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O colonialismo (ainda) está pelas ruas

Michel de Certeau, historiador francês, falava do ato de andar pela cidade como criador de um espaço de enunciação. Os nomes das ruas, praças, os monumentos e memoriais que as compõem significam as nossas vidas e são significados por elas. Ao fazer a sua vida pelas ruas da cidade de Lisboa, qualquer caminhante atento entra em diálogo com a Praça do Império, o Padrão dos Descobrimentos, o Bairro das Colónias ou a Rua das Pretas. Citando a geógrafa Doreen Massey, o espaço é político e a sua memorialização e ocupação também. Contemplando a paisagem memorial, toponímica e monumental de Lisboa, podemos perguntar-nos: quem está aqui representado? E quem não está? Ora, de quem são os nomes das ruas, a quem são os monumentos e que história sobre a cidade e o país querem contar a transeuntes e turistas?

Esta é uma discussão que se constitui como central nos tempos mais recentes. Em junho de 2017, em Lisboa, gerou-se um debate aceso a propósito da inauguração de uma estátua de Padre António Vieira pela Santa Casa da Misericórdia que retratava o mesmo rodeado por pequenos indígenas semi nus, numa posição de clara inferioridade face ao português. Mais tarde, no auge do movimento Black Lives Matter e do debate por todo o mundo sobre a representação no espaço público de colonizadores e colonizados, esta estátua foi grafitada com a palavra “descoloniza”. No mesmo ano, aquando das eleições autárquicas, o ex-Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e então candidato, Fernando Medina, fez constar do seu programa para a cidade a proposta de construção de um “Museu das Descobertas”. Esta proposta foi recebida com indignação por numerosos ativistas e cientistas sociais que, (parece-me) com razão, sublinharam que os povos indígenas africanos, asiáticos, sul-americanos e oceânicos não foram descobertos. Pelo contrário, tinham ricas civilizações que, frequentemente, foram destruídas pela violência do colonialismo europeu. Sublinharam igualmente que este museu contribuiria para a fixação de um passado mitológico e erróneo, de raízes lusotropicalistas. Em fevereiro de 2021, deu entrada na Assembleia Municipal de Lisboa uma petição pública, impulsionada por um grupo de extrema-direita, chamada “Contra o apagamento dos brasões da Praça do Império”. No fim do mesmo ano, o assunto voltou ao debate na Assembleia Municipal de Lisboa, agitando a direita do hemiciclo, que se afirmou defensora da história portuguesa e dos seus feitos heróicos face aos que queriam debater e denunciar a violência do colonialismo português. Ainda em outubro de 2021, a extrema-direita voltou a agitar-se, organizando uma carta aberta contra a exibição do filme “O Princípio, o Meio, o Fim e o Infinito” - que reflete sobre colonialismo e racismo - no Padrão dos Descobrimentos. Novamente, foram mobilizados os gastos argumentos da defesa da História e da identidade portuguesa face àqueles que as insultam. Ainda em 2021, dia 16 de março, o partido de extrema-direita Chega escolheu o Padrão dos Descobrimentos como cenário para lançar a sua campanha autárquica à cidade de Lisboa. Esta representa outra performance de ocupação deste espaço que o sacraliza, tornando-o num suposto espaço de culto à nacionalidade portuguesa, que dizem querer proteger. No entanto, têm sido muitos e muitas os ativistas e investigadores que procuram ressignificar o espaço da cidade de Lisboa e apontar a ausência das histórias das pessoas colonizadas e racializadas da mesma. Em 2017, um projeto para um Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas, avançado pela Djass - Associação de Afrodescentes - venceu o Orçamento Participativo de 2017 e foi incluído no orçamento da Câmara Municipal de Lisboa. Simultaneamente, nos últimos anos, associações como a African Lisbon Tour e a Batoto Yeto têm promovido visitas guiadas que pretendem recuperar a história negra de Lisboa. Os investigadores e os movimentos antirracistas não pretendem destruir ou privar os outros do património da cidade de Lisboa, mas colocar em questão a noção de património - quem lembram e quem esquecem. Estes são apenas alguns exemplos ilustrativos de como o espaço que nos rodeia e as narrativas que escolhe contar a quem por lá passa são alvo de constantes disputas políticas e ideológicas, que refletem clivagens profundas num país que, face a cinco séculos de colonização, insiste em declarar-se como não sendo racista.

Debater quem está representado no espaço público e como se conta a sua história, tal como nos manuais escolares, nos museus, na imprensa ou no cinema e televisão, não é questão de somenos importância. Em junho de 2020, o jornal Público, pela mão de Joana Gorjão Henriques, publicou um estudo do European Social Survey que revela que 62% dos portugueses manifestam crenças racistas. Um em cada três dos inquiridos concordou com todos os preceitos do racismo biológico e cultural. Apenas 11% rejeitou qualquer forma de racismo. Em 2022, está na hora de encarar de frente as questões do racismo estrutural, de contar a história do colonialismo português, dos 6 milhões de pessoas escravizadas e do que falta fazer. Assim, termino deixando três verbos que espero que possam marcar o ano que começa: relembrar, reparar e restituir.

-Sobre Leonor Rosas-

Estudou Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA-FCSH. Está a fazer um mestrado em Antropologia sobre colonialismo, memória e espaço público na FCSH. É deputada na AM de Lisboa pelo Bloco de Esquerda. Ativista estudantil e feminista.

Texto de Leonor Rosas
Fotografia de Ana Mendes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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