As pessoas não são iguais. Por isso se brinca com a cor amarela e se tenta definir comportamentos de forma simplicista: as Cotovias definem quem acorda muito cedo e é muito activo até meio do dia; as Beija-Flor preferem acordar a meio da manhã e deitar-se depois da meia noite e, finalmente, existem as Corujas que preferem estar acordadas noite dentro e acordar pelo almoço. Todas são activas ao seu ritmo.

E, num repente, tudo mudou com a pandemia.

De um dia para o outro, ficámos confinados, aprisionados, sem saber muito bem como continuar a vida dentro das paredes familiares. Há quem prefira trabalhar em casa, mas para isso dividiu espaços e sabe que, mesmo assim, tem de ter horários e regras para cumprir. Mas quem trabalha num escritório viu-se de um dia para o outro confrontado com falta de espaço, de equipamento e, atenção, com a presença 24/7 do cônjuge e dos filhos.

Ninguém estava preparado para isto.

Não tardou muito para o “teletrabalho” entrar na gíria comum. As lojas esgotaram os stocks de webcams, computadores e demais acessórios informáticos. Dividir a net, consumíveis e equipamentos, passou a ser uma realidade diária para muitas famílias. E nem menciono todas as que não têm condições sociais para poder trabalhar e estudar a partir de casa por todas as dificuldades que conhecemos.

No entretanto, alguns patrões perceberam o filão que é o teletrabalho: ao poupar em tudo (rendas, contas, etc.), passam as responsabilidades para os empregados que ficam com o ónus dessa mudança.

Como muitos trabalhadores foram, num repente, confrontados com uma nova “liberdade”, e mais tempo útil que a não obrigação do trajecto casa – trabalho – casa permitiu, foi fácil não antever a armadilha em que estavam prestes a cair.

De repente, eram eles quem pagava as contas do seu próprio trabalho para terceiros. E isto não é lógico nem sequer legal.

No dia 1 de Janeiro, os franceses publicaram uma lei no código laboral que prevê “o direito a desligar”. Imediatamente soaram alarmes por toda a europa. Portugal garante estar “a acompanhar o tema”. Já os espanhóis, sempre mais lestos que “nosotros”, afirmaram que vão imitar os franceses que, na verdade, também não definiram exactamente o conteúdo ou a fórmula, estando ainda em discussão com patrões e parceiros.

Enquanto se acompanha o tema, os portugueses estão esgotados, em burnout, totalmente descompensados, com horas de trabalho a mais, inclusive ao fim de semana, e sem privacidade: os emails jorram, os telefonemas profissionais não cessam, as reuniões em plataformas digitais podem acontecer a qualquer hora de qualquer dia.

A liberdade de estar com calças de pijama numa reunião por Zoom, ou Teams, ou Webex, ou StreamYard, ou qualquer outra, não paga a abertura da nossa casa, do nosso espaço, do “eu” a todos os colegas. Certo?

O direito ao descanso está consagrado na lei. As férias anuais são obrigatórias (e pagas, para quem é empregado de alguém). Está provado que temos de parar para recarregar pilhas. Uns conseguem-no mais facilmente que outros, mas sabemos que somos um animal de hábitos e vícios.

E o trabalho pode ser um ou outro e ambos ao mesmo tempo. Por isso, fala-se de um “novo esclavagismo”, da total disponibilidade sem lei nem roque. E o resultado, no final de apenas um ano, está aí. Mais doenças, mais crises, mais problemas.

Podem as empresas ser humanas? Algumas tentam porque entendem que a massa laboral tem de estar saudável para poder atingir objectivos. Na Alemanha há marcas que desligam os servidores após o período laboral. Imaginam esta solução, que peca por defeito, acontecer nas empresas portuguesas?

Esta é uma questão fundamental para o futuro de quem trabalha porque, está claro, nada vai voltar a ser como dantes e vamos entender o trabalho nas suas novas variações. O tal teletrabalho veio para ficar porque, para muitos empregados e patrões, é mesmo uma mais valia. E se for bem pensado, escalonado e apresentado, até pode ser um “win/win”.

O pior é que regular esta matéria não é uma acção local, mas sim europeia, já para não dizer global (nunca o será). Como redefinir o que é liberdade? Actividade? Privacidade? Vamos ter horas extraordinárias por trabalhar mais que o previsto? Tantas questões.

Exige-se uma profunda e rápida reflexão porque, ao contrário dos governos e das suas leis, o mundo não se pode dar ao luxo de esperar por decisões. Também ele quer ter o direito a desligar para recarregar os cartuchos.

Este tema é tão urgente que vai abrir a V edição do Festival Mental, dia 20 no Cinema São Jorge, no M-Debate: “A Saúde tecnológica Na Saúde Mental”.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho