Sempre que se dirigia a uma caixa de multibanco, Helder Teixeira ficava inquieto com as saliências em braille nas teclas em que tocava. “Como seria se eu fosse cego?” era uma pergunta que se fazia, e que ainda se faz hoje. Helder trabalha desde os 16 anos, e a partir dos 18 que a Segurança e Vigilância é a área a que se dedica a tempo inteiro. Nos momentos livres lê; lê muito. Os romances russos são os que mais gosta, e a poesia guarda para momentos que a peçam. “Não se lê poesia todos os dias”, diz. Mas para que a poesia possa ser lida por mais pessoas, criou, em 2019, O Boletim da Pauta, um boletim de poesia adaptado a pessoas cegas ou com baixa visão.

Amadeu Baptista, Raquel Serejo Martins, Margarida Batista, Sérgio Ninguém e Miguel Torga foram os cinco poetas escolhidos para a estreia. Até agora, Helder já preparou e materializou sete edições que reúnem poemas de autores como André Tecedeiro, Maria Teresa Horta,  Silvina Marques, Valter Hugo Mãe, Artur Cruzeiro Seixas e Lilia Tavares. Sozinho, Helder construiu um projeto que é maior do que um homem, e com as suas mãos transcreve cada poema, um a um, em cada edição, uma a uma, para braille. “As sete edições foram feitas com uma pauta, que tem um tamanho de A4 e uma concavidade com células de seis pontos. A picotagem, vou fazendo com uma punção. O objeto chama-se Pauta, daí o projeto se chamar O Boletim da Pauta. Por ser uma edição relativamente curta, nunca considerei uma revista, e chamei-lhe de boletim”, conta Helder. Agora, tem uma Perkins, uma máquina de escrever em braille, mas o contacto de um para um é o mesmo — e a dedicação também. 

Foi num momento de viragem que decidiu avançar com a ideia de criar este Boletim. Na altura, procurou o que existia no mercado, em braille, e só encontrou um livro de matemática num alfarrabista, no Porto. “Foi aí essencialmente que percebi essa lacuna”, diz ao Gerador. Foi como se soubesse, de antemão, que tinha de contribuir para uma lacuna que à partida desconhecia. Inicialmente, esteve indeciso entre o conto infantil e a poesia. Sabia que queria textos curtos porque o tamanho standard do braille não permitia que assim não o fosse, já que Helder é o único investidor do seu projeto e que a transcrição triplica o número de páginas. Rege-se pelas diretrizes da ACAPO, com letra tamanho 14, para que pessoas com baixa visão possam ler sem dificuldade, e faz questão que o texto em caracteres e em braille bata certo. 

Neste momento, o Boletim vende-se na Poetria, livraria no Porto, e na Centésima Página, em Braga. Os cerca de 30 exemplares que faz à mão são vendidos em espaços como estes, que Helder frequenta, mas também vão viajando por feiras do livro, associações e escolas. A capa de cada um transporta ilustrações feitas a convite por associações que trabalhem em prol da acessibilidade e dignidade — um gesto que sublinha que O Boletim da Pauta é, sobretudo, um projeto que pretende visibilizar. “É uma forma de apostar na inclusão, de mostrar que eles existem, que as instituições existem e que é um trabalho extremamente meritório. Mostrar um universo que eu acho que ainda é um pouco oculto e desconhecido”, partilha Helder. 

O poema "Segredo", de Maria Teresa Horta, foi transcrito para a terceira edição

“Ler com os meus dedos, como vocês lêem com os vossos olhos”

O convite para integrar os números d’O Boletim da Pauta funciona muito informalmente, e tanto pode partir de Helder como dos próprios autores. Ao Gerador, Helder conta que tem “um princípio pessoal” que dita que “todas as pessoas que passam para o papel o que sentem são dignas de serem editadas”. Por isso, “quem define a qualidade dos autores são os leitores”. “Vou fazendo uma mistura de cada edição, que tem entre 6 e 8 autores, um poema por cada um, e vou tentando intercalar autores que têm obra consagrada com outros que nunca editaram ou estão a iniciar a edição. Já tive autores que escrevem, mas que nunca tinha surgido a oportunidade de publicar.” 

Uma das autoras que chegou até si depois de ter visto o Boletim divulgado no Jornalinho, uma newsletter dedicada a notícias sobre acessibilidade, foi Silvina Marques, poetisa natural de Mangualde que vive há décadas em Lisboa. “Começámos a trocar algumas mensagens e aí percebi como é que ela tinha conhecido o Boletim, soube que ela tinha um livro editado, e fiz o convite porque gostaria muito de a ter no projeto. O contacto com ela foi através de um meio que me fugiu completamente à mão, já que foi por terceiras pessoas que acabámos por chegar à fala”, recorda.

Silvina também se recorda de como chegou até Helder e como viria a ver publicados dois poemas do seu livro “Cálice de Dor e Sofrimento”, uma edição de autor que partilhou com o mundo em novembro de 2018. “Publicar os meus poemas no Boletim pode ser uma forma de chegar aos leitores que não conheço, que estão lá longe. No Norte não me conhecem, e é bom que os meus poemas cheguem a sítios onde eu não chego”, diz Silvina ao Gerador. Estes poemas que vão chegando aos leitores menos óbvios são “momentos de alma”. 

