As Pousadas da Juventude de Portugal estão distribuídas por todo o país com 42 unidades de norte a sul, do interior ao litoral. Há 30 anos que a MoviJovem dinamiza as comunidades envolventes e faz dos seus corredores um espaço de partilha, educação e, mais recentemente, de entreajuda.

A MoviJovem é a responsável pelas Pousadas da Juventude de Portugal, pelo Cartão Jovem e ainda pelo passe Intra_Rail em parceria com a CP – Comboios de Portugal. É um organismo de referência na promoção da mobilidade e intercâmbio juvenil que, ao longo de 30 anos, tem expandido a sua rede por todo o país. Segundo dados disponibilizados pela MoviJovem, em 2018 e 2019, superaram a marca do meio milhão de utilizadores. Em março de 2020, mostraram o seu compromisso com a comunidade e disponibilizaram 30 das suas 42 unidades de alojamento, servindo de casa a profissionais de saúde, membros da proteção civil e todos aqueles que, de alguma forma, foram impactados pela pandemia. Em 2021, lançaram uma nova identidade visual, como representação da modernização a que se propõem.

O Gerador falou com Nuno Coelho Chaves, atual presidente da direção da MoviJovem desde janeiro de 2018, numa entrevista sobre os 30 anos das Pousadas da Juventude e os desafios que enfrentam atualmente. Nuno reforçou ainda a responsabilidade social que está muito presente nas Pousadas da Juventude, o que têm feito a nível de sustentabilidade e ainda o que está por trás desta nova identidade visual.

Gerador (G.) – Em março, celebraram 30 anos, como avalias o trabalho que tem sido feito ao longo destes 30 anos, também com uma pandemia pelo meio?

Nuno Coelho Chaves (N.C.C.) – Eu entrei na MoviJovem em janeiro de 2017, como vogal da direção e passei a assumir a responsabilidade enquanto presidente em janeiro de 2018. Neste período de 4 anos, temos conseguido resultados assinaláveis, quer do ponto de vista estatístico, quer do ponto de vista dos resultados operacionais, naquela que traduz um período de revitalização da atividade da MoviJovem, mas também da sua relevância enquanto entidade que tem responsabilidades e que acabou por dinamizar as políticas publicas de juventude. Este balanço e resultados foram de crescimento até março de 2020 porque com o eclodir da pandemia tivemos alguns desafios. E aqui, faço um parêntese, nos dois primeiros meses do ano de 2020, apresentámos resultados extraordinários de grande crescimento face a 2019, que tinha sido o nosso melhor ano de sempre com mais de meio milhão de dormidas. Estávamos confiantes que 2020 fosse a confirmação desse percurso sustentado de crescimento, mas a pandemia alterou tudo, o que nos obrigou a readaptar e reerguer, para continuar, com empenho e trabalho, o que tínhamos vindo a fazer. Necessitamos de uma maior criatividade para voltarmos ainda com mais força, confiantes e com a certeza de que saberemos volta ao caminho que vínhamos a fazer até março de 2020. Por isso, os nossos trabalhadores têm sido fundamentais neste processo.

G. – E, até março de 2020, quais eram os desafios que enfrentavam, se é que ainda faz sentido falar desses desafios, uma vez que o panorama mudou?

N.C.C. – Tínhamos projetos, ações e iniciativas idealizadas para 2020 e que tiveram de ser suspensas, mas que retomaremos. A MoviJovem é uma cooperativa de interesse público, detida maioritariamente por capitais públicos, que tem como responsabilidade dirigir as Pousadas da Juventude e o Cartão Jovem. No início de 2020, a nossa principal atividade encerrou e o nosso foco mudou, por isso a nossa prioridade foi o auxílio ao país, às entidades que estão no combate à pandemia covid-19, disponibilizando toda a nossa infraestrutura. A Rede das Pousadas da Juventude é uma das maiores redes de alojamento do país, constituída por 42 pousadas, mas a sua relevância é a abrangência territorial dispersa de norte a sul, do interior ao litoral, que foi muito mais multifacetada do que aquela que inicialmente prevíamos. Pelas nossas infraestruturas passaram profissionais de saúde, elementos da proteção civil, pessoas idosas, pessoas que não conseguiam fazer o isolamento nas suas casas, cidadãos em situação de sem abrigo. Foi uma resposta mais plural do que a que prevíamos, com mais de mil pessoas a utilizarem ou a passarem pelas nossas unidades (um número de dormidas superior a 15 000) – continuamos a dar esta resposta desde março com as duas pousadas que temos em Lisboa.

