema, que é um problema do serviço público. Nós afirmamos a continuidade desse serviço e procuramos as nossas soluções para o mesmo.

G. – Tendo em conta essa localização e ramificação de que fala, como é que olha para a relação do São João com o Porto?
N. C. – Muitas vezes, a cultura e a arte são utilizadas como relações públicas, coisa que não existe no São João. Se és do Porto, sabes que o São João está lá. Nem se pensa nisso. O TNSJ está com uma ocupação de público forte, com um centro educativo pelas costuras, tem os clubes de teatro e outras ofertas, é um teatro de produção. O São João está hipervivo, mas de uma forma substantiva, diária, quotidiana; que afeta a cidade economicamente. Mas neste momento, o São João reposiciona-se mais em termos de relações, com o Teatro Municipal do Porto (TMP) – Rivoli e Campo Alegre, por exemplo, que têm uma produção imensa e que valorizam muito o Porto. Depois também com a nossa instituição irmã, o Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II), com quem temos outras linhas de diálogo, bem como com um conjunto de instituições, algumas ligadas à rede de cineteatros, outras não, e que permitem ativações múltiplas. Mas o São João já não é novidade desde 1995 e, numa sociedade escravizada pela novidade, é natural que me perguntem: «Então qual é a novidade?» A novidade é que não há novidade. Nós, este ano, temos um programa internacional que nos traz os Gob Squad, a Angélica Liddell, o Frank Castorf, a Christiane Jatahy. Temos uma programação de coproduções, digressões pelo país e espetáculos no estrangeiro. Portanto, se fizesse um exercício do que é substancial na gestão do teatro, o São João tem tantos conteúdos que as pessoas ficariam espantadas. No entanto, é um teatro que existe e existirá, e é natural que as pessoas não pensem nele segundo um critério de novidade. Devem pensar nele por um critério de utilidade.

G. – Numa entrevista ao Gerador, a Cláudia Belchior, do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II, falava da necessidade de desconstruir a ideia de um teatro para elites. No caso do Teatro Nacional de São João, isso foi ou é um problema?
N. C. – Não, o Teatro Nacional de São João é um teatro de elite para todos, acessível para que toda a gente tenha direito a experimentar a elite. Aquilo que aqui se define como elite é a excelência de trabalho. Eu não vou desconstruir a excelência do trabalho no São João. Falar de elites, para mim, é um discurso populista e redutor. O São João é um teatro de repertório, de conteúdo acessível, e a sua função é servir o país.

G. – Falamos nisso porque como são teatros mais antigos e, tanto pela sua estrutura como pelo repertório que os constituía noutros tempos, podia haver um certo estigma ou medo de entrar nestes edifícios com tapetes vermelhos e lustres.
N. C. – Ainda existe. No São João é diferente porque nós somos polimórficos. Somos um triângulo à volta do centro do Porto, que vai desde uma casa ainda mais formal do que esta, ao TeCA e a um mosteiro. E é super importante que essa necessidade de interferência com a cidade do Porto, assim como a acessibilidade a conteúdos de elite, seja possível. Nunca vou cortar A Morte de Danton num quarto de hora porque as pessoas ficam cansadas com as palavras, não é esse o objetivo; o objetivo é que as pessoas acedam todas a estas palavras.

G. – O Nuno tinha falado do D. Maria II enquanto instituição-irmã. Sente que também é importante vir apresentar as peças cá?
N. C. – Acho que as duas instituições devem funcionar em diálogo porque ambas servem o país.

G. – E esse diálogo não resulta necessariamente num espelho uma da outra…
N. C. – Convém não serem o espelho uma da outra, porque senão, como diria o António Silva, é uma cara de pleonasmo. Estar a fazer duas instituições iguais é perder possibilidades. Mas sim, há esse desejo, e nas nossas digressões também gostamos de informar o público de Lisboa, até para eles se habituarem a ouvir textos com outra pronúncia.

“Temos de ter essa consciência de que a cultura das artes de palco é sobretudo sustentada pela criação independente”

G. – A questão da pronúncia é bastante pertinente. O Nuno falou recentemente da ideia de incrementar ainda mais a digressão, e de o São João ser um polo dinamizador nesse sentido. Quando fala em incremento refere-se a um trabalho que estão a tentar melhorar?
N. C. – Em quatro meses fizemos dez digressões, portanto acho que isso justifica um bocadinho. É sobretudo uma mudança de paradigma, como será, por exemplo, estrearmos a primeira produção de 2020 fora do TNSJ. Fazer a digressão primeiro e só depois chegar a casa. São sinais que são dados, porque se o São João estreia em Aveiro, não só está a colaborar com uma instituição que é importante, como o nosso tipo de trabalho está a cruzar-se com o deles. E depois chegamos no Dia Mundial do Teatro a casa e estamos lá um mês, ao mesmo tempo que já estamos a desenvolver um trabalho com Cabo Verde, para que naquele mês cheguem atores para fazerem uma peça em crioulo que estreará no dia 25 de abril e que estreará lá no dia 25 de julho.

