No passado dia 16 de março a Lusa noticiava uma quebra de 80% em audiência e receita de bilheteira entre segunda-feira e domingo, comparativamente com a semana anterior. Num conjunto de dados revelados pelo Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) e reunidos pela agência de notícias, rapidamente se percebe que ainda antes de as salas de cinema terem de fechar ao público, as cadeiras já quase não estavam a ser ocupadas. Por casa, cineastas e produtoras começaram a entrar em ação. 

Ainda que no domingo, dia 15 de março, o estado de alerta já tivesse sido decretado pelo Governo, 1.035 espectadores  deslocaram-se a salas de cinema pelo país fora para para ver filmes em cartaz. No dia seguinte a NOS Cinemas, a UCI, o Cinema Ideal e o Nimas, estes dois últimos em Lisboa, anunciaram o fecho das suas salas por tempo indeterminado, por “motivos de saúde e segurança”. 

Ainda antes do fecho oficial das salas de cinema, gerava-se uma rede de contágio entre cineastas e produtoras, que decidiram partilhar filmes online gratuitamente, para ajudar a combater a ansiedade gerada pela quarentena e a impossibilidade de sair de casa.  No dia 14 de março Mariana Gaivão e André Gil Mata partilhavam no Vimeo “First Light” (2009) e “ARCAD’AGUA” (2013), filmes que fizeram, respetivamente, noutros tempos e que agora viram a luz das redes sociais. João Monteiro seguiu-lhes as pisadas com “José” (2019) e, pela mesma altura, a onda de partilhas foi crescendo.

“A Mariana [Gaivão] pensou que podia ser mais fácil as pessoas passarem algum tempo a ver filmes, questionarem outras coisas na vida, confrontarem-se com elas mesmas num outro sentido, e não estarem constantemente a ler notícias - como eu, pessoalmente, estou - e, de certa forma, por alguns momentos tivessem uma experiência que as desconectasse um pouco desta situação pandémica”, explica André Gil Mata ao Gerador. A partir de uma conversa entre os dois, que sentiam “uma certa impotência em fazer algo que ajudasse as pessoas nesta situação”, surgiu a ideia de partilharem filmes pela internet, por muito que esta não seja, a seu ver, a forma mais adequada à experiência do cinema no seu todo.

“Eu não tenho os meus filmes disponíveis na net (à excepção do "A Árvore" que por causa de um festival está disponível numa plataforma em Espanha) porque não acho o ecrã do computador o lugar indicado para "projectar" cinema. Acho que o cinema é feito para se ver nas salas. Ver um filme num ecrã de computador poderá estar ao mesmo nível de ver teatro filmado numa televisão. Mesmo que a maior parte das salas, hoje, com o sistema digital tenham uma projecção (tanto ao nível de imagem como de som) terrível, ver um filme no cinema é um ato de imersão e, simultaneamente e paradoxalmente, uma experiência colectiva. Mas - infelizmente e por razões mais do que razoáveis - as salas vão estar fechadas por largos meses”, explica André. 

João Monteiro acredita que “somos os principais responsáveis para a transformação do estado atual do mundo". "Sempre o fomos não vamos mentir, mas neste momento, não podemos depender de mais ninguém se não nós próprios enquanto comunidade. Todos temos de oferecer em troca da estabilidade que procuramos.” Quanto à sua "responsabilidade enquanto cineasta e artista”, João sente que esta “recai sobre a sustentabilidade que a cultura necessitará no futuro”. 

Foi a pensar num espírito de "comunicade" que João Monteiro partilhou "José" (2019)

Um período incerto para o cinema, no país e no mundo

As implicações do estado de pandemia no cinema em Portugal foram-se fazendo sentir pela voz de alguns dos seus protagonistas que mostraram descontentamento por o que já conseguem prever. À Lusa, no dia 16 de março, Pedro Borges, produtor da Midas Filmes lembrou que “esta é uma questão sensível, porque [os trabalhadores nesta área] só têm rendimento quando há trabalho e parar implica que não entre rendimento e há despesas fixas que não param”.

Na mesma linha, Fernando Vendrell, produtor da David&Golias, falou de "uma incógnita muito grande” perante a paragem do setor, uma vez que “há riscos financeiros muito grandes”. Os desafios arrastam-se em todas as fases de um filme, da sua concepção à distribuição. 

Até à data o ICA não mencionou qualquer alteração nos apoios estabelecidos para o concurso deste ano, abertos em fevereiro - nem mesmo nas Medidas Excepcionais que publicou no dia 18 de março, aqui. Segundo o ICA, citado pela Lusa, "os produtores que se candidatam aos concursos de apoio ao cinema terão flexibilidade em matéria de planos de distribuição e exibição dos filmes apoiados".

Naturalmente, o problema não se limita ao território nacional. Ontem, pela hora de almoço, o The Guardian noticiava que pelo menos 120.000 pessoas estavam já sem trabalho em Hollywood e que no Reino Unido aproximadamente 50.000 freelancers estavam em risco de perder o seu trabalho. 