Estávamos convencidos de que, a partir de 2020, retomaríamos normalmente a nossa atividade, à exceção destas duas unidades, mas voltámos a dar um passo neste sentido, assinando um protocolo de colaboração com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, para que algumas pousadas pudessem ser usadas como estruturas de apoio de retaguarda. Nenhum de nós calculava quão incerto seria este período, mas perante essa inquietação e incerteza, a nossa resposta foi procurar criar condições para auxiliar as diferentes entidades envolvidas na resposta à pandemia.

G. – Mostraram a importância das entidades, cada vez mais, se aproximarem da população, criando sinergias, para que tudo aconteça de forma mais natural. É importante que, cada vez mais, outras entidades sigam o vosso exemplo?

N.C.C. – Sim, acreditamos que sim, porque perante este cenário de desafio, demonstrámos uma capacidade de reação ímpar. Ao disponibilizarmos 30 das nossas 42 pousadas, acabámos por mostrar primeiro a importante infraestrutura que o país tem ao nível das pousadas, mas sobretudo do nosso lado, numa demonstração clara do nosso compromisso. Para além da nossa missão de promoção da mobilidade e turismo juvenil no país, reforçámos o nosso compromisso e aprofundámos a nossa missão social. Demonstramos, sem sombra de dúvida, que somos aquela que está mais comprometida com os princípios de serviço público e uma missão social em prol da mobilidade dos cidadãos, em particular dos jovens, que foi uma das faixas etárias mais afetadas pelas medidas de confinamento.

G. – Há pouco falaste do interior e litoral, no entanto, olhando para o mapa, existe uma maior concentração de oferta junto do litoral. Como olham para o interior?

N.C.C. – Se isto fosse uma rede de infraestruturas do setor privado, seguramente não tínhamos o mesmo número de pousadas sediadas no interior, que naturalmente são territórios que, face ao litoral, e sobretudo os que estão mesmo na faixa litoral (e que respondem à época balnear) teríamos uma concentração maior de unidades no litoral. Até março de 2020, Portugal registou uma atividade extraordinária no sector do turismo, e nós também em pousadas sediadas no interior – por exemplo, na retoma que ocorreu em julho de 2020, uma das nossas pousadas mais procuradas foi a pousada do Gerês. Hoje as pessoas procuram um turismo mais diversificado e a forte presença que registamos nos territórios do interior reforça o nosso compromisso e missão com a mobilidade em todo o país, em todo o território, e coesão territorial e social. Em termos absolutos, há mais pousadas localizadas na faixa litoral e centros urbanos, mas um terço da nossa rede está no interior.

G. – A pandemia veio fazer com que as pessoas olhassem mais para a oferta que temos me Portugal?

N.C.C. – Sim, essa foi uma das perceções que tivemos da retoma: a procura nacional aumentou. Tradicionalmente, aos longo dos anos, as pousadas registaram uma maior atividade, com uma distribuição que se mantém estabilizada com 2/3 de utilizadores nacionais e 1/3 internacionais. Em 2020, esta distribuição alterou-se com um aumento da utilização por parte dos portugueses.