Às vezes, vivo escravizado pelo meu telemóvel, por ensaios, por quartos de hotel e quando me perguntam o que se passa no São João eu digo: “Oh, por amor de Deus.” O São João é muito grande, mesmo. E quando nos mexemos, temos de nos mexer com um bocadinho de cuidado para não fazer mal. Além disto, temos uma relação ótima com o TMP, com um projeto chamado União de Facto, em que nos juntamos uma vez por ano e trazemos uma coisa ao Porto que os dois separados não temos dinheiro para trazer. E que, se calhar, em 2022 vai resultar num conjunto de peças da Pina Bausch para fazer um exercício histórico sobre isso. E, ao mesmo tempo, fazemos um último Dancem!, que é um olhar sobre a bienal de 1988 e a Nova Dança portuguesa, porque também é a função de um teatro nacional o restabelecimento da memória e o questionamento. Quando o TNSJ tem tanta coisa a acontecer e está sujeito a práticas de boa governança e de gestão de transparência, não tem tempo para uma campanha de relações públicas absolutamente nova no Instagram. Até porque, se não, lá se ia a boa governança, porque teríamos de contratar quatro ou cinco pessoas só para o feed do Instagram, que é o que o Théâtre de la Ville faz.

G. – Há que estabelecer prioridades.
N. C. – Há que estabelecer prioridades. Um dos nossos departamentos mais escravizados é o de produção de conteúdos e de publicidade e promoção. Trabalham horas e horas. Os atores também, que se dividem entre a produção e os centros educativos. É um ecossistema virado para fora, mas também virado para dentro.

G. – Estava a falar do TMP e das coproduções com os vossos parceiros, como também acontece com o Teatro Nacional D. Maria II. O protocolo que foi recentemente assinado entre o São João e o Centro Cultural de Belém (CCB) também vai nesse sentido?
N. C. – São relações bilaterais. A nossa relação com o D. Maria é de afinidade e de profunda cumplicidade porque temos os dois as mesmas regras, ou semelhantes. Temos os dois as mesmas funções e a mesma raiz: somos teatros de produção nacional, ao mesmo tempo que a especificidade que temos um com o outro não permite misturas nesse protocolo. A especificidade que temos com o CCB é outra, tal como a cumplicidade que temos com Almada. Nós não criamos uma rede institucional, temos uma rede de protocolos bilaterais com várias instituições. Há uma flexibilidade que nos permite responder às assimetrias de todas as situações. O CCB é muito importante porque é uma grande instituição. E depois temos relações absolutamente cúmplices com o São Luiz, com a Culturgest, mas também com o Teatro de Bragança, o Teatro de Vila Real, com Aveiro, Braga, Guimarães, Coimbra… Neste momento, o São João está a trabalhar no limite das suas forças. Se fosse um carro, não dava mais rotação, e ainda vamos ter de acelerar com o centenário.

G. – Isso vai ao encontro de um tema de que se tem falado muito nas artes performativas, a ideia de descentralização. O Nuno diz que o São João está no seu limite, mas a descentralização é algo que vê com urgência?
N. C. – É absolutamente necessário. Mas eu vejo a descentralização cultural não como a descentralização de Lisboa, mas como a descentralização dos grandes polos. Ou seja, de nós sermos um veículo dessa descentralização dentro daquilo que podemos contribuir, que é levarmos os nossos conteúdos e estes serem possíveis de ser acedidos em Vila real, em Loulé (se algum dia lá chegarmos), em Castelo Branco.

G. – Quase como missão do Teatro Nacional?
N. C. – É a missão do Teatro Nacional. A missão do Teatro Nacional é oferecer conteúdos teatrais, e tudo o que isso implica, ao país. O seu polo gerador é o Porto, e obviamente que as pessoas podem vir ao Porto, mas não nos podemos limitar a isso. Temos algumas coisas sobre as quais temos de continuar a refletir neste momento: apesar deste discurso populista e desta coisa do estado da nação, a sociedade também se está a organizar por eixos urbanos, e o eixo urbano do Porto chega a Vigo. Portanto, é dentro desta panóplia de matrizes que vamos reconhecendo que tentamos sintetizar esta programação minimamente coerente, com todas as suas valências, para que o cidadão possa exercer escolha. E nesse sentido, então, há uma pequena diferença que é: o São João lança o repto da escolha, se entrar na imposição do seu conteúdo através da publicidade, perde esse repto. E é essa fimbria de toque que às vezes pode causar um equívoco de parecer que estamos pousados e não ativos. Mas não, é outra coisa.

