Para quem não está esclarecido a esse respeito, aqui fica a informação: uma flor é um órgão de reprodução sexuada. Um sexo, portanto. O caule cresce e desemboca em sépalas, pétalas, estames. Cálice, corola, androceu, ginoceu. Perianto. Já não me lembrava desta parafernália de nomes das aulas de biologia. E a professora não nos explicou que as flores eram descaradas formas de exibição das partes. Provavelmente, porque na sua pedagogia não entra a veracidade sobre o que é, afinal, um jardim. Talvez achem que para um miúdo deve ser insuportável olhar para uma floração como uma mostra impúdica.

Acontece muitas vezes. Só nos ensinam um bocadinho das coisas. Fica-se a conhecer a polinização mas não nos dizem que os grãos de pólen são os espermatozóides das plantas...espermatófitas – plantas amigas de esperma. Não. Isso seria espermatófilas.

Agora começo a perceber todas as histórias a Oriente e Ocidente a propósito das simbologias florais. Caramba. Demorou.

Portanto, um beija-flor, também conhecido nos brasis por chupa flor é um oportunista lambão.

Bolas, como o invejo. Bater as asas oitenta vezes por segundo.

Estar ali paradinho no ar, com a língua a lambuzar-se no néctar. E depois, marcha atrás, meia volta e ala que se faz tarde, vamos lá chupar mais uma.

Ibiscos, brincos-de-princesa, sálvias, candelabros-de-ouro, belos nomes para ataque beija-floral.

Confinado ao meu estatuto masculino antropocêntrico, bem posso abanar os braços, abanar os braços, a ver se levanto voo.  Só vou ganhar uma deslocação imprevista da clavícula, ou, pelo menos, uma dorzinha do cotovelo, claro, mas também da mão, do braço e do antebraço. E o meu nariz não tem qualidade de bico. A minha língua não é bifurcada e comprida. Acho que me chamavam maluco se fosse para um jardim lamber uma flor enquanto agitava os braços.

Há mais de trezentas espécies de beija-flor. Eles andam por aí, exibindo a plumagem colorida e polinizando quem devem e não devem.

Acho que os beija-flor não devem estar muito preocupados quando se levantam de manhã sobre quantas flores vão lamber durante o dia. E são uma data delas. Ah, campeão.

Não gostava de concluir a minha faladura sem retirar uma qualquer lição moral, a propósito destas relações sem vergonha entre as flores e os ditos.

É suposto não é? As histórias começam com príncipes e princesas e acabam felizes. Ou assim do género.

Androceu e gineceu. Ele, sem dizer água vai,  põe-se a produzir pólen, descaradamente, à vista de todos. E depois, deixa o dito (ou o que sobra, depois do vampiro floral ter passado, ou outro qualquer agente do destino) até aos ovários (olá, gineceu). E como não há duas sem três, o pólen fecunda os ovários e nascem as sementes, que se transformam em frutos. Frutos proibidos? Nem por isso, que não há Eva que se debata com beija-flores. A coitada só tem um Adão, que parece que engoliu uma maçã e se engasgou, ficando com ela atravessada. Até hoje.

Tiro o meu chapéu ao pequenote alado. Andamos para aqui a contar armas e ele, sem dizer água vai, já se repimpou sem apelo nem agravo – as flores não conseguem pôr-se a correr com facilidade, certo? Também não sei se querem. Afinal de contas, não deve ser por acaso que estão ali especadas à espera que ele chegue. Ou assim parece.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier