Dia 14 de outubro é o Dia Mundial dos Carecas. Conhecido mundialmente como “Be Bald and Free Day”, este é um dia de coragem e de libertação. O objetivo é honrar a força dos homens e mulheres que assumiram a sua calvície.

Todos conhecemos calvos famosos. Uns pelos melhores motivos, outros nem por isso. Cito apenas Mahatma Gandhi, Yul Bryner e Sean Connery do lado dos bons.

O “careca” que mais influenciou a minha vida foi meu sogro. Conheci-o teria ele quase 50 anos e até ao dia da sua morte nunca lhe vi nem um pelito travesso a enfeitar a cabeça, que trazia sempre coberta pela proletária boina preta.

O meu sogro era feroz com tudo o que mexia à distância do cano da “escopeta” - porque chamar ao bacamarte, que poderia ter servido na 1ª Grande Guerra, “espingarda” era ofensa - fosse perdiz, coelho, lebre ou até javali. Mas mole e cobarde em relação à criação lá de casa, à qual carinhosamente chamava “o vivo".

Ir acomodar o "vivo", dar milho aos "bicos” (galinhas, galos e perus), ver o que se passava com os "marrecos", dar água aos coelhos, e assim por diante, eram tarefas que gostava de fazer e das quais se desenrascava menos mal...

Mas matar um desses animalejos para adornar a mesa em dias especiais? Isso nunca! Punha-se logo a mexer dali para fora, em direção ao clube lá da terra, deixando o campo livre para que a minha sogra tratasse do assunto.

Não é que ele precisasse de muitas desculpas para ir ao clube jogar uma suecada com os amigos e beber um ou dois "Cai Bem" (se não sabem o que é um "cai bem" não são da província nem têm por lá arrimo), mas nesses dias da morte anunciada de galo, galinha gorda, peru, pato ou coelho, era certo e sabido que só chegava a casa lá para o tarde, e devidamente "acompanhado".

A única exceção era a matança do porco (ou porcos) que se fazia para o Entrudo. Nessa altura, e ciente da sua posição de "pater familiae", o meu sogro não arredava pé da quinta, ajudando o matador, e até dando uma mãozinha na desmancha, comendo os rojões da matança e bebendo o vinho da sua lavra com todos os parentes e vizinhos que por ali se juntavam nesse dia especial.

Preparava-se logo de manhã, à laia de pequeno-almoço, o quinhão do matador - vísceras do porco morto na véspera com batatas cozidas e malagueta.  Muitas vezes fui eu que as preparei, abusando da malagueta porque nunca fui muito amante de fressura nem de bofe...

Logo de seguida, espevitada a fogueira no chão, começavam-se a assar lentamente as iscas do fígado, em lascas suculentas (aí já eu me arrimava um pouco mais...). Tudo isto era feito em ar de preparação para o Almoço, a Feijoada com cabeça de porco da Terça-Feira de Carnaval. Tudo o que entrava nesta feijoada devia ser do porquinho morto no ano passado, dando assim prova da qualidade da dona de casa na gestão da economia doméstica. Claro que se fazia quase sempre batota…

Nunca percebi porque é que as galinhas e outros que tais eram "quase da família" segundo o meu sogro, e os porcos não... embora, enquanto vivessem, estes últimos eram tratados com igual enlevo: couves e alfaces, milho e batatas da horta, muito passeio a pé para não criarem tanta banha, etc...

Muito provavelmente o ritual da matança - antiquíssimo - sobrepunha-se em peso de tradição à inclinação natural do homem, que pelos vistos não era muito dada a sangria desatada lá perto de sua casa.

Mas uma coisa era certa: em chegando o animalejo à travessa, fosse ele peru assado, galinha corada no forno com alho ou coelho guisado com vinho tinto, acabavam-se as cerimónias e era vê-lo enterrar com gosto os dentes (que os tinha bons e alvares) na carcaça do "familiar"... Sem pruridos, nem espinhas...

Abençoado sentido prático do lavrador!

Nota: "Cai-Bem" - aguardente com gasosa gelada e açúcar mascavado, proporções à medida do cliente, tudo mexido vigorosamente com uma colher. Como dizia o outro "é tiro e queda, nem dás por isso..."

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses.  Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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