G. – O que têm feito para aproximar as Pousadas da Juventude da comunidade internacional?

N.C.C. – Somos uma cooperativa de interesse público que se diferencia do que é o posicionamento de outras entidades no setor do turismo, mas não descuramos o nosso público internacional. A MoviJovem está integrada na Hostel International, a entidade que faz a gestão a nível internacional das pousadas de juventude no mundo. Fazemos parte desta importante comunidade internacional, que reforça o compromisso da nossa missão e das políticas que adotamos e implementamos no nosso país. Procuramos acompanhar também aquelas que são as melhores práticas do sector privado. Estamos em todas as plataformas tradicionais e, para além disso, temos o nosso site (a título de exemplo). Estamos a completar um processo de refrescamento da nossa entidade visual, que começa a ficar visível também nas pousadas de todo o país e que estará completo até ao final do terceiro trimestre. Lançaremos um novo portal de reservas que permitirá uma melhor experiência a todos os utilizadores, com uma forte componente na digitalização dos nossos serviços, para responder às necessidades do nosso público alvo. Esta nova identidade que procuramos reflete também, visualmente, a simplificação que temos levado a cabo e que tem reforçado as Pousadas da Juventude como uma rede de alojamento fundada nos princípios da solidariedade, partilha, envolvimento cívico e cultural, como um espaço de tolerância, não descurando uma organização que tem em atenção a qualidade, sustentabilidade, segurança. Já no ano de 2020, iniciámos um processo de certificação pela Hostel International, que já abrange 16 das nossas pousadas, que reforça a preocupação com a qualidade, sustentabilidade e segurança. Em matéria de segurança, gostaria de recordar o processo que desenvolvemos com a DGS e culminou com o selo de Pousada da Juventude Segura. Este trabalho, desenvolvido com a DGS, traduziu-se num protocolo que implica a utilização das pousadas como espaços para a promoção da saúde, que se junta àquelas que são já as funções tradicionais e históricas das Pousadas da Juventude: locais de cidadania e intercâmbio cultural. Os nossos corredores sempre foram esses locais de partilha, cidadania e reflexão, sobre o país e sobre nós próprios, sobre os temas que dizem respeito à juventude. Quisemos também que, num tempo difícil, esses corredores fossem sinónimo de uma cidadania ativa e informada para prevenir o contágio do vírus.

G. – Porque decidiram trazer essa nova entidade visual?

N.C.C. – Estivemos num período de pausa, desde o início deste ano, e retomámos a atividade em junho, com uma reabertura com características bem diferentes da que tivemos em 2020. Aproveitámos a pausa para reformular e modernizar aquela que era a nossa operação, com reforço da formação dos nossos trabalhadores, no sentido de reforçarmos e melhorarmos as suas competências, mas, se por um lado, a nossa atividade se tornou mais digital e menos burocratizada, em que privilegiamos meios de comunicação online e meios de trabalho mais flexíveis, procurámos também neste período capacitar os nossos trabalhadores para usar as novas ferramentas que implementámos. Mas, paralelemente a isto, considerámos fundamental e importante que este regresso à atividade, fosse um regresso ativo no seio das comunidades – e aqui salientar que uma infraestrutura como uma Pousada da Juventude, desempenha um papel fundamental e relevante, sobretudo se estivermos a falar em territórios do interior, porque é uma importante infraestrutura na dinamização da envolvente local, por isso não descuramos o nosso papel nessas comunidades, sobretudo porque sabemos que a nossa atividade impacta no turismo das várias localidades e regiões em que estamos sediados. Neste regresso, sabemos que os estrangeiros continuam também a olhar para Portugal como um local seguro. Em 2021, entendemos que necessitávamos de refrescar aquela que era a nossa identidade visual, para além do novo logótipo, site, e readaptação de alguns espaços, com esta nova identidade pretendemos que reflita visualmente a simplificação que temos procurado levar a cabo, que tem reforçado as pousadas da juventude como uma rede de alojamento fundada em princípios de solidariedade, tolerância e partilha, mas também uma organização que não descura a qualidade, a sustentabilidade, a segurança em todas as suas vertentes. Tivemos um reforço em matéria de saúde pública, e que se traduz com o selo de Pousada da Juventude segura, mas também no processo de certificação que iniciamos no final de 2020 (Hostelling International), e temos já 16 das nossas 42 pousadas certificadas. Dizer também que as questões do ambiente, da mobilidade, igualdade de oportunidades, justiça social, expressão artística e cultural, entre outros temas, está muito presente nesta nova estratégia de retoma e estabilização daquela que tem sido a nossa atividade e que tem estado presente em algumas campanhas.

