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O busto e o pedido de desculpas: uma imagem da colonialidade

Nas Gargantas Soltas de hoje, Leonor Rosas fala-nos do papel de Adriano Moreira no colonialismo português.

©Ana Mendes

Na última sessão da Assembleia Municipal de Lisboa foi aprovada uma recomendação do CDS-PP, com os votos favoráveis de toda a direita e do PS, que propunha a construção de um busto a Adriano Moreira, como celebração do seu centenário. Ora, resta-nos, a todos os que se opõem a esta lamentável proposta, questionar: o que escondem os 100 anos de Adriano Moreira, figura aparentemente consensual da direita portuguesa e da academia?

Nascido em 1922, Moreira foi uma figura relevante dos anos tardios do Estado Novo, destacando-se tanto politicamente como academicamente na vertente colonial do mesmo. Como explicou o antropólogo Rui Pereira, deveu-se, em larga medida, a Adriano Moreira, na altura professor do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, a viragem que se dá no pós-guerra de uma ideologia colonial de caráter mais vivamente imperialista e racista para uma política que, perseguindo os mesmos objetivos, fosse capaz de alterar ou esconder a face mais visível do racismo e desigualdade do colonialismo português: o lusotropicalismo. Foi o jovem Adriano Moreira que impulsionou e fez diversas diligências no sentido de dar força às teorias de Gilberto Freyre que preconizavam, tal como Cláudia Castelo explica, que os portugueses teriam uma apetência especial para a miscigenação com os povos colonizados, tornando-se bons colonizadores e criando laços com estes povos. Assim, os bons colonizadores portugueses não teriam qualquer necessidade de, à semelhança de outros impérios europeus que começavam relutantemente a descolonizar, iniciar esse processo. Deste modo, a sua ação académica, iniciada na Escola Superior Colonial, que ajudará a remodelar, chegando a nós como ISCSP, foi, em grande parte, virada para a criação de um corpus científico capaz de legitimar a dominação colonial e pintá-la à luz das teorias do bom colonizador. .

No entanto, a sua ação de cariz colonial não se esgota na academia. Em 1961, depois de já ter tido responsabilidades de Estado na matéria, torna-se Ministro do Ultramar - cargo que irá manter até 1963. Repare-se que é Adriano Moreira o responsável por esta pasta aquando do início da Guerra Colonial, conflito contra os ventos da história que vitimou, feriu e traumatizou milhares de africanos e portugueses. Neste contexto, em junho de 1961, assinou uma portaria que reabre o famigerado Campo da Morte Lenta, no Tarrafal, um verdadeiro campo de concentração e de trabalhos forçados destinado a militantes dos movimentos de libertação nacional das colónias portuguesas.

Quase ao mesmo tempo que escolhemos celebrar uma figura charneira do colonialismo português na segunda metade do século XX, António Costa, em visita oficial a Moçambique, torna-se no primeiro Primeiro-Ministro a pedir desculpa pelo Massacre de Wiriamu. Em 1972, no contexto da Guerra Colonial, soldados portugueses levaram a cabo um massacre na zona, assassinando brutalmente cerca de 400 pessoas, incluindo crianças e mulheres grávidas. António Costa, afirmou perante o Presidente da República de Moçambique, que este massacre representava um "ato indesculpável que desonra a nossa História”. Ora, será este brutal massacre apenas uma mancha numa história de convivência pacífica e de tolerância ou, pelo contrário, um momento paradigmático da violência colonial que sempre pautou a atuação portuguesa? Inclino-me para a segunda resposta.

A imagem da história colonial tem-se alterado: afirma-se gradualmente o reconhecimento de massacres cometidos, da brutalidade da escravatura e da realidade do racismo. Não obstante, persiste a narrativa de que estes são atos isolados, que mancham uma história gloriosa de descobridores e navegadores que ligaram o mundo. Enquanto não procurarmos olhar de frente para a estrutura racista e violenta que acompanha os cinco séculos de colonialismo português, as instituições públicas continuarão a glorificar figuras como Adriano Moreira.

-Sobre Leonor Rosas-

Estudou Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Está a fazer um mestrado em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. É deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista.

Texto de Leonor Rosas
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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