Mas será que num tempo em que já não se escrevem cartas de amor, podemos pensar que as coleções de selos estão em vias de extinção? Enviámos a Ana até ao Clube de Colecionadores de Gaia para perceber se o amor virtual, que parece estar mais na moda com as apps tipo o Tinder, afinal de contas roubou ou não cartas aos correios ou se ainda há Amadores-Amantes daqueles que enviam cartas e postais e depois colecionam os selos dessa correspondência. E descobrimos que enquanto houver pombos-correio também há esperança, em Gaia e não só!

Dizem que não há amor como o primeiro e neste caso a máxima é verdadeira, já que quem se apaixona pelos selos cedo na vida, dificilmente deixa de os colecionar mesmo que dê umas facadinhas neste casamento com os cartões telefónicos ou os postais ilustrados. Podem até colecionar-se coisas mais modernas como pins ou pacotes de açúcar, mas os selos serão sempre o primeiro e maior amor.

Esta reportagem começa em 1976 pela mão e pelos selos do senhor Fernando Peixoto Correia, na altura um catraio jovem que nos leva numa visita a uma exposição de selos em virtude de ser um sócio fervoroso de dois clubes de filatelia na altura. A exposição impressionou-o de tal forma que saiu de lá e foi aprender a colecionar selos à séria, mas tão à séria que no ano seguinte estava no Palácio de Cristal do Porto a ajudar a organizar a exposição Portucale, uma exposição temática de selos onde foi convidado a participar como organizador. Muitos anos mais tarde, adquiriria a correspondência trocada no âmbito da organização desta exposição e viria a ganhar uma medalha de bronze noutro concurso pela conservação dos materiais e selos dessa correspondência.

A esta primeira incursão pelo mundo de exposições seguiu-se outra, desta vez em 1999 e em Madrid, a Exposição Internacional de Cartões Telefónicos, a Iberex, que decorreu no Museu Ferroviário de Madrid e que lhe valeu o 1.º Prémio e a Medalha de Ouro para a sua coleção de cartões telefónicos com o título “Porto Cidade, Porto Clube”, que, como é fácil de perceber, estava ligada à cidade do Porto onde esta reportagem vai acontecendo por entre amores aos selos e não só.

Depois deste começo longínquo de reportagem decidimos entrar na máquina do tempo e chegamos a 25 de julho de 2008, data da fundação do Clube de Colecionismo de Gaia, onde o senhor Fernando, sócio n.º 1, fundou esta coletividade em conjunto com dois dos seus grandes amigos, o senhor João Farinha e a D. Maria Laurinda Ferreira, que conta com mais de 200 associados, sendo que cerca de 150 estão no ativo e participam em muitas das atividades organizadas por este clube, incluindo aqueles que vivem no Brasil, em Angola ou em França e encontram neste clube a forma de mostrarem o amor pelas suas coleções.

Quando perguntámos ao senhor Fernando, agora um enérgico jovem de 66 anos com um passado ligado às artes gráficas, já que foi litógrafo a sua vida toda, o que o levou a criar um clube como este, a resposta é muito rápida: juntar colecionadores em volta de um amor maior e poder organizar encontros nacionais e internacionais, feiras e exposições sobre aquilo que os apaixona. E essa paixão e amor pode vir em forma de selos, de postais ilustrados, de pacotes de açúcar, de calendários de bolso, de cadernetas de cromos, de lápis, de pins, de moedas ou mesmo de cartões de quartos de hotel como tem visto mais recentemente. 

É por causa destes amores que todos os anos o Clube de Colecionismo de Gaia organiza a FileGaya, uma exposição anual de filatelia, e a CartoGaya, a exposição anual de cartofilia, duas atividades que fazem parte do plano anual de atividades desta associação que tem um espaço no Centro Comercial de Cedofeita e desta forma ajuda também a dinamizar algumas das atividades que este Centro Comercial organiza na cidade do Porto. Além destas atividades organizam também o Encontro Nacional Anual no primeiro sábado de maio, que acontece na Escola Secundária Almeida Garret, local onde desenvolvem também um projeto educativo de dinamização do Núcleo Juvenil de Filatelia onde ensinam os jovens a colecionar selos levando esta cultura ao espaço educativo e incentivando estes jovens a participar nas exposições que organizam, e realizam também exposições temáticas em volta de datas comemorativas ou objetos específicos. E como este clube é um amante devoto das coleções, para 2019 estão a preparar uma Exposição Internacional que irá acontecer em Viana do Castelo e pretende reunir colecionadores de diversos países europeus.

Quando pedimos ao senhor Fernando que nos falasse dos seus amores, ele começou por nos mostrar a sua paixão mais recente, uma coleção de postais ilustrados de Vila Nova de Gaia, porque como sabemos não há melhor casamento do que aquele entre as duas margens do Douro. E se a sua vida de colecionador começou com os cartões telefónicos do Porto, atualmente são as paisagens de Gaia que o fascinam. Mas nestas coleções todas há ainda espaço para uma amante muito especial, a diva da música, Madonna. Isto porque o senhor Fernando mantém desde 1978 uma coleção de publicações em papel onde a Madonna aparece na capa, coleção essa que é também alimentada pela família próxima e que estará em exibição nas comemorações dos 40 anos do Centro Comercial de Cedofeita. 

Mas como a monogamia é uma condição muito difícil de manter para os verdadeiros amantes das coleções, nos amores do senhor Fernando e no espólio do Clube de Colecionadores de Gaia há ainda espaço para uma coleção de Charivaris, os jornais humorísticos do Porto dos anos 80 e 90 do século XIX, coleção essa que esteve a escassos minutos de pertencer a Pacheco Pereira. Valeu o olho esperto e um envelope com o dinheiro que o senhor Fernando deixou na caixa do correio para adquirir tal coleção.

Esta reportagem termina com a certeza de que é possível ter muitos amores e colecionar dedicadamente alguns deles, mas também saímos daqui com a firme convicção de que o tempo escasseia sempre, seja para explorar os tesouros de cada coleção que o Clube de Colecionadores de Gaia tem no seu acervo, seja para nos dedicarmos devotamente aos nossos amores.

Esta reportagem foi publicada na Revista Gerador de Janeiro de 2019 que podes descobrir aqui.
Créditos – Texto de Ana Azevedo e fotos de Rui Pedro Oliveira