Pode parecer a mesma coisa. Há mesmo quem comece pelo princípio. Tirando os que começam pelo meio e pelo fim e quando se termina ainda nem principiar tenha acontecido.

O começo é um momento para fender a terra e semear. O princípio cuida de arados diferentes. Há quem comece sem nenhum princípio ou que ao longo da fenda perca o fio à meada e se trame nas coisas que não têm princípios nem fins. Há quem comece sem princípio algum e pelo meio do lavradio encontre cheiros novos na chuva que emprenha e cuida do húmus e num repente se ponha a cismar sobre todas as coisas. O princípio do começo pode ser tanto e por outro lado nada de nada. Quando nada se encontra antes de começar é como nascer, pois quem começa do nada é zigoto, girino, larva, célula, soprando o balão. Há princípios que crescem e não incham como os balões, as barrigas das grávidas ou a bazófia dos ricos. Discretamente, instalam-se na sala, no quarto, nos mais recônditos cantos dos armários, e num sussurro organizam os dias e as noites. Cada princípio é sempre um começo. Ou bem então há outros onde zurra o burro, que teima em dar coices contra o vento. Princípios sem discrição nem proveito para o comum dos viventes, mas que ditam alto o zurro e açoitam cerce os descrentes. Há começos extraordinários e outros ordinários. Mesmo muito ordinários. Começos vãos, começos antanhos, começos chãos, começos alados, começos sonoros, outros calados. Há que principiar o começo do começo e nesse princípio encontrar o seu avesso, o fim do começo o ocaso do princípio ou perceber, no benefício da dúvida, que nem o que se começa pode algures principiar ou que que se principia ter verdade de começo. Antes e depois tudo se move e no fundo e no alto, só se continua, nem se começa nem se principia, não se acaba ou fenece, viaja-se apenas, entre apeadeiros vazios, assim-assim e cheios, uns entram, outros saem, e quando menos se dá conta, nenhuma paragem está onde devia estar, a veloz máquina anda devagar, o horizonte é curvo e alonga-se o sentido dos hemisférios. A geografia é uma ciência vã, antes e só, sem principiar ou começar, por as mãos na maçã. O resto, é uma história sem nome.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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