Por muito que o setor esteja em espera, há quem até há pouco tempo não tivesse reagido à situação pandémica com um cancelamento. É o caso do Festival de Cannes que, após a revista semanal Le Point ter publicado no sábado um artigo em que cita um membro do conselho de administração do festival, em anónimo, a dizer que seria “muito difícil se não impossível” selecionar filmes "da China, Coreia, Irão e Itália e outros tantos países sabendo que os seus atores e realizadores não iam poder comparecer”, negou qualquer mudança de planos.  

O evento decorreria entre os dias 12 e 23 de maio e apresentava no dia 16 de abril o alinhamento final. No momento da escrita desta peça, pelas 21h00 (hora francesa) do dia 19 de março, o Festival de Cannes emitiu um comunicado a anunciar o seu adiamento. 

Nesse mesmo comunicado, que pode ser lido na íntegra aqui, a organização refere que “estão a ser estudadas várias hipóteses para a realização do festival”, entre elas um adiamento para o final de junho-início de julho. 

Para André Gil Mata, "Cannes não acontecer até pode ter um lado positivo, pois pode mudar o paradigma dos grandes festivais, uma vez que Cannes é uma feira, mais do que um lugar aberto para as pessoas verem filmes." "E antes disto acontecer”, acrescenta, "os festivais já estavam a tomar um papel de mercado e a transportar conceitos de uma sociedade com um olhar puramente económico e de números, que me parece que vai completamente no sentido contrário ao que o cinema deveria seguir.” Remata a ideia com uma hipótese que deixa em aberto: "Pode ser que seja um bom momento para pensarmos noutros modelos de exibição, mais perto das pessoas, menos "para alguns”. "

Ver filmes e descobrir novo(s) mundo(s)

Podemos não saber o futuro do cinema, mas certamente as coisas não serão como as conhecíamos durante um período que, como para tudo neste momento, é indefinido. "O cinema irá sofrer uma crise financeira gigante, maior da que já se vive em Portugal”, lança João Monteiro. No entanto, consegue retirar partes positivas dos cenários negros: “espero - aliás, tenho quase a certeza - que essa será veículo para uma época de ouro criativa a nível internacional". "Basta olharmos para a história e concluir. Todas as “vanguardas” surgem em consequência de uma calamidade. Os festivais, os autores e todos esses ultrapassarão este momento com os melhores filmes da história. Espero poder contribuir para esse renascimento. É uma questão de refletirmos sobre o que esta crise nos está a fazer valorizar: a responsabilidade de ser livre”, argumenta.

Para quem recebe os filmes de Mariana Gaivão, André Gil Mata, João Monteiro ou qualquer outro criador que tenha pensado neste momento como a oportunidade para partilhar a sua obra, a quarentena pode ser um momento de descoberta. De novos autores, novos questionamentos e novas formas de ver o mundo. 

“O que se está a passar já nos obriga a questionar muitas coisas nas nossas vidas, no nosso modelo social, nos vícios que temos como indivíduos, no quanto estamos presos a certas questões que talvez não sejam fundamentais. Se para além disso, tivermos a capacidade - que como disse antes, eu pessoalmente não estou a conseguir ter - de irmos ainda mais além refletirmos sobre outros assuntos, creio que pode ser até um momento que acabe por ter um lado muito positivo, e de certa forma nos dê força e esperança para encarar o que o mundo está viver”, conclui André Gil Mata. 

João Monteiro completa: "Li que o William Shakespeare escreveu o “King Lear” enquanto fazia quarentena da gigante peste negra que atingiu a Europa no passado. Acho que essa curiosidade possa ser suficientemente para valorizarmos o tempo que temos para nós próprios”.

Da tela para o ecrã: há cada vez mais filmes gratuitos online para veres

Depois de fechar o espaço Nimas, a Medeia Filmes disponibilizou três filmes do realizador alemão Wim Wenders - por ordem, "O Estado das Coisas" (1982), "Paris, Texas" (1984) e "Lisbon Story" (1994). Quarentena Cinéfila é uma iniciativa semanal da Medeia em que, todas as semanas, vão sendo disponibilizados três filmes diferentes. Cada filme, escolhido pela distribuidora, fica disponível 36 horas, das 12h00 do dia de lançamento às 24h00 do dia seguinte, como já te tínhamos falado aqui.

Já o site especializado em cinema À Pala de Walsh reuniu alguns dos filmes disponibilizados por realizadores portugueses - de André Gil Mata e Mariana Gaivão a Edgar Pêra e Mónica Baptista.

Os realizadores portugueses têm estado a disponibilizar filmes seus na Internet para todos aqueles que agora se...

Publicado por À pala de Walsh em Segunda-feira, 16 de março de 2020

Num momento incerto para o cinema e com um impacto que já se sente na cultura, a partilha tem sido uma forma de dar a ver novos mundos ao mundo (mais do que mera distração).

Já o futuro do cinema, esse continua (sempre) em aberto.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Anthony Mendoza disponível via Unsplash


Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.