G. – Inclusive, desde 2019, comprometeram-se com a qualidade e sustentabilidade, com a criação do Plano de Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. Como têm conseguido ser ‘mais verdes’, desde que este plano foi implementando?

N.C.C. – A sustentabilidade tem sido o eixo central da nossa estratégia e temos escrito isso de forma bem clara na nossa prática ao longo dos últimos anos. A sustentabilidade é o princípio fundamental, nos seus três pilares. A sustentabilidade ambiental, em que procuramos otimizar o uso de recursos, desperdiçando o menos possível, promovendo medidas e ações que concorram para uma maior eficiência, sejam do ponto de vista energético, ou de poupança de recursos. Nos outros pilares, referir a sustentabilidade económica e financeira, em que temos procurado gerir, sendo uma entidade de interesse público, entendemos que temos de ter uma gestão criteriosa dos nossos recursos, procurando focar as despesas no essencial e ter uma atividade sustentável. Mas também damos passos essenciais e somos contribuintes ativos da sustentabilidade social, quer pela resposta que fomos dando à pandemia, mas também algo que fizemos no final de 2020, com a assinatura do Acordo de Empresa. Num momento particularmente difícil para entidades publicas e privadas, principalmente no sector do turismo, foi um momento que se revestiu de especial importância, para todos, mas muito em particular para a direção e para os nossos trabalhadores. Desde o início do nosso mandado, assumimos como primordial a valorização dos trabalhadores e recursos humanos, ligando de uma forma clara e determinada os objetivos estratégicos da nossa organização, com as perspetivas individuais de crescimento da carreira de cada um dos nossos trabalhadores, e isso sempre e foi claro. Procuramos valorizar, acima de tudo as pessoas. Desde 2018, melhorámos as suas condições sociais e de trabalho. Na MoviJovem procuramos estar sempre um passo à frente na retribuição do esforço de cada um, apostando em medidas práticas e claras que concretizem na vida de cada um e na visão de justiça social, baseada numa gestão sustentável e responsável. Isso materializou-se com uma definição de um salário sempre superior ao salário mínimo nacional, uma forma que encontrámos de retribuir de forma justa o esforço dos nossos trabalhadores e o contributo determinante que dão aos os nossos objetivos, e resultados que fomos apresentando. Também nesta lógica de justiça social, procurámos que houvesse um maior equilíbrio remuneratório, com a redução das discrepâncias salariais, de forma a que a remuneração mais alta não exceda em cinco vezes a remuneração mais baixa. Esta aposta do ponto de vista social, permitiu à MoviJovem, ser uma organização mais atrativa no mercado de trabalho, no sentido de sermos capazes de captar talento, mas também manter os melhores quadros de forma contínua.

G. – Quais as perspetivas para um futuro próximo?

N.C.C. – Estamos convictos de que seremos capazes de retomar o caminho. Fizemo-lo no passado e acreditamos que o podemos fazer no futuro, porque acreditamos que estamos mais bem preparados para responder a desafios que se nos apresentem no futuro. A pandemia veio tornar as entidades mais resilientes, também o trabalho que fomos fazendo de preparação nestes períodos de interrupção mostra que estamos mais fortes para retomar esse caminho, sem esquecer aquele que é o forte contributo e apoio que os nossos trabalhadores nos darão, porque aí sim, de certeza, continuaremos a contar com esse empenho e determinação no dia a dia, no trabalho na MoviJovem. À partida, em 2022 não vamos registar a atividade que tínhamos em 2019, mas seguramente a partir de 2022 registaremos uma atividade crescente que atingirá ou poderá superar a nossa atividade no passado. São 15 meses difíceis que ainda não passaram e que continuaram em 2021. Vamos viver constrangimentos e restrições, mantendo a necessidade de mantermos comportamentos responsáveis.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia da cortesia de Nuno Coelho Chaves
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