Para a maioria, sou capaz de ser a pessoa mais feliz do mundo — visto-me com cores vivas, estou sempre a rir (até enquanto durmo, desato à gargalhada!), sou brincalhona e tendo a ter uma visão otimista quando me pedem conselhos. Não é que não seja feliz! Tenho tanto de bom na minha vida, sou uma privilegiada. Mas, muitas vezes, o meu sorriso esconde pormenores aos quais poucas pessoas têm acesso. Desde muito nova que me lembro de ter momentos de uma reflexão profunda e de me sentir verdadeiramente triste por longos períodos de tempo.

Este ano, para além da terapia, que já fazia, fui, pela primeira vez, a uma consulta de psiquiatria por ter voltado a mergulhar num desses períodos. Finalmente, ouvi, por parte de uma médica, a designação para o que eu sempre soube ter – um quadro depressivo crónico. Nunca quis ouvir este diagnóstico. Tive medo de que me fechassem em caixinhas, quando tudo o que sempre desejei foi poder voar sem amarras. Há tantos estigmas associados à saúde mental, à depressão, que não queria ser vista à imagem de algo que não sou. Por isso, escrever a reportagem de capa da Revista 36 sobre jovens e saúde mental, juntamente com a Carolina Franco, foi tão desafiante quanto essencial. Falámos com vários profissionais de saúde, pessoas que vivem com doenças mentais e entidades que se dedicam ao cuidado da saúde mental para quebrar estigmas e perceber que caminho nos falta percorrer no entendimento sobre saúde mental.

Confesso que escrever esta reportagem foi algo difícil, para mim. Ouvir as histórias do Célio Dias e da Marta Guerreiro, protagonistas da nossa investigação, acrescentou-me muito e levou-me a analisar mais aspetos relacionados com a minha depressão. Percebi-me melhor, mas também senti dores renascer no meu corpo. As histórias, por vezes, têm pontos em comum e as feridas ficam abertas ao ouvi-las. Mas, se há uma coisa que destaco de toda esta experiência é a generosidade destas pessoas, que humildemente partilharam as suas histórias íntimas e relataram, sem barreiras, a sua experiência com a saúde mental. Ambos me ajudaram a erguer-me nos dias em que não tinha tanta vontade de o fazer. Ambos me receberam com todo o carinho, abraçando-me a cada ponto em comum nas nossas histórias, pois senti-me acompanhada e isso permitiu-me ressignificar muitas das ideias mais negativas que ainda tinha associadas à minha saúde mental. De facto, sempre me foi difícil partilhar as minhas tristezas, traumas ou momentos de maior apatia. Tendo a esconder-me, nesses momentos, muitas vezes atrás de piadas que conto. Ainda hoje me é difícil dizer que tenho uma depressão, mas a publicação desta reportagem pareceu-me o mote ideal para assumir parte da minha história e abraçar a minha saúde mental, porque nada no meu percurso me diminui, pelo contrário. Ainda terei muito mais para contar sobre a minha história, mas também temos de aceitar o nosso tempo para percorrer este caminho. Sem pressas, quando estivermos preparados, tomamos o nosso lugar de fala, nomeadamente no que diz respeito aos nossos traumas. Acredito que devemos falar sobre as nossas experiências, porque, ao fazê-lo, libertamo-nos e vamos ajudar outras pessoas que se possam identificar. Se há coisa que te posso garantir, é que nunca sabemos o que as outras pessoas estão a sentir ou que vivências trazem gravadas no corpo. Uma pessoa com depressão também sorri. Uma pessoa com depressão também pode ter dias bons. Não podemos continuar a estigmatizar e tratar todas as histórias por igual. Todas as depressões são diferentes, até as vividas, em diferentes fases, pela mesma pessoa. Por tudo isto e mais um pouco, e correndo o risco de ser suspeita, convido-vos a ler esta nossa edição, afinal, a saúde mental é um assunto de todos.

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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