“Há momentos de alma. Estados de espírito. É uma poesia intimista. Falo muito do ‘eu’, na primeira pessoa, e falo dos meus sentimentos, do que gostava, do desejo de um mundo melhor e sem preconceitos — porque ainda existe muito preconceito e infelizmente somos muito vítimas desse preconceito. Nós estamos na era da tecnologia, mas a mentalidade de algumas pessoas (demasiadas) continua na Idade Média, o que é pena”, diz sobre o seu livro, que é um espelho para a sua vida. 

Silvina não teve um percurso literário óbvio, ainda que a literatura fosse parte integrante dos seus dias desde que se lembra. “Sempre gostei muito de ler, poesia em particular. Sempre gostei muito de Florbela Espanca e, quando era adolescente, tentei escrever uns versos, mas digo-lhe com toda a sinceridade: não tinha muita paciência para a métrica e perdi o entusiasmo”, partilha com humor. Corria o ano de 2016 quando se juntou a um chat telefónico onde se declamava poesia — e Silvina sempre gostou muito de declamar, não era apenas a escrita que a preenchia. Foi esse chat que lhe abriu as portas para fazer as pazes com a métrica e voltar a escrever com segurança.

“Entrei e comecei a ler poesia. As pessoas diziam-me ‘tu não escreves?’, ‘ah mas normalmente as pessoas que declamam também escrevem’, mas eu não escrevia, naquela altura. Entretanto comecei a escrever, e não era para publicar um livro, era uma necessidade de lavar a minha alma. No papel pomos coisas que não dizemos. Pomos desabafos, desejos, sonhos que geralmente não contamos a ninguém. Eu comecei a escrever, incentivaram-me a publicar, e acabei por publicar o meu livro.”

Para Silvina, não há nada como a leitura em braille

Quando Silvina estava a estudar Línguas e Literatura Moderna, “não havia nada em braille”. “Foi um martírio”, conta. “Gravávamos as aulas, depois tínhamos de as transcrever. Na altura, sei que havia os clássicos de Eça de Queiroz, Júlio Diniz, Alexandre Herculano, entre outros, mas não havia uma grande variedade”, recorda Silvina. Hoje, tem uma “vasta biblioteca no computador”, mas prefere sempre o braille. Áudio-livros são a última opção. “Com o texto em formato digital, conseguimos manusear bem o texto, às vezes não percebo bem uma palavra e o ecrã permite-me ir vê-la. Podemos voltar para trás, para a frente, e quanto se está a ouvir não é assim tão fácil”, explica. 

E a verdade é que “nem mesmo os digitais” substituem o braille: “recorro a eles porque não tenho outra hipótese, mas se pudesse lia tudo em braille”, diz ao Gerador. “Em braille, manuseio muito melhor o livro e interioriza-se melhor aquilo que se lê. Eu, pelo menos, interiorizo muito melhor se ler com os meus dedos, como vocês lêem com os vossos olhos. Ter aquele livro físico e poder voltar uma palavra atrás ou uma linha, passa mais pelo nosso sistema das emoções.”

Para consciencializar os leitores mais jovens para a importância da acessibilidade, Helder Teixeira tem sido convidado a visitar escolas do ensino primário. O primeiro convite surgiu no ano passado, na semana da leitura, por parte de uma mãe de um aluno. A ideia era “falar um pouco sobre o projeto em si e a existência de outra forma de leitura”, mas abriu-se o pretexto para se falar da acessibilidade como um todo. Nas escolas que têm visitado, desde então, nota que para muitas crianças aquele é o primeiro contacto com o braille — e “surgem sempre questões muito pertinentes”. Cada visita a uma escola serve para tornar possível esse primeiro contacto, mas também para sensibilizar as crianças para “questões do quotidiano, como a importância de os carros não estarem em cima da via pública para não impedirem a passagem de cidadãos cegos”. 

“Entra num tema de cidadania, acessibilidade, consciência. De tentar arrastar aquele tema para cima da mesa, naquele dia ao jantar, e talvez na partilha com os pais surja alguma coisa. A semente é lançada, e alguma coisa surgirá de lá. Pelo menos as crianças têm sido muito curiosas, nesse sentido”, diz Helder ao Gerador, confiante.

Porque as crianças são os adultos do amanhã, a consciencialização poderá, de facto, semear frutos de inclusão e sensibilidade. No trabalho que é feito a uma escala maior, Helder Teixeira destaca associações como a Acesso Cultura, que “trilham um caminho muito árduo mas, depois de o trilhar, fica lá aberto e dali vão surgindo novos horizontes”. O trabalho que faz é uma “pequena contribuição” para colmatar a lacuna que sentiu aquando da criação d’O Boletim da Pauta, e que continua a existir. Mas não há dúvidas de que faz a diferença. 

Podes acompanhar O Boletim da Pauta, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia d' O Boletim da Pauta // Na imagem de destaque, poema de André Tecedeiro

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