O propósito do compromisso social do museu é a reconfiguração da instituição face à relevância que pretende adquirir enquanto lugar de transformação, participação e responsabilidade social; implica um ajuste de prioridades capaz de gerar impactos ao nível do bem-estar das populações servidas, do aumento da literacia cultural e cívica, e do acesso. Para empreender este compromisso é necessária autonomia, consulta externa, relação com o meio, mediação e colaboração entre agentes.

Esta ambição produz um desvio e obriga à definição de novos critérios para a escolha dos temas e das formas de abordar as coleções. No leque de questões sociais urgentes a tratar nos museus estão as relacionadas com os direitos humanos, a igualdade de oportunidades, a justiça social, o clima, a biodiversidade, entre outras problemáticas sociais e ambientais que exigem debate e requerem das instituições uma posição clara, não neutral, coerente com a sua missão e valores.

Com efeito, a evolução da cultura organizacional dos museus, e das instituições culturais, em prol de uma governança mais focada no Presente, mais ágil e flexível, interventiva e transparente, afeta todos os setores da organização, em particular dos recursos humanos, que tem de estar preparado para renovar as suas equipas suprindo as carências identificadas nas áreas da mediação, da educação e de todas as áreas de atuação que envolvam a relação com os públicos e provem ser necessárias para implementar formas de relação adequadas ao meio.

Para preparar o compromisso social do museu de forma responsável e continuada é preciso ultrapassar a noção de business as usual e inovar. As organizações devem questionar:

– que conhecimentos, que competências são necessárias para implementar práticas multidisciplinares e estimular relações colaborativas e participativas?

– como formar as equipas para que saibam desempenhar as tarefas exigidas: com, para e nas comunidades.

Igualmente essencial é conhecer bem o território e envolver a vizinhança numa ação estratégica que se posiciona “de fora para dentro”, da sociedade para o museu, ao invés de centrar a observação no interior da instituição museológica.

As questões que levanto são amplamente tratadas nos diversos artigos que compõem a edição “Museum Activism”[i], e que sublinham a urgência dos museus confrontarem os  desafios contemporâneos e se apresentarem à sociedade como espaços críticos, ativos na procura de soluções para as crises emergentes, através das conexões que podem estabelecer com a coleção, com o conhecimento e com os valores que defendem, construindo assim outros significados e narrativas que ajudem os indivíduos a compreender o Passado e o Presente.

A educação e a mediação no museu que se prepara para intervir na próxima década, deve ser entendida como uma forma de ativismo que serve de apoio ao exercício da cidadania plena, porque parte da realidade, do problema e da sua complexidade para a abordagem ao objeto ou bem cultural/ artístico/ patrimonial; esclarece posicionamentos históricos, sociais e culturais; promove a reflexão crítica, o conflito[ii]; “acende chamas”[iii] (questiona, informa, transforma); forja o encontro com realidades fraturantes (onde geralmente predomina a ignorância e o preconceito); assume o poder publico que detém enquanto fórum da diversidade, promotor do debate livre, plural e justo e da ação esclarecida.

A este respeito, vários autores, como Lynch (2017) e Vlachou (2019), defendem a importância de chamar ao museu os temas controversos e as “conversas difíceis”, apoiando o diálogo e a argumentação de pontos de vista distintos, a aprendizagem interpares ou a criação de empatia. Estas autoras relatam, através de casos concretos, que o confronto com realidades diversas, incluindo por exemplo a escuta aos representantes de grupos marginalizados, pode oferecer uma estratégia positiva para combater a polarização das opiniões e elevar a consciência crítica dos públicos, comprometendo-os.  Com efeito, a chamada de temas controversos ao museu estimula a adoção de novos comportamentos e a construção de conhecimento a partir da diversidade, contribuindo desta forma para a imaginação de outras possibilidades de ver e viver no mundo.

Este museu ativo, empenhado na edificação do “bem comum”, usa as coleções não apenas para o deleite e o entretenimento, mas para narrar as estórias e a História, abordando dilemas, reforçando a multiplicidade de sentidos e o pacto de salvaguarda contextualizada da informação e dos testemunhos. Este museu trabalha com os públicos para criar discursos que integram narrativas coletivas de identificação e incorpora nas suas missões as emoções e as vozes dos cidadãos. Esta é sua forma de ativismo.


[i] JANES, R. e SANDELL, R. (eds) _ Museum Activism. London and New York: Routledge, 2019.

[ii] Entenda-se o conflito como motor da aprendizagem e a substância do trabalho de mediação para o envolvimento ativo de pessoas e ideias. O conflito provoca a mudança e por isso não deve ser evitado ou “mascarado” sob pena de gerar falsas perceções sobre a realidade e os factos e de reforçar uma postura de autoridade.

[iii] Como indica o ensinamento atribuído a Aristófanes, «educar não é encher um copo, mas acender uma chama».

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho
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