G. – Essa possibilidade de escolha acaba por estar também relacionada com os diferentes espaços do TNSJ, tão distintos uns dos outros. Numa entrevista ao Público, o Pedro Sobrado tinha dito que a direção artística é crucial para determinar a personalidade de um Teatro Nacional. Que personalidade é que o Nuno quer dar ao TNSJ? Essa personalidade estende-se ao TeCA e ao Mosteiro de São Bento da Vitória, ou cada um vive por si?
N. C. – O Teatro Nacional de São João é o TeCA, o Mosteiro de São Bento da Vitória e o Teatro Nacional de São João na Praça da Batalha. Dado que têm tipologias diferentes, que têm escrito de forma diferente na cidade e que têm morfologias de espaço diferentes, cada um dos espaços tem uma personalidade própria. O Teatro Nacional é o palco maior, de grande repertório; o palco do risco, do poder falhar será o TeCA, que ao mesmo tempo é a base do centro educativo; e o Mosteiro de São Bento da Vitória é o nosso útero, onde estão as salas de ensaio, onde estão os nossos produtores de conteúdos, onde está o nosso centro de documentação, e também é uma fonte de rendimento. E, portanto, estabelece uma espécie de geografia de escolhas, mas que também pode ser corrompida logo. Por exemplo, os GobSquad com a apresentação do Western Society, o tipo de trabalho teria sentido no TeCA. Mas não tem mais sentido fraturar a conceção burguesa da arquitetura do São João com os Gob Squad? E de repente possibilitar uma outra visão do que é A Dama das Camélias num outro espaço mais fechado, onde não há referenciais arquitetónicos e o escuro permite a atenção completa nas personagens? Tudo isso são trabalhos de programação que têm de ser feitos antes. Quando as pessoas chegam para ver um espetáculo, é bom que não vejam esse trabalho, que o sintam naturalmente porque aquilo pertence aqui ou ali. Mas num todo, o São João é só uma instituição que, de alguma forma, delimita o percurso na baixa do Porto e enquanto instituição existe ali, está sempre presente na cidade, e está presente no país.

G. – Marca-se este ano o centenário do TNSJ e lembramo-nos das seis ideias que o Pedro Sobradodisse que gostava de ver concretizadas, no discurso que deu, na tomada da sua tomada posse. Entre elas estavam a criação da companhia residente, uma maior preocupação com o arquivo, e uma proximidade com Cabo Verde – sendo que esta última já está em curso. Como é que estão estas seis ideias, neste momento?
N. C. –As ideias passam por ter um teatro com maior proximidade com os seus coprodutores, e aumentámos não só o nível de acompanhamento com os coprodutores mas também o nível de dotação, embora não chegue ainda ao que queremos, que é 50%; ter uma academia informal, que é o nosso centro educativo, e que tem um conjunto de atividades para todas as idades; um teatro de produção, que é o que estamos a fazer com A Morte de Danton e a Castro, temos O Balcão do Genet, os Espectros do Ibsen (que aí vem), estamos a discutir o À Espera de Godot. A companhia residente está formada, está em digressão, tem a sua relação com o centro educativo. Mas o Teatro Nacional de São João étambém um teatro de internacionalização – intensificámos a nossa relação com a UTE, e a relação com Cabo Verde está a concretizar-se cada vez mais, já temos o elenco fechado. Não é só uma relação com Cabo Verde, é uma relação com a língua portuguesa. Estamos também a desenvolver contactos com o Brasil, com Moçambique…com a CPLP.

Queremos um teatro cujo funcionamento se quer modelar no seu ecossistema interno, que é o que estamos continuamente a fazer. Portanto às vezes mais, outras vezes menos, estamos a tentar cumprir todos os dias essas ideias.

G. – O teatro do presente – não o teatro do futuro, mas já do presente – passa também por pensar a mediação cultural? O Nuno acredita que essa mediação tem um papel fulcral para uma maior e melhor fruição do teatro?
N. C. – O centro educativo vai além da mediação. Um dos programas mais extraordinários do São João é o Visitações, em que estamos a colaborar com os clubes de teatro de 12 escolas por ano – que vão desde Vila d’Este, em Gaia, a Chaves – e em que eles têm Gil Vicente e Fernando Pessoa filtrados por clubes de teatro que dão um dinamismo maior à sua educação, e que nós apresentamos uma vez por ano. Os clubes de teatro dessas escolas fazem um macroespetáculo, e isso ativa as escolas o ano inteiro. Os clubes de teatro, que são abertos e estão a progredir de uma forma galopante, também servem de mediação. E depois temos as Leituras no Mosteiro, as Oficinas de Micropedagogias para professores, teatro para bebés. O centro educativo como semeador e mediador é fundamental, como também é fundamental a atividade das publicações como mediador de um espetáculo, por isso é que temos tanta atenção aos manuais de leitura. Convenhamos que três horas de texto, como acontece n’A Morte de Danton, pedem esse manual. A mediação é fundamental, é um exercício de democracia, não é um exercício de estilo.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Matilde Cunha

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